''Cultura e a morte de Deus''. O novo livro de Terry Eagleton

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07 Maio 2014

O ateísmo não é tão fácil quanto parece; geralmente ele é religião com outra roupagem; uma mutação da fé religiosa.

Publicamos aqui uma análise do novo livro de Terry Eagleton (foto), intitulado "Culture and the Death of God".

Terry Eagleton é um proeminente teórico literário britânico, crítico e intelectual público. Atualmente é professor de Literatura Inglesa na Universidade de Lancaster, professor de Teoria Cultural na Universidade Nacional da Irlanda e professor visitante de Inglês e Literatura na Universidade de Notre Dame.

A resenha foi escrita por John McDade, ex-reitor do Heythrop College, na Inglaterra. O artigo foi publicado na revista The Tablet, 01-05-2014. A tradução da versão italiana é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Eu não acredito em Deus, mas sinto falta dele", disse Julian Barnes: um sentimento nostálgico bem diferente da raiva de Samuel Beckett pelo fato de Deus nem sequer existir: "Ele não existe, esse bastardo!".

O desaparecimento de Deus da nossa paisagem cultural – a "morte de Deus" – deve ser ocasião de arrependimento ou de raiva, de triunfo secularista ou de desolação religiosa. Pelo menos, isso é o que deveria acontecer. Mas o estranho é que essa morte é considerada não como uma crise, mas sim como um passo para a maturidade de uma humanidade que atingiu a maioridade.

E, como [o apresentador de TV inglês] Jimmy Savile, seu verdadeiro caráter pode ser escondido em um brilho cheio de publicidade: na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, John Lennon foi misteriosamente ressuscitado para cantar "Imagine", conduzindo a nação no desejo apaixonado de que Deus, a religião e o céu já eram coisas do passado.

Na cerimônia de encerramento dos mesmos jogos, Eric Idle cantou Always Look on the Bright Side of Life, a música que acompanha a paródia da crucificação no filme A Vida de Brian, de Monty Python. E ninguém notou a estranha morte da Grã-Bretanha cristã que estava acontecendo como parte de uma celebração nacional de "anglicismo". Nem mesmo os franceses ateus teriam arranjado algo tão ofensivo como isso e fugido impunes. Que eu saiba, nenhum líder eclesial britânico disse algo sobre isso.

Mas agradeço a Deus por Terry Eagleton – ou, como o Príncipe Charles o chama, "aquele terrível Terry Eagleton". O epíteto é imerecido, mas Eagleton, suponho eu, toma-o como um elogio. Seu livro mais recente confirma-o como um dos pensadores mais interessantes sobre cultura e religião que temos na atualidade, e a boa notícia é que o que ele diz sobre a nossa situação contemporânea é verdadeiro, importante e acessível.

A religião, de acordo com Eagleton, é "visão e instituição, experiência sentida e projeto universal"; mas na primeira etapa da "morte de Deus", a da modernidade pós-iluminista e do descarte dos códigos da identidade e do modo de vida cristãos, a sociedade inventa uma série de substitutos que possam preencher a lacuna e replicar esses objetivos.

Eagleton identifica "Razão, Natureza, Geist (o 'espírito' de Hegel), cultura, arte, o sublime, a nação, o Estado, ciência, humanidade, o Ser, Sociedade, o Outro, desejo, a força de vida e as relações pessoais" como "formas de divindade deslocada". O ateísmo, diz ele, não é tão fácil quanto parece; geralmente ele é religião com outra roupagem; uma mutação da fé religiosa.

Em uma era cética sobre as alegações de verdade religiosas, uma "marca diluída da fé" sem conteúdo específico, mas com sentimentos calorosos, nos convém mais do que as religiões com pesadas doutrinas e com foco na lei, que castigam e disciplinam o "eu". Se um instinto de um Deus transcendente permanece, insatisfeito com os substitutos socialmente construídos em oferta, ele é privatizado, e as pessoas "acreditam" (apenas) sem "pertencer" socialmente a qualquer lugar.

Os cristãos tornam-se invisíveis aos outros e, talvez, no fim, eles se tornam invisíveis para eles mesmos. É aqui onde nos encontramos agora? Deveríamos ficar perturbados pela profundidade do "lapso" interior ao nosso redor e dentro de nós.

Mas quando você pensa que não poderia ficar pior, a segunda etapa da "morte de Deus" nos atinge. Para Eagleton, este é o pós-modernismo a todo vapor: "Quando a divindade é finalmente condenada à morte", quando até mesmo um sentimento nostálgico pelo sagrado e pelo transcendente é banido.

Os substitutos pós-religiosos anteriores para Deus são descartados, assim como todas as formas de significado transcendente são julgadas ilusórias. Enquanto Nietzsche, o melhor ateu que Deus nos deu, ficou furioso porque viu a presença contínua da "gramática", a condição de sentido e de verdade no discurso humano, como sinal da presença do Deus odiado, o pós-modernista eleva ao máximo a ira de Nietzsche e nega toda a verdade e significado, tornando a linguagem e a vida infinitamente autorreferenciais, abolindo até mesmo esse traço final de Deus.

Para finalmente se livrar de Deus, a própria subjetividade é remodelada, despojada de todas as pretensões à verdade e valor objetivos. No fim, chega "o ateísmo autêntico", no qual Deus, a fonte de valor e de propósito, aquele que nos diz quem somos e para que existimos, é deslocado pelo "eu" automodelado e sem fundamentos, engajado em nada mais do que trivialidades divertidas. (Pense-se em Madonna e Lady Gaga, nas modificação do corpo e no narcisismo, nas marcas e nas celebridades, na alegria calculada de Boris Johnson e no hedonismo da série The Only Way is Essex.)

Finalmente, nesse mundo radicalmente pós-religioso, algo inesperado acontece: dois aviões atingem o World Trade Center no dia 11 de setembro, um "ardor metafísico" irrompe de novo, e Deus de repente está de volta à agenda social e intelectual. Eis, para Eagleton, a nossa posição atual: em que a religião fundamentalista de vários matizes, por um lado, e um secularismo agressivo, por outro, enfrentam-se um contra o outro, com poucas perspectivas de compreensão mútua.

Não tenho certeza: a minha hesitação a aceitar a ideia de que o 11 de setembro mudou tudo e inscreveu o terror religioso no corpo político vem da experiência de ter sobrevivido aos atentados de Londres de 7 de julho de 2005 e, dois dias depois, de ter participado de uma conferência católico-xiita que foi realizada com mais urgência justamente por causa da violência. O diálogo não é anulado pela violência. De fato, os melhores e mais profundos impulsos da religião são muitas vezes desencadeados pela experiência da violência. Em parte, é isso que o corpo crucificado de Cristo realiza, ainda.

A análise de Eagleton dos canais de divindade substituta leva o leitor através de paisagens intelectuais raramente visitadas por aqui, mas que valem a viagem: suas exposições do idealismo e do romantismo filosóficos alemães são simplesmente magníficas, e, de fato, o modo como a cultura intelectual alemã é apresentada e tornada inteligível é magistral.

Será impossível para qualquer um, depois de ler esse livro, levar [o poeta e crítico britânico] Matthew Arnold a sério de novo. Mas não há dúvida de que o próprio Eagleton deve ser levado a sério por pessoas sérias. 

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