Entidades preparam agenda de protestos para os jogos da Copa

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06 Junho 2014

O país pode assistir a grandes manifestações durante os jogos da Copa do Mundo. Alguns movimentos sociais ainda estão definindo quantos e quais atos serão realizados durante o torneio, mas afirmam que seguirão pressionando o poder público para atender suas reivindicações. O Comitê Popular da Copa, formado por diferentes movimentos sociais, prepara até o início da próxima semana uma agenda com todos os atos a serem organizados nas cidades-sede em todo o país.

A reportagem é de Camilla Veras Mota, Rodrigo Pedroso e Guilherme Serodio, publicada pelo jornal Valor, 06-06-2014.

Em São Paulo, o comitê marcou atos para os dias 16 e 19. No primeiro será organizado um jogo de futebol; no segundo, um ato conjunto com o Movimento Passe Livre. "Nossa ideia é chamar a atenção para o que chamamos de Copa das Tropas. Será o maior efetivo de segurança da história já disponibilizado, o que indica uma fragilidade da democracia", diz Juliana Machado, membro do comitê para a capital paulista.

O comitê também articula possíveis manifestações pelo país em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que, no entanto, ainda não têm agenda para o torneio. Hoje o movimento fará novo ato em São Paulo, depois de marchar na quarta-feira até o Itaquerão, estádio que vai sediar a abertura da Copa.

No Rio, o primeiro ato dos movimentos contra a Copa será na data de abertura da competição, e está marcado para acontecer na praia de Copacabana, local da Fifa Fan Fest, festa da Fifa para transmissão dos jogos. A praia reunirá ainda o centro de mídia da Copa. Na agenda estão previstos protestos nos dias 22 de junho, 4 de julho e na final, em 13 de julho, todos dias de jogos da Copa no Rio de Janeiro.

A falta de acordo entre governo estadual, prefeitura e categorias em greve no Rio, no entanto, sugere que a cidade verá muitos outros protestos de trabalhadores ao longo de todo o torneio. A promessa de movimentos sociais contrários à realização da Copa também é de uma agenda cheia.

A expectativa dos ativistas anti-Copa do Rio é que os protestos contra a competição ganhem dimensão semelhante às manifestações de junho de 2013. Para isso, prometem articulação com os líderes das diversas categorias.

Na terça-feira, movimentos reunidos em uma articulação chamada "Plenária Copa na Rua" definiram a realização de ao menos quatro protestos no Rio durante o evento. Ontem, pelo menos três protestos ocorreram na cidade. No fim da tarde, professores, rodoviários, varredores de ruas e servidores em greve reuniram-se em um protesto que contou com mais de 500 pessoas no centro da cidade.

Em outro "front" de negociação, a prefeitura do Rio enfrenta dificuldades para chegar a um acordo com os sem-teto expulsos em abril de um terreno invadido - o grupo também protestou ontem. No caso dos sem-teto, segundo a coordenadora estadual do MTST em São Paulo, Natalia Szermeta, a estratégia é seguir pressionando para que o poder público desaproprie áreas ocupadas na capital e no interior até o início do torneio. "Se não atenderem algumas reivindicações com certeza deve ter algo durante a Copa", afirma.

Fora do Rio, as greves e paralisações que mexeram com o cotidiano das grandes cidades nos últimos meses devem diminuir a partir da próxima semana. Com exceção da CSP-Conlutas, as centrais sindicais dizem que suas respectivas agendas de mobilizações devem se estender apenas até o início dos jogos.

Cinco das seis principais centrais sindicais do país disseram ao Valor que já concentraram os protestos nesta semana. Os feriados durante os jogos, afirmam, poderiam esvaziar as mobilizações. "E não somos contra a Copa. Nosso problema é com os gastos excessivos", completa Miguel Torres, presidente da Força Sindical. A central prepara para hoje um ato contra a política econômica do governo em São Paulo. Com concentração a partir de 8h, ele sairá de três pontos na cidade.

