“Votaremos por nossas vidas”. Entrevista com Alexis Tsipras, candidato à presidência da Comissão Europeia

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Por: Jonas | 16 Maio 2014

Alexis Tsipras (foto) pode ser o próximo primeiro-ministro da Grécia. De fato, se hoje ocorressem eleições legislativas em seu país, venceria, de acordo com as pesquisas. Esteve a ponto de vencê-las há dois anos, nas últimas eleições. Perdeu por um ponto. Na pré-campanha brilhou com tanta força que assustou a direita, não apenas a grega, mas também de toda a Europa. Então, toda a direita econômica, política e midiática lançou-se contra ele. Foi uma guerra suja. Diziam que caso vencessem, sairiam da Europa, do Euro e que seria o caos. Era mentira. O  Syriza não queria sair da zona do euro, mas mudá-la internamente, inverter o jogo, democratizá-la.

 
Fonte: http://goo.gl/yGfkMF  

Tentaram mutilar o Syriza, mas se reproduziu por todas as partes, como o exemplo de que é possível vencer pela esquerda, enfrentando a troika e seus peões conservadores e social-democratas. Tentaram acabar com a imagem de Alexis, mas o tornaram o sorriso e a esperança da Europa que não se resigna diante dos cortes nas liberdades, direitos e serviços sociais, educação e saúde pública, salários dignos... Seu brilho ultrapassou as fronteiras da península helênica.

Alexis Tsipras, com 39 anos, hoje representa a voz da Esquerda Europeia, a única que enfrenta a troika e que quer refundar a Europa para lhe devolver a democracia e colocar a economia a serviço das pessoas e não dos bancos. O primeiro ponto de sua agenda é acabar com a austeridade e os “memorandos”. Também a realização de uma Conferência Europeia da dívida, para estudar o não pagamento da dívida ilegítima, a reorganização democrática das instituições europeias e acabar com a economia de cassino, que empobrece precipitadamente aos trabalhadores.

Tsipras disse que o neoliberalismo não é invencível, que apenas é o resultado da correlação de forças do momento, e que quando a correlação de forças mudar, a economia política mudará. Para isso, pede o voto na Esquerda Europeia, em um momento crucial para poder mudar de política e não sucumbir no abismo para o qual a austeridade conduz.

A entrevista é de Gema Delgado, publicada por Mundo Obrero, 10-05-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

No último mês de dezembro, o Partido da Esquerda Europeia, em seu congresso, e após um profundo debate, decidiu apresentar um candidato à Presidência da Comissão Europeia. Você recebeu de 84% dos delegados essa responsabilidade, com o objetivo de se ter uma voz forte na Europa, como alternativa para acabar com as políticas de austeridade. Como avalia o trabalho realizado neste sentido, durante os últimos meses?

Não centrei minha pré-campanha eleitoral nos estúdios de televisão. Como também não discurso para as pessoas com as portas fechadas. Durante estes últimos cinco meses, tive a oportunidade de falar com os homens e mulheres das ruas de diferentes cidades, pequenas e grandes, da Europa e estou seguro de que a mensagem de esperança e de mudança da esquerda europeia chegou. Também estou certo de que as pessoas já sabem que há uma alternativa credível contrária à Europa neoliberal, de Angela Merkel. Agora sabem que a esquerda europeia apresenta políticas alternativas e realistas para satisfazer as necessidades da Europa do século XXI. Todos têm clara consciência de que no dia 25 de maio votaremos por nossas vidas.

Estamos em uma encruzilhada crítica para decidir qual será o futuro das pessoas na Europa, em quais condições sobreviveremos após a crise e como será a política social, econômica e ambiental para os próximos cinco anos. Neste contexto, que mensagem você tem para os 400 milhões de europeus que tem o direito de votar, no dia 25 de maio?

Todos devem participar das eleições de maio. Não devem deixar que outros votem por eles. Em especial, todas as pessoas que querem acabar com a austeridade, devem ir e votar claramente contra a austeridade. E a forma de fazer isso é votando na Esquerda Europeia. Estas eleições são singulares. Elas são um referendo sobre nossas vidas. Pela primeira vez, os resultados são cruciais para a Europa, para os nossos países e para todos e cada um de nós. Nosso voto influenciará no futuro, não apenas de cada um de nossos países em separado, mas, sim, de todo o continente. Desta vez, podemos conseguir. E isso é urgente. É urgente fazer com que o neoliberalismo e a Europa alemã retrocedam. Fazer com que a política da senhora Merkel seja minoritária na Europa. Isolá-la politicamente. Derrotá-la. Acabar com a austeridade para recuperar a democracia. Recuperar a Europa.

