Trabalhadores de Belo Monte denunciam subornos por parte da empresa Iberdrola

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Por: Jonas | 22 Julho 2014

A construção da represa de Belo Monte está em continuidade no Brasil, e os camponeses têm informado sobre ameaças de morte e subornos a prefeituras e líderes das aldeias próximas da obra. O professor da Universidade de São Paulo, Celio Bermann, assegura no relatório “As multinacionais no Século XXI: impactos múltiplos”, de Luis Uharte, que as empresas do consórcio Norte Energia entregaram “fundos de campanha para o Partido dos Trabalhadores, como também para os outros partidos”, e acrescenta: “Agora esperam receber os resultados desse apoio”.

A reportagem é de Pilar Bebea, publicada por La Marea, 19-07-2014 . A tradução é do Cepat.

A equipe de polícia local está inclusa no grupo de pessoas influenciadas pela companhia. Uharte, professor-pesquisador de Antropologia Social da Universidade do País Vasco-Euskal Herriko Unibertsitatea (EHU), declara que há dois anos o consórcio Norte Energia, no qual se encontra a Iberdrola, investiu “um montante importante de dinheiro para renovar a frota de carros e equipe dos agentes”, e afirma que “a polícia está atuando como uma polícia particular”.

O relatório realizado por Uharte também reúne outras práticas da companhia como a divisão de aldeias e compra de líderes mediante a provisão de provimentos e gasolina para os barcos. A construção da represa está associada a um forte impacto na região já que, como afirma Uharte, implica na inundação de 40 quilômetros quadrados de terra, emissão de gases de efeito estufa em uma região de mata, o deslocamento de pescadores da região e cerca de 40.000 pessoas expulsas de suas casas.

O Estado do Brasil e a multinacional mantêm uma relação anterior à construção da represa. As práticas da empresa com sede no País Vasco remontam ao ano de 1992, época em que as principais 500 multinacionais do mundo encontram na América-Latina um enorme potencial de negócio. Em consequência das práticas da Iberdrola, o Brasil se consolida, em 2010, como o quinto país com a tarifa energética mais cara do globo, superando em 400% os preços anteriores à privatização, acima de países com rendas mais altas como Estados Unidos. Algumas tarifas que, segundo Uharte, são determinadas de acordo com o tipo de usuário, para que a entidade se permita vender a energia mais cara aos cidadãos, para cobrar menos de suas empresas. E acrescenta que a empresa oferece ao mesmo preço a energia proveniente da eólica e da térmica.

Além do aumento de preços no setor energético, as facilidades de contratação que o Governo do Brasil confere às empresas privadas, como Iberdrola, favorecem a substituição da gestão pública pela privada e a influência destas últimas no mercado nacional. Entre algumas das vantagens, estão os contratos de monopólio da Iberdrola com o Estado do Brasil, nos quais confere o direito à exploração com 15 a 30 anos de benefícios assegurados, segundo apresenta o pesquisador.

Apesar da boa relação com o Governo, a Iberdrola recebeu multas pela “má qualidade do serviço”, no ano 2011, e também foi punida 11 vezes pelas infrações no processo de rotulagem ano anterior.

Exercícios como lobby

Os negócios da Iberdrola na América Latina também se estendem ao México, incluída em sua Constituição. O texto foi modificado de maneira ilegal para mudar a prestação de serviços públicos em favor do privado, em razão das pressões políticas que as multinacionais realizam nos Governos latino-americanos. Isto supõe um empobrecimento do Estado, segundo Uharte, ao ter que manter setores energéticos inativos e comprar a energia de empresas privadas.

A criação de uma central eólica no istmo de Oaxaca se destaca como um dos casos mais denunciados no México. Aqueles que tiveram suas terras compradas pela organização, declaram que a Iberdrola lhes paga menos do que outras empresas privadas de energia e denunciam a falta de informação ao lhes oferecer o contrato, já que muitos deles são indígenas e desconhecem as condições deste tipo de negócio. Além disso, denunciou-se uma possível trama de corrupção que envolvia a empresa, o governo local e ao comissariado local, com um desvio de 12 milhões de pesos, assim como subornos para participar em concursos destinados a trabalhar como empresa de serviços para a companhia.

Participações em paraísos fiscais

A imagem da marca corresponde a um dos quesitos mais importantes em um negócio de índole internacional como é a Iberdrola. A sustentabilidade e transparência sustentam o discurso da maioria de seus relatórios, chegando a declarar, no ano 2011, “participações indiretas em sociedades radicadas em jurisdições que tem a consideração de paraísos fiscais”. “Damhead Creek Finance Limited” nas Ilhas Cayman, “Scottishpower Insurance Ltd.”, na Ilha de Man e “Rokas Aeoliki Vorios Cyprus Ltd.”, na República de Chipre são algumas delas.

A Iberdrola pondera que as operações realizadas nestas empresas “em nenhum caso” se relacionam com atividades de “evasão fiscal, lavagem de dinheiro, nem financiamento de atividades ilícitas”. No entanto, as atividades da companhia denunciadas em países como Brasil e México colocam em dúvida a concordância entre o que a entidade comunica e a realidade.

Luis Uharte declara que a Iberdrola é uma empresa muito hábil na hora de vender sua imagem por meio da propaganda e o marketing, mas, de acordo com os dados, adverte que “essa realidade está muito distante dos produtos propagandísticos”.

Acrescenta que a maior parte da energia que a empresa produz é suja, ou seja, por ciclo combinado de gás, e de alto risco, razão pela qual fica um terço para as grandes hidrelétricas e 15% para a eólica. A porcentagem de 15% da publicidade da Iberdrola diz respeito à autopromoção da empresa.

A resposta ao relatório de Uharte foi uma estratégia de silenciamento pelo qual nem a empresa, nem os principais meios de comunicação fizeram eco. Uharte informa, além disso, da chamada de funcionários da municipalidade de Bilbao, que aconselharam que não era “conveniente” que seguissem movimentando o relatório a uma das ONGs que impulsionam a crítica na plataforma “2015 e mais”.