A Central Sindical Popular-Conlutas organizará passeata no dia 12, data da abertura da Copa, com concentração às 10h na sede do sindicato dos metroviários de São Paulo, no Tatuapé, zona leste da cidade. O trajeto será definido na hora, por conta dos bloqueios que serão montados no entorno do Itaquerão. "Vamos caminhar até onde a liberdade nos permitir", diz Atnágoras Lopes, um dos porta-vozes da central.

Apesar de poucas ações efetivamente planejadas para o torneio até o momento, a previsão é que as mobilizações ao longo das próximas semanas sejam mais organizadas em relação aos protestos do ano passado, com propostas mais setorizadas. Para Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) que estuda a relação entre Copa, protestos e segurança pública, é difícil prever qual será o nível de adesão dos atos e a resposta das forças do governo a eles.

Um incidente causado por força desproporcional por parte da segurança pública, ou ocorrências consideradas injustas pela sociedade civil, por exemplo, podem aumentar o número de manifestantes. "O que se vê preparado até agora são grupos organizados de movimentos sociais e sindicatos com pautas mais específicas, bases mais sólidas e menos participantes. Mas a situação é muito dinâmica", afirma.

O professor do departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), Ruy Braga, faz análise semelhante. Ele acredita que alguns grupos organizados devem aproveitar a visibilidade dos jogos para fazer manifestações à priori pacíficas. A reação da PM poderia catalisar episódios de violência. Depois de meses seguidos de protesto, contudo, a maioria dos brasileiros deve acabar se unindo para torcer durante a Copa, acredita o sociólogo.

O grande contingente formado por Forças Armadas, polícias civil e militar e agentes da Polícia Federal, que vão realizar a segurança do evento esportivo, para o professor da FGV, também inibe simpatizantes aos protestos. "Vai haver um clima maior de medo por causa do grande efetivo policial, que deve gerar mais confrontos".

Pelo lado do planejamento que está sendo montado pela segurança pública para o torneio, Alcadipani vê ênfase excessiva na contenção de protestos e pouca atenção a possíveis brigas entre torcidas em bares, festas e nos arredores do estádio. Espera-se cerca de 20 mil argentinos e 7 mil chilenos, por exemplo. "É aí que eu vejo maior risco. É preciso ressaltar que a maioria dos turistas que vão a uma Copa são homens", diz o professor.

Ruy Braga, FFLCH-USP, enfatiza ainda que o novo ciclo de greves pelo qual passa o Brasil não está apenas relacionado à Copa. O movimento, afirma, começou a ganhar força em 2008 e faz parte de um intenso processo de luta distributiva.

Aumento de renda e ascensão social, apontados como principais origens da insatisfação que têm motivado os protestos e mobilizações no Brasil, são para o sociólogo apenas um dos pilares que explicam, por exemplo, porque o nível de greves dos últimos anos tem se equiparado àqueles dos anos 1989 e 1990, quando Collor assumiu a Presidência e sequestrou as poupanças. Apesar dos ganhos, que seriam o combustível para a exigência de serviços públicos melhores, por exemplo, a qualidade do emprego e das remunerações não melhorou de forma significativa.

Dos novos postos de trabalho criados no país nos últimos dez anos, 94% pagam menos do que um salário mínimo e meio, afirma o sociólogo. Nesse intervalo, as condições de trabalho se deterioraram "de maneira flagrante" e a especulação imobiliária e o aumento da inflação corroeram o que os reajustes adicionaram aos salários.

As categorias que tendem a se organizar de maneira mais rápida, portanto, são aquelas mais afetadas por esse redesenho do mercado de trabalho e da sociedade - os serviços, entre eles os rodoviários e garis que fizeram paralisações nos últimos meses, e o funcionalismo público, que tem protagonizado greves de quase um mês.

A situação que se desenhou no Brasil nos últimos anos, para Braga, em nada se assemelha à história de outras sedes da Copa do Mundo. "Na África do Sul houve reivindicação de canteiro de obra, dos trabalhadores envolvidos na construção da infraestrutura para os jogos. Não houve levantes populares contra a Fifa ou contra o governo", pondera.

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