A nova teologia? É ''made in Asia''. Entrevista com Luis Antonio Gokim Tagle

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16 Junho 2014

Ele é um dos cardeais mais jovens (57 anos) e uma das personalidades eclesiais emergentes: no último conclave, o seu nome era um dos mais populares. Luis Antonio Gokim Tagle, arcebispo de Manila, é uma figura que vale a pena conhecer de perto, porque encarna bem a Igreja do Papa Francisco: fino teólogo – estudou em Manila e em Washington – conquistou o favor das pessoas com uma atitude marcada pela afabilidade e pela atenção aos pobres. A revista Jesus o encontrou na sua residência em Intramuros, o antigo coração da capital das Filipinas, que ainda conserva os vestígios da dominação espanhola.

A reportagem é de Gerolamo Fazzini, publicada na revista Jesus, de junho de 2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Eminência, como o senhor considera Manila: mais como Jerusalém, cidade de fé, ou como Nínive, necessitada de conversão?

Em cada crente, há um não crente. Isso é verdade para as pessoas e para as comunidades. Nós não agimos segundo a plenitude da fé constantemente. E assim, nesse sentido, podemos dizer que a fé e a incredulidade convivem. Para mim, a presença do "não crente" se deve à nossa inconsistência em viver a fé. E essa incoerência representa uma provocação para aprofundar a fé. Como pastor de Manila, estou consciente de que devo proclamar a Boa Nova: a escrita e a vivida cotidianamente pelas pessoas. Descobrir a presença do Evangelho na vida do povo é decisivo. Mas a Boa Nova também é um chamado à conversão, a uma vida que faça a sua adesão plena à fé que professamos.

Nas Filipinas, a religiosidade popular é muito difundida. No entanto, ela precisa ser purificada...

A piedade popular é a maior forma de participação das pessoas na vida de fé. Mas, como pastores, estamos bem conscientes dos riscos, que vão desde o sentimentalismo até o sincretismo. Por isso, é preciso prover uma sólida formação bíblica, catequética e litúrgica dos fiéis. Além disso, o fervor deve se encarnar na vida ordinária das paróquias. Um exemplo: no Black Nazarene de Quiapo [festa religiosa filipina, foto abaixo], os devotos chegam em grande parte das zonas pobres e encontram em Jesus crucificado um companheiro para o seu sofrimento. Graças à iniciativa do pároco local, muitos deles hoje ajudam outros pobres e doentes. A piedade popular, assim, de fenômeno individual ou intimista, se faz serviço.

As Filipinas são um país católico, mas a classe política local foi abalada, recentemente, por escândalos. Por que é difícil "evangelizar a política"?

Em primeiro lugar, deve-se dizer que a política em contraste com a fé cristã e a moral é um exemplo do que eu disse antes sobre a presença de um "não crente" em cada crente. Mas a história desempenha um papel importante no tipo de política que temos agora. Entre nós, ainda está profundamente enraizado, infelizmente, o modelo do "patronato": de fato, ainda não há um governo autenticamente democrático. Os políticos se comportam como pais-patrões, e o povo espera passivamente ser ajudado. Obviamente, a classe política não quer mudar essa mentalidade, porque os benefícios concedidos tornam-se objeto de chantagem, a gratidão se transforma em servilismo: um elemento cultural muito difícil de modificar. Tal sistema abre à corrupção. Para o cidadão médio, basta que as suas necessidades sejam satisfeitas; o resto – o bem comum – não importa ou vem depois. O sistema político, portanto, é vulnerável às práticas desonestas, em vez de estar a serviço das pessoas, especialmente dos pobres.

O que a Igreja faz para mudar as coisas?

