''Foram os cardeais que pediram: chega de escândalos no Vaticano.'' Entrevista com George Pell

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14 Julho 2014

Dois quilômetros e meio de caminho a partir do portão do Santo Ofício, chega-se à Torre de São João, plantada no ponto mais alto da colina do Vaticano e que se poderia dizer que olha face a face a Cúpula da Basílica de São Pedro. O cardeal prefeito, George Pell, novo czar das finanças vaticanas, é quase tão grande quanto a torre, filho de um boxeador que foi campeão dos pesos pesados, mais de 1,90 m de altura.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada no jornal Corriere della Sera, 11-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Francisco, o papa que veio quase no fim do mundo, chamou-o "lá de baixo", down under, como os ingleses britânicos chamam a Austrália, o novíssimo mundo. E Pell acabou colocando de cabeça para baixo, upside down, o IOR, a APSA e todo o resto.

"Sim, sim, uma vez o papa e eu discutimos sobre qual de nós vem de mais longe..." Os apóstolos Tiago e João foram apelidados por Jesus de Boanerges ("filhos do trovão") pelo seu zelo inexorável e também pelo seu temperamento impetuoso. Talvez até Pell seja um "filho do trovão".

Eis a entrevista.

O senhor sabe que foi apelidado de Pell Potter, como o menino-bruxo dos romances, Harry Potter, porque dizem que o senhor que prosseguir com golpes de varinha mágica?

Não, eu não sabia.

Mas o senhor sabe que Francisco chama o senhor de "Ranger [guarda florestal] australiano"...

Sim, certamente.

* * *

Ele olha para a janela retangular que enquadra um panorama deslumbrante e acrescenta, sorrindo: "O Santo Padre certamente não me chamou aqui para olhar para a Grande Cúpula".

A Secretaria para a Economia, o Conselho para a Economia, a reforma do IOR, o novo governo do IOR, o Tesouro do Estado, o Vatican Asset Management, etc... Naturalmente, trata-se de tornar mais eficientes as estruturas econômicas. Mas, acima de tudo, é uma mudança de filosofia ou, melhor ainda, de atitude. Ou não?

Essa mudança havia sido pedida pelos cardeais nas congregações que antecederam o conclave. Há um ano, os cardeais disseram: "Chega". "Chega desses escândalos. Não queremos mais ter essas surpresas nos jornais. É um mal para a Igreja e para o ensino cristão. Procuremos nos tornar um modelo para os católicos, mas também para o mundo, para todos." Levei a sério o que o Papa Francisco me pediu, peguei as coisas nas mãos, mas sem o apoio do papa não poderíamos seguir em frente. Não prossigo com pressa ou a golpes de varinha mágica. Mas o apoio do Santo Padre nos torna perseverantes. Prossigo com perseverança. Nunc coepimus. Recém-começamos. Sigamos em frente. Ainda devemos melhorar. Mas uma coisa é certa: chega de Calvi e Sindona, chega de surpresas que ficamos sabendo nos jornais.

Se o senhor tivesse que usar três palavras para descrever esse processo, quais usaria?

Transparência financeira, profissionalismo (ou seja, modernidade nos métodos) e honestidade ("Chega de escândalos"). Acrescento outra: contribuição dos leigos. A Igreja é um povo, não existem só os sacerdotes; os leigos entram a pleno direito, votam, tomam decisões. É uma visão muito fundamentada do ponto de vista teológico.

Diz-se que houve reações negativas às novidades na Cúria. É verdade?

A grande maioria dos cardeais está de acordo.

O senhor se refere ao chamado C9, aos conselheiros do Papa Francisco?

Não me refiro apenas a eles, mas a todos os cardeais.

E agora passemos às relações com os italianos. O senhor ressaltou que a Igreja é universal, e, portanto, as suas estruturas também devem ser. Mas não se pode negar um processo de desitalianização.

São estruturas da Igreja universal, e não do vicariato de Roma. Eu já anunciei na coletiva de imprensa, depois de uma pergunta sua, que será nomeado um membro italiano do conselho do IOR. Acrescento agora que isso vai acontecer em breve. Na Cúria, além disso, há muitos italianos muito bons.

Como estão as relações com o cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin?

Parolin e eu nos vemos todas as quartas-feiras e temos encontros frank and friendly, francos e amigáveis, sobre as situações reais. Não somos dois astros – dois polos – no mesmo sistema, mas dois gêmeos. Eu diria justamente assim, dois gêmeos.

O lobby maltês substituiu o lobby italiano na gestão das finanças vaticanas? Ou são todas maldades?

Não há nenhum lobby maltês. Não gosto de ouvir falar que essas pessoas trabalham aqui, mas na realidade buscam os seus interesses. Joseph Zahra (vice-coordenador do Conselho de Economia, maltês) é impressionante pelo que trabalha, pelo quanto é capaz e forte. Durante meses e meses de trabalho, ele não quis nem um euro.

As relações financeiras com a Itália ainda não estão normalizadas. O que o senhor pretende fazer a respeito?

Nós repusemos toda a nossa confiança em René Bruelhart, o diretor da AIF, a autoridade para a informação financeira. O novo conselho da AIF deve ajudá-lo. E em breve teremos dois novos promotores de justiça para a aplicação das novas leis contra a lavagem de dinheiro e o novo código penal. Naturalmente, a nossa soberania deve ser respeitada, mas queremos seguir todas as normas internacionais e tornarmo-nos um modelo nisso. As relações com a Itália devem ser normalizadas em breve.

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