Ecumenismo nos passos do Papa Francisco. Artigo de Walter Kasper

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04 Julho 2014

O cardeal Walter Kasper, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, assina o prefácio (cujos trechos publicamos abaixo) do novo livro Un cuore solo. Papa Francesco e l’unità della Chiesa [Um só coração. Papa Francisco e a unidade da Igreja] (Ed. Terrasanta, 144 páginas).

A autoria do livro é de Riccardo Burigana, professor de História Ecumênica da Igreja no Instituto de Estudos Ecumênicos de Veneza e diretor do Centro de Estudos para o Ecumenismo da Itália.

O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 02-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Francisco é um papa do encontro e um promotor ecumênico do encontro. Pertence ao carisma e ao mistério da sua "radiosidade" pessoal a capacidade de acolher com estilo muito humano, cordial e fraterno toda pessoa com quem ele se encontra, seja católica, ortodoxa ou evangélica, ou de outras religiões, ou de nenhuma religião. E não basta o seu simpático humor para explicar isso.

Essa característica pessoal representa um carisma profundamente cristã. Na Igreja das origens, os cristãos se chamavam "amigos". O fato de que, depois, mais adiante – mas também no início, como mostra o Novo Testamento –, eles tenham assumido muitas vezes, atitudes hostis, ou tenham começado a criar cismas internos, ou tenham se tornado indiferentes uns aos outros, tudo isso pertence ao lado obscuro da história da Igreja.

A pesquisa histórica, em parte, poderá lançar luz sobre as múltiplas causas que levaram a esse obscurecimento do Evangelho. O Concílio Vaticano II reconheceu expressamente que as diferenças doutrinais, que até hoje cavaram fossos aparentemente intransponíveis, se desenvolveram em um contexto específico, ou seja, o esfriamento da caridade fraterna e a falta de compreensão de ideias e de situações diferentes das próprias.

Tudo isso produziu feridas profundas. Um processo de cura só poderá ser iniciado e levado adiante evitando reduzir o outro a porta-voz de uma doutrina diferente, vendo-o, ao contrário, como irmão ou irmã, e buscando, sempre de novo, dar vida a um encontro sob a insígnia da paciência e do sentir comum, que, além do mais, é o significado etimológico da palavra "simpatia".

Esse tipo de encontro, no plano humano e cristão, é "o alfa e o ômega" do ecumenismo, assim como de qualquer outra forma de diálogo.

Francisco, além disso, é um papa e um promotor do ecumenismo que pensa e age, em primeiro lugar, não com base nas categorias do espaço, mas na do tempo e dos processos de desenvolvimento. Na Evangelii gaudium, ele afirma explicitamente o primado do tempo sobre o espaço. Ele sabe bem que não podemos esperar, de repente, pela solução dos problemas, ainda mais se forem problemas que se arrastam há séculos.

Requer-se um fôlego mais amplo, uma perspectiva mais ampla. É preciso começar processos históricos e pacientemente ter confiança nas dinâmicas de desenvolvimento que assim ganham vida. Trata-se de uma atitude que reflete a pedagogia adotada por Deus mesmo na história da salvação, quando ele empreendeu com o seu povo, com grande e incansável paciência, um longo caminho, muitas vezes até caracterizado por marchas à ré; uma paciência que ele deverá continuar tendo também com a sua Igreja, embora movida pelo Espírito Santo.

Como especialista pedagogo, o Papa Francisco sobe – por assim dizer – na ponte de comando para indicar aos outros o caminho: ele pretende permanecer ao longo da estrada junto com o povo de Deus, acompanhando-o no caminho e, necessário, precedendo-o com coragem. A estrada poderá ser muito longa. Isso exige paciência, o que é difícil em um tempo efêmero como o nosso, em que tendemos a querer sempre tudo e logo.

A história do ecumenismo não é uma história totalmente pontilhada por progressos e sucessos; há também momentos de "deserto sem trilhas" e de reviravoltas inesperadas.

Finalmente, Francisco é um papa da paz e um promotor ecumênico da paz. Aos seus olhos, o caminho ecumênico de convergência entre cristãos, assim como a amizade com o povo judeu e a colaboração com as outras religiões, caminham lado a lado e a serviço da unidade e da paz por toda a família humana. O Concílio já havia indicado o ecumenismo espiritual, o ecumenismo da oração, como alma e coração de todo o ecumenismo.

O Papa Francisco adicionou um ponto importante, que já havia sido mencionado por João XXIII no seu discurso Gaudet Mater Ecclesia. Naquela época, o Papa Roncalli tinha afirmado que os erros já não deviam ser combatidos com as armas da força, mas curados com o remédio da misericórdia.

Isso vale principalmente para o ecumenismo intracristão com os irmãos e irmãs das Igrejas orientais e ortodoxas, por um lado, e com os irmãos e irmãs das comunidades nascidas da Reforma e de algumas "Igrejas livres" de constituição mais recente. O mesmo, depois, para o diálogo com as outras religiões.

O diálogo com o povo da Antiga Aliança tem características peculiares: ao término de uma longa história, difícil e complexa, finalmente embocamos o caminho da amizade, que encontrará a sua plenitude apenas no eschaton. Ao Islã, nos une e ao mesmo tempo nos distingue a fé no Deus único e a descendência de Abraão. Esse fundamento comum pode tornar possível uma colaboração respeitosa no compromisso com a paz e a justiça.

O diálogo com as religiões e culturas asiáticas é um tema que virá à tona com as anunciadas viagens do Papa Francisco à Ásia. Na opinião de muitos, incluindo João Paulo II, é justamente a Ásia que representa o desafio para o cristianismo no século XXI. A globalização deixou surgir apenas de maneira superficial as grandes diferenças culturais e espirituais, mas, dado que o cristianismo é muitas vezes percebido por essas culturas antigas como um corpo estranho de marca ocidental, poderiam explodir novos conflitos entre civilizações e povos.

A ponte para o Oriente não pode ser apenas o mercado: também deverá consistir em um encontro a mística asiática. Não no sentido de uma apressada assimilação de "pedaços a gosto" de religiões orientais, mas de uma copenetração e transformação em profundidade.

A Ásia pode ajudar os cristãos a redescobrirem seus próprios tesouros místicos, mergulhando novamente nos abismos do Espírito. Aqui se abre todo um vasto campo de ação, mais um caminho capaz de lançar pontes proféticas na direção do "Deus tudo em todos" da escatologia.

Nesse sentido, oferece-se ao ecumenismo hoje um novo percurso; mas, afinal, o significado original do termo oikoumene já indicava todo o globo habitado com toda a riqueza do patrimônio das culturas dos diversos povos.

O papa que veio do "fim do mundo", graças aos simpáticos (no sentido etimológico) e empáticos encontros que estreita, graças à amplitude do fôlego da sua ação pastoral, em um espírito de paz e de misericórdia, poderá oferecer uma contribuição decisiva totalmente pessoal.

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