Com a ajuda de várias ONGs e de outras organizações populares estão tentando elevar o nível de consciência política. Mas é um processo longo. Nos últimos tempos, ficamos muito chocados com as revelações da mídia sobre o fenômeno da corrupção política. Daí as importantes manifestações populares de protesto. Esse choque abriu os olhos das pessoas. Enquanto, antes, eles eram intocáveis, hoje muitos políticos apareceram no tribunal. A Igreja é uma das vozes que se levanta contra os maus costumes; eu também, em agosto do ano passado, junto com 350 mil pessoas, saí às ruas para denunciar o pork barrel system [que concede a deputados e senadores enormes despesas pessoais com fundos públicos]. Mas não quero que a Igreja seja confundida com uma ONG genérica. Se é verdade que a Igreja compartilha com muitas organizações (e até mesmo com alguns políticos) ideais comuns, quero assegurar que a nossa resposta é claramente inspirada no Evangelho e na doutrina social da Igreja, não em uma ideologia qualquer ou no desejo de competir pelo poder.

A Ásia é o continente de origem de Jesus Cristo, mas, ao menos de acordo com os números, é o menos evangelizado. Olhando para o futuro, o senhor se sente otimista acerca do anúncio cristão nesse continente?

Sim, porque, apesar de muitos problemas na Ásia, assistimos a um crescimento de batizados, mas também de seminaristas, religiosos e religiosas. Números pequenos, mas significativos. Nos países onde os cristãos vivem como minoria, a Igreja é respeitada, graças às suas instituições de educação, aos hospitais e ao serviço social que ela realiza. As pessoas entendem que os cristãos são uma pequena comunidade que contribui para o bem comum, mesmo fora do seu círculo. Nem todos se tornam cristãos, é claro, mas muitos apreciam essa abertura.

Na Ásia, o diálogo inter-religioso, desde a publicação da declaração Dominus lesus do ano 2000, parece estagnado. Como proceder de maneira mais rápida nesse caminho?

Na realidade, nos últimos anos, o caminho do diálogo inter-religioso, seja em nível de base, seja da FABC (a Federação das Conferências Episcopais Asiáticas), continuou firme. Em algumas áreas da Ásia, ele também se ampliou, envolvendo bispos e imãs, como acontece por exemplo na ilha de Mindanao. Mesmo em Manila, temos um encontro inter-religioso mensal. Certamente, continua o grande desafio do fundamentalismo, que, tendo entrado na esfera política, arruinou o senso do diálogo: os políticos instrumentalizam a religião para ganhar consensos. No entanto, não faltam sinais positivos.

No Ocidente, conhecemo-la pouco, mas existe uma teologia "made in Asia". Como ela pode contribuir com a inculturação do Evangelho hoje?

É melhor usar o plural, porque as teologias são tantas quanto os "mundos culturais" a que se referem. Usando a metáfora dos alimentos, estamos falando de uma Ásia dos "pauzinhos" (China, Japão...), do curry (Índia), das folhas de bananeira (Filipinas, Indonésia, Malásia) e assim por diante... Em várias partes da Ásia, não só as culturas, mas também as religiões são muito variadas. Apenas a título de exemplo: o budismo na Índia é muito diferente do budismo do Japão ou da China... A inculturação da fé através da teologia é promovida nas Igrejas locais e, em nível continental, pela FABC. Tudo isso representa uma riqueza: não só os outros continentes aprendem com a Ásia, mas também nós, asiáticos, temos de aprender com outros teólogos asiáticos. O processo mais importante na inculturação consiste em tomar a situação concreta do povo e, assim, refletir sobre a mensagem do Evangelho nesse contexto, não tanto na cultura em abstrato.

Existe alguma tentativa de inculturação em âmbito litúrgico?

Cito o exemplo do padre Anscar Chupungco (foto), beneditino filipino, falecido em 2013, ex-presidente do Pontifício Instituto Litúrgico de Roma e fundador do Instituto Paulo VI para a Liturgia em um monastério de Mindanao. Ele compôs, há mais de 20 anos, a Missa do Povo Filipino, na qual incorporou elementos locais, como o beijo da mão ou a centralidade da cruz. E mais: nesse rito, o celebrante é o último a aceder à Comunhão, porque, na cultura filipina, quando há convidados, o anfitrião come por último. Pois bem, a Missa do Povo Filipino (ainda ad experimentum) pode ser usada em circunstâncias particulares: por exemplo, usamo-la na celebração inicial da conferência sobre a "Nova Evangelização", realizada em outubro passado nas Filipinas. Quem sabe, talvez um dia, vamos celebrá-la em Milão, com os migrantes filipinos!

