“A máquina social é construída em torno das ambições ao Eros universal, que é o dinheiro”, entrevista com o sociólogo Christian Ferrer

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Por: Caroline | 24 Julho 2014

Para Christian Ferrer (foto),as novas tecnologias servem apenas para poupar tempo dos donos das empresas. “Deve-se saber que – disse –, os trabalhadores trabalham as mesmas horas que antes, não há ganho de tempo, mas aumento da produtividade”.

“As pessoas confiam que a técnica irá resolver o velho problema do sofrimento humano, não se dando conta de que os custos vital e econômico por essas comodidades são pagos em termos temporais, já que se tem que dedicar muitíssimo tempo para conseguir o dinheiro para pagar por elas. E são pagas em termos vitais tanto e quanto a pessoa já não possa mais se imaginar com outras alternativas com as quais poderia viver em paz ou mais suavemente”, disse Christian Ferrer, pensador que aborda com olhar crítico, e muitas vezes ácido, os modos com as quais nossa sociedade nos molda como “consumidores”, partindo da educação que recebemos – “o saber sem alma, transmitido sem coração, que, além disso, pressupõe que esses conhecimentos explicam obscuridades ou mistérios que sempre preocuparam os seres humanos, é um erro” –, nesta entrevista Ferrer irá voltar as perguntas sobre a origem ou as origens dos seres humanos: a dor, o amor, a felicidade, a amizade, o desejo. Perguntas que abrem as mentes. Perguntas para as quais não há resposta. E que, às vezes, inclusive – diz ele - as soluções pioram os problemas.

A entrevista é de Sonia Santoro, publicada por Página/12, 21-07-2014. A tradução é do Cepat.

Fonte: http://goo.gl/B290l7

Eis a entrevista.

De onde você vem, Ferrer?

Que pergunta. Eu acredito que sou uma consequência da escola tradicional argentina na qual estudar era uma obrigação, não um gosto, não um despertar para a curiosidade. O que essa escola oferecia aos alunos era um saber enciclopedista. Essa escola provavelmente já tenha desaparecido como ideal, mas para mim parecia como um modo, um tipo de alimento, tipicamente moderno que, por outro lado, me convinha. Saber muito sobre diferentes campos possíveis que relacionavam-se com o humano.

Você gostava de ir à escola?

Não. Para uma criança, alguém que vai a escola durante anos, anos e anos, todos os meses, todas as semanas, todos os dias, por horas e horas, restam diferentes possibilidades vitais em função dos saberes que são transmitidos e que não necessariamente irão servir para a vida. Acredito que soluciona mais as necessidades da realização dos pais do que outras coisas. A ideia da alfabetização por si também não me parece necessariamente boa. De fato, a maior parte das culturas que existiram no mundo tiveram transmissão do conhecimento oralmente e sem estes lugares, que são fábricas de títulos e de suposições... pessoas aptas para seguir em uma espécie de caminho dentro de uma máquina geral e para quem a educação não interessa, salvo em relação aos saberes de eficácia que possam ser aplicados em diferentes indústrias, em diferentes serviços, em universidades. A alfabetização atual não implica formação do caráter da pessoa, mas apenas transmissão de conhecimentos, além das funções que relacionam-se com a sociabilidade.

E como pai, como vê a escola?

Como te dizia, é a transmissão de conhecimento, camada após camada, após camada. Não é o que alguém poderia chamar de educação. Além disso, as jornadas escolares se estenderam muito.  Até a década de 1960 não era habitual enviar crianças a jardins de infância e hoje uma pessoa pode passar não apenas os anos de formação escolar secundária e universitária nestas instituições, mas as vezes está encarcerada aí até que se jubile como aluno. Não necessariamente isso resulta em uma maior sabedoria, nem em maior acumulação de saber, nem em benefícios que possam estar associados à formação da consciência. Portanto, o problema da criança, que é ter aceitação e amor, como base para sua própria formação pessoal, não necessariamente está resolvido com as horas, horas e horas, que passa em uma escola. O saber sem alma, transmitido sem coração, que além disso pressupõe que esses conhecimento explicam obscuridades ou mistérios que sempre preocuparam aos seres humanos, é um erro.