A Europa está em uma conjuntura histórica: ou continuamos com a austeridade, o desemprego e a pobreza por muitos anos, com menos democracia, ou mudamos o rumo fomentando o crescimento, a justiça e o trabalho decente, com mais democracia. Por isso, o dilema que nós enfrentaremos no dia das eleições, em toda a Europa, é claro: com a esquerda ou com a austeridade, com a esquerda ou com Merkel. Nas eleições deste mês de maio, ou aqueles que são responsáveis da crise são derrotados e o marco institucional da austeridade é definitivamente anulado, ou serão capazes de continuar, como se nada tivesse acontecido na Europa, nos quatro últimos anos; continuarão com mentiras e evasões, matando tanto os povos, como o futuro da Europa.

Para aqueles que rejeitam a austeridade e querem um futuro melhor, para aqueles que querem esperança para si e para suas famílias, que desejam trabalho e prosperidade, a Esquerda Europeia marca o futuro.

Se o principal objetivo do Partido da Esquerda Europeia é refundar a Europa, por onde começar e quais são as chaves da mudança?

Para poder mudar a Europa, a primeira coisa que precisamos mudar é o equilíbrio de forças políticas na Europa. Depende dos cidadãos europeus fazer isso ou não, a partir de seu voto nos próximos dias. A Europa deveria se mover à esquerda, com um voto forte na Esquerda Europeia. Deveríamos fazer de 2014 o ano da mudança. Então, existem duas chaves para conseguir essa mudança: a primeira, o fim imediato da austeridade e dos memorandos; e a segunda, a gradual reorganização democrática das instituições europeias, assegurando a participação cidadã nas decisões que lhes dizem respeito, com a finalidade de atacar o chamado “déficit democrático”.

Você disse que a austeridade não funciona, mas que, sim, funcionou muito bem para a chamada “economia de cassino” que, segundo declarou em outras ocasiões, aproveitou-se da crise para se enriquecer ainda mais, tirando benefício da redução dos custos trabalhistas e da privatização e venda dos recursos públicos. Como irá lutar contra os poderosos mercados financeiros, que governam o mundo sem passar pelas urnas?

O poder dos mercados financeiros é derivado e é político, no sentido de que é o establishment político europeu quem lhes permitiu esse poder. No contexto de “laissez-faire”, o neoliberalismo retirou todas as formas de controle direto e indireto de seu funcionamento e permite que o sistema bancário se alimente com produtos financeiros de liquidez. Os conservadores, os liberais e os social-democratas decidiram que a democracia responda aos mercados e não ao contrário.

É uma opção política neoliberal. O capitalismo de cassino pode ser contido em nível europeu. Contudo, para conseguir isso, primeiro precisamos inverter o equilíbrio de forças políticas na Europa em favor da Esquerda Europeia.

Isso nos permitiria apresentar nossas propostas políticas. Por exemplo, uma “Lei Glass Steagall Europeia”, que é central em nosso programa. Por si mesma, conteria o capitalismo de cassino na Europa, já que seriam separadas as atividades bancárias comerciais das investidoras, preveria uma combinação muito perigosa de riscos, em uma entidade incontrolada, e reduziria o compromisso dos bancos comerciais em valores e em outras atividades do produto financeiro.

Qual é o seu projeto para criar emprego para os 27 milhões de europeus que procuram trabalho, especialmente os jovens, com índices de desemprego que atingem 60% na Grécia e na Espanha?

O primeiro passo imprescindível e imediato seria acabar com a austeridade e introduzir uma política orientada à demanda interna, centrada no aumento dos salários e, portanto, na capacidade de consumo das classes baixas e médias. Um passo paralelo seria o chamado “New Deal europeu”. É um plano europeu de, inicialmente, investimento público nas áreas de educação, pesquisa e inovação, novas tecnologias e infraestrutura, com um forte e destacado financiamento europeu. Daremos prioridade à reativação coordenada das economias europeias, para que a Europa deixe de girar ao redor da armadilha da recessão, estancamento e crescimento anêmico, e possa criar altos níveis de emprego.