Existe uma teologia da libertação asiática?

De certo modo sim, mas com diferenças profundas da teologia da América Latina. Na Ásia, o tema da libertação está intimamente ligado ao da relação com as outras religiões, não só com a questão da pobreza. Infelizmente, na Ásia, os políticos muitas vezes utilizam as religiões para manter um status quo. Portanto, a primeira tarefa de todo crente é restituir à religião o seu legítimo papel. Através das energias fornecidas pelas religiões, esperamos encontrar um caminho para a libertação da pobreza e da instrumentalização da religião para dividir as pessoas.

O Papa Francisco desencadeou um processo de reforma da Igreja. Em sua opinião, quais são as questões mais importantes que devem ser postas na pauta?

O mundo busca um espaço para encontrar a Transcendência. A Igreja deve se colocar no espaço onde se encontram as pessoas que buscam o sentido da vida. O "Átrio dos Gentios" é um exemplo desse tipo de iniciativas que devem ser desenvolvidas. A participação no debate cultural é indispensável, em uma atitude abrangente, que busque o encontro. É preciso que a Igreja, em relação a isso, aprenda a ser, primeiro, presença silenciosa, depois "mestra em humanidade".

Gerou repercussão, na primeira aparição pública do Papa Francisco, a autoapresentação como "bispo de Roma". O que o senhor pensa a respeito?

Há uma tendência generalizada de pensar na Igreja de Roma como a Igreja universal. A Igreja de Roma é uma Igreja local, que, sem dúvida, tem uma vocação especial na comunhão que é a Igreja universal: ela representa a Igreja do martírio e do testemunho dos grandes apóstolos Pedro e Paulo. A Igreja de Roma sustenta as outras Igrejas locais: no nível dos bispos, isso se chama colegialidade episcopal, corresponsabilidade na mesma missão. O Papa Francisco insiste nesse ponto, ele quer dar uma nova vida à colegialidade, à escuta das outras Igrejas locais. Quanto mais a Igreja de Roma ouvir as outras Igrejas, melhor ela realizará a sua vocação.

O senhor é um dos autores da História do Concílio Vaticano II, publicada pela "Escola de Bolonha", fundada pelo padre Giuseppe Dossetti e por Giuseppe Alberigo. Na sua opinião, quais são, dentre as indicações do Concílio Vaticano II, as que ainda precisam ser implementadas?

O conhecimento do Vaticano II ainda está incompleto. Mesmo entre os padres, há quem não tenha lido todos os documentos, e isso também vale para muitos religiosos e agentes de pastoral. E mais: para mim, o Vaticano II ainda não foi completamente sintetizado. Mas justamente essa é a tarefa da Igreja hoje: fazer síntese, no cotidiano, entre as afirmações do Vaticano II e os desafios do mundo contemporâneo. Por isso, a meu ver, não é preciso um Vaticano III: é preciso acabar de estudar, de entender e de aplicar o Vaticano II. Entre os temas prioritários a serem abordados, o diálogo ecumênico e inter-religioso. A paz do mundo também passa pela capacidade dos fiéis das várias religiões de viver juntos no respeito. Outra questão importante, além disso, diz respeito à mídia: todos dizem que é preciso evangelizar lidando com elas, mas depois, concretamente, apenas poucas Igrejas locais levaram esse desafio a sério.

Números

A arquidiocese de Manila conta com três milhões de habitantes, dos quais 2,5 milhões são católicos: ela está dividida em 85 paróquias, com 244 padres.

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