A Igreja tem buscado em seus colégios a formação de caráter, mas muitas vezes isso é um problema.

Por quê?

Porque nem todos tem que acreditar nos valores que a Igreja crê. E o monopólio...

Seria monopólio contra monopólio. O monopólio do Estado e o monopólio eclesiástico. São dois monopólios.

Nenhum é melhor?

Parece-me que o que os pais esperam da educação não é que as crianças saiam melhor formadas ou que sejam receptáculos do saber dos quais possam orgulhar-se. O que a sociedade espera da educação é que as crianças tenham a formação suficiente para poder ganhar o pão, quer dizer, ganhar a vida, como diz a metáfora tradicional, metáfora, por outro lado, que é espantosa em si mesma. O que se espera é que a escola os domestique o suficiente e ao mesmo tempo os torne suficientemente agressivos para que, quando chegue o momento de ingressar no mercado de trabalho, essa pessoa esteja com disposição para aceitar as normas e obrigações que isso traz consigo, tanto em questão de submissão como em questão de agressão; chefes e empregados, isso é o que se espera da educação.

Obviamente, de vez em quando ocorrem outras coisas que se cruzam com demandas geracionais, ou com o que acontece na própria sala de aula. De repente alguma professora, algum professor, ensina em sala de aula como se estivesse em uma ilha deserta, como se estivesse com poucos náufragos, crianças. E os dá o melhor, o que ele pode dar. E então não há muros, nem salas de aulas, nem lousas, nem notas, nem títulos. Contudo essas situações de naufrágio são raras.

E por que você dá aulas? Quem passou por suas aulas pode sentir esse naufrágio?

Nas aulas se dialoga com mortos e com os que ainda não nasceram.

Como é isso?

Fala-se de autores, alguns antigos ou muito antigos, com quem se pode sentir-se mais a vontade do que com os contemporâneos. De tal maneira que os autores antigos passam a ser contemporâneos. E se fala sobre um mundo do qual nada sabemos ainda. Não porque podemos planeja-lo, não porque possa ser melhor com algum tipo de programa político que supostamente possa superar, não.  Até porque as crianças vão continuar nascendo. Então, a aula ideal seria aquela que está, ao mesmo tempo, morta e viva. Isto é, suspensa de todas suas obrigações em relação à atualidade e conectada apenas com esse rio perdido onde foram parar todos os mortos e ao mesmo tempo conectado com o desejo da espécie de não perecer, assim se pode trazer novas crianças ao mundo com a esperança de que não herdem este mundo. Parece-me que isso é o que acontece na aula. Para mim, todos os discursos sobre a educação pública, o sistema pedagógico nacional, a modernização e a atualização não me dizem nada. Para mim o que me diz algo é o que ocorre em uma aula em especial. O que aconteceu com o aluno, o que aconteceu com o professor.

Interessam a você as biografias de personagens extravagantes ou exóticos, como surge a ideia do livro Camafeos?

Alguns desses textos estão escritos para que certas pessoas não sejam esquecidas. Pessoas que eu conheci e que não queria que fossem esquecidas por mim e por todos aqueles que, ao lerem um pequeno esboço de uma vida, possam se conectar com essa historia e com seus personagens. O que não quer dizer que todos os personagens me parecem simpáticos, por outro lado.

Contudo te interessou registrar algo dessas histórias.

Uns escrevem por gosto, quero dizer, escrevem pelo simples gosto de fazê-lo. Em alguns casos foram pedidos e me interessou responder esses pedidos, como o caso de (Ignacio) Anzoátegui ou de Marta Minujin. Em outros casos não, são autores que me comovem ou me parecem imprensindiveis para mim. Há um fio condutor. Por exemplo, algumas figuras têm que acreditar muito em si mesmas para fazer o que fazem: Minujín disse “eu sou uma enviada”; Orélie Antoine se nomeia “rei da Araucania”. Contudo também ocorre o contrario: “Sou um poço de complexos”, disse Ezequiel Martínez Estrada.

