A Conferência Episcopal Italiana segundo Francisco

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20 Maio 2014

Com o seu discurso na abertura da Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Italiana (CEI), o Papa Francisco declarou que quis "ir ao encontro – ao menos indiretamente – daqueles que se perguntam quais são as expectativas do bispo de Roma sobre o episcopado italiano".

A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítio Vatican Insider, 19-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Disseminadas pelo texto – ao menos de dez páginas – há passagens-chave e sugestões que não configuram uma banal mudança de "linha política". Nelas, está desenhado o mapa para voltar às fontes da vocação do bispo. Não está em jogo um grosseiro turn over de palavras de ordem para se incutir em uma nomenclatura de funcionários: ao contrário, em algumas investidas do discurso dirigido pelo Papa Francisco, vibra o chamado a redescobrir a natureza própria do episcopado e a sua função na Igreja e na sociedade.

A cada um dos coirmãos bispos, o papa argentino não hesitou em submeter de maneira direta a mãe de todas as perguntas, que também podia soar pouco reverente em uma assembleia de sucessores dos apóstolos: "Perguntemo-nos, então: quem é Jesus Cristo para mim? Como ele marcou a verdade da minha história? O que a minha vida diz d'Ele?".

Segundo o Papa Bergoglio, os bispos também, como todos os outros, só podem se manter fiéis à sua vocação se forem protegidos na fé pela graça de Cristo: "Sem essa proteção, sem a oração assídua", reconhece o papa, até "o Pastor está exposto ao perigo de se envergonhar do Evangelho, acabando por neutralizar o escândalo da cruz na sabedoria mundana".

Um sinal dessa proteção na fé é colocar toda a própria confiança "no Espírito do Senhor", também em relação ao próprio ministério episcopal. Fora dessa dinâmica, acaba-se fatalmente "tocando com a mão apenas a esterilidade das nossas palavras e das nossas iniciativas". E nos tornamos fáceis vítimas das tentações que – reconhece o Papa Francisco – "são 'legião' na vida do Pastor": da "tepidez que acaba na mediocridade" à "busca de uma vida tranquila que esquiva renúncias e sacrifício"; da tentação da "pressa pastoral" à "presunção daqueles que se iludem que podem confiar somente nas suas próprias forças, na abundância de recursos e estruturas, nas estratégias organizativas que sabe colocar em campo".

As menções ao Evangelho, à fé, à oração, no discurso inaugural do Papa Francisco não permanecem confinadas ao papel de premissas redundantes, fórmulas devotas e óbvias de protocolo para introduzir a costumeira e múltipla lista de juízos e "desiderata" eclesiásticos que devem valer em relação às instituições civis.

Bergoglio faz brotar dessas menções apenas os seus golpes contra as dinâmicas intraeclesiais e o seu olhar sobre a presença e a contribuição da Igreja na sociedade italiana. Nos cenários prefigurados pelo papa, a unidade dos grupos eclesiais não se agrega em torno das palavras de ordem de um projeto político-cultural ou a esforços de compromisso entre corjas clericais.

Bergoglio aponta o olhar para a única e eficaz fonte da unidade na Igreja: ela "emana da única Eucaristia, cuja força de coesão gera fraternidade, possibilidade de se acolher, de se perdoar".

Todo apelo à unidade fora dessa dinâmica se transforma em um "cerrar fileiras", motivado por projetos ideológicos ou por motivos de interesse, fatalmente sitiado por patologias da vida eclesial que Bergoglio já indicou várias vezes na sua pregação: "As fofocas, as meias-verdades que se tornam mentiras, a ladainha das queixas" e "a ambição que gera correntes, panelinhas e sectarismos".

Ou o "retrocesso daqueles que vão buscar nas formas do passado as seguranças perdidas" e a pretensão "daqueles que gostariam de defender a unidade negando a diversidade, humilhando assim os dons com que Deus continua tornando a sua Igreja jovem e bela".