O Partido da Esquerda Europeia pediu a realização de uma Convenção Europeia sobre a dívida e o investimento público, com a finalidade de resolver o problema das dívidas dos países com mais dificuldades, assim como ocorreu na Alemanha, em 1953, como um primeiro passo para a recuperação econômica. Quais são as propostas?

Nosso plano político para administrar eficazmente o superendividamento da zona do euro, de maneira credível e definitiva, baseia-se em três pilares: o primeiro, acabar com a austeridade. Porque a austeridade alimenta a proporção da dívida em relação ao PIB. Portanto, necessitamos de uma mudança na política para conseguir um crescimento equilibrado e viável. Entretanto, o crescimento não surgirá enquanto não terminar a austeridade. Portanto, o segundo pilar é o “New Deal europeu”, que mencionei antes. E, em paralelo, o terceiro pilar é a “Conferência Europeia da dívida”, para lidar com o volume da dívida em si. Isso pode implicar em uma variedade de possíveis soluções específicas para cada país, incluindo a amortização de uma parte significativa do valor nominal, com uma “cláusula de crescimento” para o reembolso da parte restante, monetização parcial da dívida pelo Banco Central Europeu, a moratória no pagamento da dívida, etc.

Você também insiste na necessidade de se construir as alianças sociais e políticas de maior abrangência possível. Como é este processo?

Mudar a Europa é uma tarefa de proporções históricas, que requer a mais ampla participação possível das forças sociais e políticas. Isto não ocorrerá da noite para o dia. Este é um processo que requer mudanças econômicas e políticas imediatas e reformas, passo a passo, para desmantelar a estrutura neoliberal de governança econômica da zona do euro, que a senhora Merkel e seus aliados políticos foram acumulando durante os anos da crise. Por exemplo, o necessário cancelamento do denominado pacto fiscal europeu, que ao ter sido aprovado, seja por referendo ou mediante um procedimento parlamentar, não pode ser mudado de um dia para o outro. Não é nenhuma coincidência que a Grécia, que desde maio de 2010 foi um porquinho-da-índia para as prescrições da política neoliberal da União Europeia e, em consequência, uma peça de dominó negativa no sul europeu, possa se tornar, agora, com um governo do SYRIZA, em uma peça contrária, positiva, que percorra a Europa como fonte do final da austeridade e do início da mudança democrática. É por isso que o voto na Esquerda Europeia é o voto no futuro democrático da Europa. E para conquistar isso, nós temos que mudar o poder político na Europa. O neoliberalismo não é invencível. É apenas o produtor de uma opção política que corresponde ao equilíbrio de forças em um momento concreto da história da Europa.

Ele deve a sua longevidade, como paradigma econômico atual, principalmente aos social-democratas que, em meados dos anos 1990, adotaram a estratégia política de aceitar completamente seus princípios e objetivos políticos.

Uma decisão de grande importância que será tomada durante a próxima legislatura europeia é a aprovação ou não do acordo de comércio e investimento transatlântico, entre os Estados Unidos e a União Europeia, que determinará profundamente nossas vidas, a economia e a própria democracia. O Partido da Esquerda Europeia tem uma posição muito forte contra o Tratado. Quais são os pontos mais perigosos desse acordo?

A Esquerda Europeia nunca aceitará um acordo comercial que seja para diminuir o social, o trabalhista, a segurança e saúde e as normas ambientais, que geralmente consta nos acordos comerciais, uma corrida para reduzir a democracia. Nunca aceitaremos um acordo comercial que permita às empresas privadas promulgar procedimentos legais contra os governos nacionais, em caso de uma mudança na economia ou na política de investimento que considerarem prejudiciais para seus interesses. Isto não tem cabimento e é absolutamente intolerável.

Em uma coletiva de imprensa, você disse que, no dia anterior, preferiu assistir a partida de futebol entre o Real Madrid e o Barcelona do que o debate televisionado entre Schulz e Juncker, porque pelo menos os jogadores tinham uma verdadeira disputa em campo. Como você definiria os dois candidatos à presidência da Comissão Europeia da social-democracia e da direita, Schulz e Juncker?

Meus comentários são apenas políticos. Em minha opinião, o Sr. Juncker e a Sra. Schultz são politicamente complementares. Apesar de suas diferenças, fazem parte do mesmo consenso neoliberal. Por isso, gastam o período pré-eleitoral com generalidades e desejos, ocultando seu verdadeiro programa comum de austeridade.

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