O que define os excêntricos?

Não sei se há algo que nos vincule, contudo poderia sim te dizer que há autores que pensam em afirmação de si mesmos e que, por outro lado, são a maioria. Quer dizer, pessoas que acreditam no que dizem, pessoas que acreditam no que escrevem. Pessoas que acreditam na batalha de ideias e como em toda batalha cada qual se posiciona, cada qual que tira seu arsenal teórico, ideológico ou analítico e luta contra outros. Enquanto há outros autores que, pelo contrario, pensam e escrevem de maneira autodestrutiva. (Héctor) Murena é um caso, Martínez Estrada é outro caso. Quer dizer, pensar significa autodestruir o objeto sobre o qual se pensa e ao qual não é concedido nenhum direito para existir, mas, ao mesmo tempo, sobre o qual se pensa e ao qual não é concedido nenhum direito a existir e que, contudo, autodestrói o autor, estes autores são mais raros. A maior parte das pessoas, principalmente no mundo intelectual e universitário, são o típico intelectual que toma partido, que acredita que sabe e que também acredita que é bom, necessariamente: se o outro é mau e eu sou bom. É como uma lógica infantil, mas que funciona. Funciona na política, nas empresas, nas universidades. Essa mescla de um suposto saber e superioridade moral em relação ao oponente. Para mim me interessa muito mais os autores que, ao contrario, sabem que pensar implica o risco de se fundir, de se autodestruir. Também estão em luta, mas é outro tipo de luta, é uma luta demoníaca; a outra é de anjos, não importando se esse anjos usam revolveres, ao que me parece.

Sobre Martínez Estrada disse que diagnostica, como um radiologista, mas não cura.

Nem todos os problemas têm solução. E, em geral, as soluções agravam os problemas. Quero dizer, o fato de que não haja solução para certos problemas não quer dizer que os problemas não continuem estando ali. E, por outro lado, as soluções, refiro-me às soluções de índole política ou técnica, em geral são reajustes que permitem que uma grande maquina continue funcionando. De alguma forma, os piores defensores de um sistema defeituoso são aqueles que buscam solucionar suas arestas mais problemáticas, mas deixando latente o funcionamento de todo o sistema. Isso se torna notório após um certo tempo. Todo o sistema social, toda máquina, necessita de uma utilidade. Contudo as soluções que só procedem por reajustes são falsas soluções e, cedo ou tarde, uma época trata de desfazer de todas elas para se refundar sobre outras bases. Mas não porque a anterior não funcionou, e sim porque a acumulação de falsas soluções, cedo ou tarde, faz estalar todo o mecanismo.

As soluções para os problemas técnicos são sempre técnicas?

Esse é o ideal da sociedade tecnocrática. É um pensamento típico. Por exemplo, ao estender a fronteira agrícola para lugares onde antes havia bosques e esses bosques desaparecem, de tal maneira que também desaparecem as espécies animais que viviam ali, a solução técnica, então, é retirar amostras de DNA dos últimos exemplares vivos para uma eventual clonagem no futuro, para que as crianças em idade escolar continuem vendo aos animais no zoológico. Frente um problema criado pelo ser humano é buscada uma solução técnica. A questão aqui não é tanto escolher entre a expansão agrícola ou a manutenção da paisagem, mas perguntar se essa expansão agrícola contribui para eliminar a fome no mundo ou apenas para enriquecer os cofres dos proprietários e do Estado. Até onde eu sei, não eliminou-se a fome no mundo.

Como se relaciona a técnica com o ideal atual de felicidade? Disse no livro “El entramado” que há uma exigência de felicidade na sociedade atual.