Ao contrário, na experiência incomparável da unidade eclesial, é possível ser capaz de sacrificar o próprio ponto de vista, quando está em jogo a unidade da Igreja: "Melhor ceder, melhor renunciar, dispostos até a tomar sobre si a prova de uma injustiça", afirmou o Papa Francisco, "em vez de rasgar a túnica e escandalizar o povo santo de Deus".

A natureza sacramental da Igreja, incomparável a qualquer aparato humano de poder – reconheceu o Papa Francisco – é a única fonte à qual é possível recorrer para se reconfigurar realmente, como exigido pelos tempos, as relações dos bispos com os sacerdotes, os religiosos e os leigos.

Assegurando aos primeiros "proximidade e compreensão" por parte dos próprios bispos. E convidando os últimos a ouvir o povo de Deus confiando-se "ao seu senso de fé e de Igreja", porque "ele tem o pulso para identificar os caminhos certos". Até favorecer em todos os níveis a "corresponsabilidade laical" e reconhecer "espaços de pensamento, de planejamento e de ação para as mulheres e os jovens".

O novo passo que Bergoglio tem em mente para a CEI se expressou sobretudo nas partes do discurso sobre a relação da Igreja com a sociedade civil. Nas palavras dirigidas pelo Papa Francisco aos membros de conferência episcopal entre as mais estruturadas do mundo, desaparece toda defesa de autorreferencialidade "eclesiocêntrica", todo impulso lobista para se conceber como "mundo paralelo", entidade comprometida a atestar por si só, com batalhas e intervenções, a sua relevância na vida social e na história.

Não aparece no texto papal nenhuma lista de questões sensíveis para se chegar a acordos, garantias e compromissos com as autoridades e as instituições civis e políticas. Ao contrário, Francisco coloca na mira "a distinção que às vezes aceitamos fazer entre 'os nossos' e 'os outros'", os fechamentos "daqueles que estão convencidos de já ter o suficiente dos próprios problemas, sem ter que se preocupar também com a injustiça que é causa daqueles outros". E a autocongestão clerical daqueles que "não atravessam a praça e ficam sentados aos pés da torre, deixando que o mundo siga o caminho".

As dinâmicas de uma Igreja abençoada pelo Senhor – sugere Bergoglio – se movimentam ao longo de diretrizes opostas às do eclesiocentrismo autossuficiente: são as de uma Igreja que, para a salvação dos homens e das mulheres que vivem no mundo, se consome e inventa de tudo para "se aproximar de cada um com caridade, ajudar as pessoas nas lutas das suas solidões, das suas inquietações e dos seus fracassos".

No centro do seu projetar-se no relacionamento com a sociedade, não há conceitos abstratos, questões antropológicas, emergências culturais, mas pessoas concretas e problemas concretos. Os das famílias, os dos desempregados pensionistas e dos trabalhadores precários, e os dos migrantes, as três categorias humanas que o Papa Bergoglio sugere aos bispos como destinatários de uma opção preferencial no desenrolar das atividades pastorais e caritativas. Convidando também o episcopado italiano a pôr novamente em discussão com audácia "um modelo que explora a criação, sacrifica as pessoas no altar do lucro e cria novas formas de exclusão".

As solicitações dirigidas aos bispos italianos para o caminho e para o tempo que os separa do Congresso Eclesial de Florença (novembro de 2015) não se procrastinam em estéreis repúdios das épocas eclesiais anteriores e dos seus slogans de referência. Mas sugere a todos que, para seguir em frente, é preciso "não se deter no plano nobre das ideias" e "captar e compreender a realidade".

O mesmo olhar que o Papa Francisco já havia expressado na entrevista com a revista La Civiltà Cattolica, quando havia advertido contra a tentação de "domesticar as fronteiras" e os riscos de uma "fé de laboratório": "Tenho medo dos laboratórios, porque no laboratório se pegam os problemas e se os leva para a própria casa para domesticá-los, para envernizá-los, fora do seu contexto. Não se deve levar a fronteira para casa, mas viver na fronteira e ser audazes".

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