O movimento ecumênico lembra Rubem Alves, 1933-2014

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29 Julho 2014

"Rubem Alves, um dos pensadores fundamentais por trás da Teologia da Libertação latino-americana, morreu aos 80 anos no sábado, 19 de julho. O estudioso, professor, ativista, psicoterapeuta e autor está sendo lembrado por colegas, ex-alunos, jornalistas e outros, incluindo chefes de Estado. A presidente brasileira Dilma Rousseff o considerou, em sua página no Facebook, como 'um dos intelectuais mais respeitados do Brasil'", escreve Theodore Gill, editor de publicações do Conselho Mundial de Igrejas – CMI e ministro ordenado pela Igreja Presbiteriana (EUA), com informações de Marcelo Schneider, correspondente do departamento de comunicação do CMI para a América Latina, com sede no Brasil, em artigo publicado pelo Conselho Mundial de Igrejas, 24-07-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Admiradores diversos estão lembrando-o a partir de uma série de perspectivas. Para alguns membros da Igreja e de organizações ecumênicas, Rubem Alves está sendo lembrado como um dos grandes inovadores na área da educação, que ajudou a aprimorar a ética social cristã à luz da Teologia da Libertação, bem como a moldar o campo da formação ecumênica em parceria com instituições teológicas de diferentes partes do mundo (de norte a sul), além de alguns programas do Conselho Mundial de Igrejas – CMI, a Federação Mundial de Estudantes Cristãos – FUMEC, a SODEPAX e organismos internacionais semelhantes, além de conferências de igrejas.

Rubem Alves certa vez comentou: “Profetas não são visionários que anunciam um futuro que está por vir. Profetas são poetas que projetam um futuro que pode acontecer. Os poetas sugerem um caminho”. Aqui, Rubem Alves trabalhou como poeta e profeta alinhado com o movimento ecumênico.

Enquanto era estudante de teologia em Campinas, no interior de São Paulo na década de 1950, juntou-se a um grupo de seminaristas que “estavam passando suas férias de verão” como trabalhadores de uma fábrica na Vila Inastácio, na cidade de São Paulo. A experiência inspirava-se nos padres trabalhadores da França que pararam de esperar que os trabalhadores da indústria viessem para a igreja, decidindo ir ao encontro deles no local onde viviam e trabalhavam”.

Durante a década de 1960, Rubem Alves alternava-se entre o serviço de pastor paroquial presbiteriano e os estudos como pesquisador de pós-graduação em Teologia. Durante a ditadura militar, foi listado como um dos pastores procurados pelos militares e, assim, saiu do país em busca de dar sequência a seus estudos.

Recebeu diplomas de pós-graduação do Union Theological Seminary, em Nova York, e Princeton Theological Seminary, também nos EUA. Embora ele e o jovem teólogo católico Gustavo Gutierrez estivessem trabalhando e publicando sobre o que chamaram de “teologia da libertação”, os dois se encontraram somente em 1969, perto de Genebra numa consulta ecumênica da SODEPAX, o Comitê Misto para a Sociedade, o Desenvolvimento e a Paz, patrocinado pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela Igreja Católica.

Filosofia, vida e obras de Rubem Alves

Rubem Alves é frequentemente considerado como o autor que moldou a filosofia da SODEPAX, em particular os princípios éticos por trás de sua abordagem para as tomadas de decisão e ação social. Ao mesmo tempo, envolveu-se como participante em seminários e conferências convocados sob os auspícios da Igreja e Sociedade na América Latina – ISAL, programa que havia sido fortemente incentivado após a Conferência do CMI sobre igreja e sociedade ocorrido em Genebra, em 1996.

Através do escritório de educação do CMI composto pelo educador brasileiro Paulo Freire, pela ISAL e pela FUMEC, presidido de 1968 a 1972 pelo seu ex-orientador de doutorado M. Richard Shaull, Rubem Alves se tornou figura conhecida nas conferências e nos simpósios ecumênicos internacionais. Este fato culminou com a apresentação na Conferência sobre Igreja e Sociedade, do CMI, em 1979, tratando sobre fé, ciência, tecnologia e o futuro, evento que aconteceu no Massachusetts Institute of Technology – MIT em Cambridge, EUA.

Depois de voltar ao Brasil, Rubem Alves tornou-se professor universitário; seus interesses iam desde a teoria da educação à filosofia construtiva. Seus escritos abrangeram muitas áreas, incluindo livros para crianças. Eventualmente também acrescentava ao seu portfólio a área da psicoterapia, tendo estabelecido sua própria clínica inclusive.

A reverenda Sonia Gomes Mota, ministra da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e secretária executiva da CESE, agência brasileira de apoio aos direitos humanos, justiça e paz, conheceu Rubem Alves quando era jovem. Ele foi seu pastor. No início desta semana, ela lembrou o seu papel na Igreja:

Rubem Alves fazia parte de um grupo de pastores e pastoras que realizaram formas diferentes de ser uma igreja reformada. Este processo levou à criação da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil – IPU, atualmente membro do Conselho Mundial de Igrejas. Com a sua erudição, com o seu compromisso ecumênico e social, ajudou a esboçar os documentos fundadores que constituem a base da IPU. Ele não estava interessado em nos dar lições de moral ou transmitir uma verdade absoluta e inquestionável. Como um bom teólogo, filósofo e educador, estava mais interessado em fazer a gente pensar, refletir e questionar as verdades imutáveis da teologia e em nos instigar na descoberta de novas possibilidades e novos caminhos de viver a nossa fé. Rubem Alves nos levou para o deserto e nos convidou para sermos jardineiros e plantadores de esperança”.

Nos últimos anos, Rubem Alves mantinha um toque pastoral e profético com as pessoas que encontrava, mas a sua associação com a religião institucional se tornou mais reservada.

Na sequência da morte de Richard Shaull, teólogo e ex-presidente da FUMEC, com quem o autor brasileiro teria estudado tanto em Campinas como em Princeton, Rubem Alves escreveu um breve porém bastante cordial tributo, que foi publicado pela Aliança Mundial das Igrejas Reformadas em seu jornal Reformed World, intitulado “Através dos olhos de Dick Shaull”, em setembro de 2006. Descreveu seu falecido amigo como um poeta e profeta que, muitas vezes, brigava com pessoas influentes de dentro das igrejas. Rubem Alves escreveu: “Os profetas são seres amaldiçoados”.

Rubem Alves concluiu seu ensaio sobre o falecimento de seu mentor com estas palavras: “Ele partiu. Claro, irei plantar uma árvore em sua homenagem em meu solitário e pequeno pomar, no topo de uma montanha, ao lado de um vulcão, próximo às árvores de outros conspiradores (...) Em seu silêncio, quando ninguém estiver à volta, as árvores irão conversar umas com as outras”.

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