Em nossa época, onde há vacinas, antibióticos, medicamentos que intimidam com a dor psíquica, afetiva; onde há companhias de seguros, sistemas de intercomunicação e sincronização contínua e instantânea, onde as distâncias se encurtaram, onde há televisão, Internet, em fim, não é certo que não sofram mais que antes. Quer dizer, todos estes aparelhos técnicos parecem-me amortecedores psicofísicos da personalidade. Tem a função de amortecer a dor. Como se os seres humanos necessitassem de sua imunização, sua segurança. Sem essa vida em uma cápsula protegida – e de alguma forma o lugar burguês foi esse desde o século XIX em diante: uma estufa -, sem a possibilidade de estabelecer mesmo que contatos mínimos ao dia através de redes de comunicação, as pessoas se afundariam no desespero porque suas vidas reais são vidas que estão em jogo no mundo do trabalho. Quer dizer, isto significa que o homem foi construído como homem econômico; produtor e consumidor por sua vez. Portanto vê a si mesmo como trabalhador. Na antiguidade um trabalhador não era alguém bem visto. Aqueles que faziam o trabalho duro eram os escravos. Apenas na era moderna, quando se decide que há igualdade democrática entre todos, aparece o problema de quem vai trabalhar. Se antes era feito pelos escravos e agora somos todos livres e iguais, os que trabalham. Quer dizer, quem faz a tarefa que desde sempre foi considerada uma condenação. A única solução lógica era dizer que o trabalho é algo muito lindo. Que o trabalhador é alguém lindo. E seu salário tem que ser mais ou menos lógico. Isso é tudo.

Hoje suporta-se menos a dor do que antes.

Ao prestar atenção para a importância que adquiriu a indústria farmacêutica, a avaliação médica constante, a quantidade de medicamentos que intimidam com os estados de ânimo, desde os barbitúricos, passando pelos ansiolíticos,até chegar hoje em dia aos desativadores dos estados de pânico, e se alguém atende a imaginação atual que espera da técnica já não mais uma cura de doenças ou das dores, mas uma cura de doenças emocionais: que descobre o medicamente que ao fim reduz a gordura em um instante, ou que fez implante de cinco mamas de uma vez sem o menor risco... Em outras palavras as pessoas confiam que a técnica irá resolver o velho problema do sofrimento humano, não se dando conta do custa vital e econômico que tem que pagar por essas comodidades. É pago em termos temporais, já que tem que dedicar muito tempo para conseguir o dinheiro para pagar por elas. E se paga em termos vitais tanto e quanto a pessoa nem imagina outras alternativas nas quais poderia viver mais em paz ou de maneira mais suave. E não podem imaginar essas alternativas, não porque não as conheçam, mas porque parecem pouco erógenas. Em outras palavras, porque a máquina social está construída em torno de ambições, do Eros universal que é o dinheiro e de pensar a máquina como um princípio de ordem e de poder. Isso satisfaz a todos. De tal maneira que qualquer outra alternativa que suponha mais doçura e mais felicidade os parece problemática para seus próprios instintos agressivos.

Por que o corpo das mulheres é o mais exigido?

É relativo, mas é muito evidente uma pressão social que cai sobre o corpo feminino. Eu acredito que em parte é um efeito impensado e não desejado na luta pela libertação da mulher nos últimos 100 anos, e dos últimos 50 anos em especial. Isto quer dizer, uma vez que se produza a libertação do velho harém patriarcal, ou ao menos de suas formas mais rígidas, há todo tipo de riscos afetivos que vem depois. Estar emancipada não quer dizer estar a salvo.

Esses riscos afetivos não se resolvem com leis, não se pode legislar sobre eles. De outro lado, acredito que há uma consciência cada vez maior de que o corpo é um valor em si mesmo. Que a aparência corporal permite ou possibilita, entretanto isso supõe diferenças sociais entre jovens e não jovens, ou entre aparências notáveis e não marcantes. Parece-me que há uma crescente consciência de que o corpo como valor em si mesmo permite a mobilidade social para o outro grande diferencial social que é a riqueza, ou os mercados da vaidade.

Para isso deve-se agregar que os chamados “mercados do desejo”- e toda sociedade tem um mercado do desejo -  se ampliaram consideravelmente há 50 anos. Antes as pessoas, homens e mulheres, estabeleciam ainda muito jovens um caminho afetivo que os levava ao matrimônio, para a concretização de uma família e não muito mais do que isso.

Hoje, em troca, o mercado do desejo se tornou barroco. Há todo tipo de pessoas de todas as idades tentando se posicionar nesse mercado, o que torna as angústias, os mal-estares em torno da imperfeição corporal se tornem muito mais intensos. Isso toca particularmente as mulheres, mas a todos na realidade. E a técnica se oferece para compensar a posição em desvantagem de todos aqueles que não tem o tamanho ou a aparência mais apresentável possível.

Qual é o papel da pornografia na sociedade atual? Você a compara com alguns programas de televisão como o do Tinelli. Poderia explica-lo?

É difícil saber qual é a causa da expansão desenfreada desta indústria, mas dificilmente esteja associada com uma maior “liberdade de expressão”. Isto é, com o fim da censura. É possível que a pornografia prospere ali onde falhe a monogamia, porque o contrato implícito é o da imaginação do harém, não do lar. Pode somar-se a isso o cruzamento entre a facilidade dos meios de comunicação e vários efeitos inesperados ou indesejáveis da revolução sexual iniciada na década de 1960. O certo é que quando os matrimônios definham no frio, as pessoas se põem a sonhar com distâncias de todos os tipos.

A questão é que por todos os lados se promovem epifanias da carne, mas a experiência habitual é a de estar endireitados. Além disso, a ampliação do “mercado do desejo” implica a necessidade de apresentar ao a imagem de um corpo altamente sexualizado. Talvez a pornografia, assim como as telenovelas, sejam modos de sublimação da alienação cotidiana. O programa de Tinelli? Não sei, seu centro de gravidade é a humilhação consentida, com alguns toques de sensualidade pornográfica socialmente aceitável, para toda a família.

Em um artigo sobre doação de órgãos disse que a obrigação de doar por lei sanciona o fracasso emocional de uma comunidade.

De maneira geral, quando há leis é porque fracassaram as regras de boa vizinhança. A doação de órgãos deveria ser um gesto de desprendimento amoroso, não uma obrigação. Isto é, um gesto de “amor anônimo”, uma efusão de bondade e solidariedade com a comunidade, a todos e a ninguém em particular. Caso contrário se consumaria o possível paradoxo de que um misantropo, ou um egoísta em sumo grau, ou uma pessoa abraçada pelo ódio à humanidade, sejam “supostos doadores”, tal como indica a lei. Em fim, este tipo de questões aparece quando os “avanços” técnicos são muito mais velozes que a capacidade de uma sociedade em processa-los, e então se estabelece um desenvolvimento desigual e combinado entre tecnologia e ética.

Em um capítulo sobre a tecnologia e a escrita sugere que é uma falácia pensar que a tecnologia poupa tempo, por quê?

Até onde sei, por mais que as redes de computadores permitam maior velocidade, prolixidade, sincronicidade e interconexão, ninguém sai antes de cumprir o mesmo horário de sempre, o já estipulado em fábricas e oficinas. Poupa tempo de quem? Aos donos das empresas, que vem deste modo multiplicada a produtividade dos trabalhadores sem que isso resulte necessariamente no aumento do salário. São as tecnologias sem que resultem necessariamente no aumento do salário. As tecnologias nem são neutras, nem são por si “benfeitoras”, ingressam em instituições que determinam seus usos e, que eu sabia, vivemos em uma sociedade industrial, produtiva e com poderes e hierarquias bem conhecidos. Pela mesma linha de vida, o mesmo que permite a interconexão também o faz com a vigilância, e não escapa de ninguém, como não é permitido a ninguém escapar desse destino. A chave mãe da “liberdade” também o é do controle.

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