Bergoglio e Pannella, diálogo entre um papa e um velho radical

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28 Abril 2014

"Alô, é Francisco..." Estávamos acostumados aos telefonemas do papa argentino. Nem contávamos mais as suas improvisações telefônicas para homens, mulheres, jovens, estudantes, viúvas, vítimas de várias desventuras. A opinião pública também tinha registrado uma queda no interesse, assim como não se admirava mais que o pontífice se servisse de um simples carro de meia cilindrada, em vez de um pomposo sedã de placa "SCV 1".

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 26-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas o telefonema inesperado de Bergoglio a Marco Pannella é outro golpe de mestre da comunicação do papa "que veio do fim do mundo", porque justamente no momento em que, no domingo, a Igreja Católica, com a celebração dos quatro papas (dois santos e dois vivos) se concede a máxima exaltação do seu poder de influência sobre o imaginário dos contemporâneos, o chefe do catolicismo recorda com o seu gesto que a Igreja não pode se iludir que basta se fechar em si mesma, mas deve saber se comunicar com aqueles que pensam de forma diferente. Incluindo aqueles que, por uma vida inteira, combateram o clericalismo da hierarquia eclesiástica.

Na Cúria, já começaram as críticas subterrâneas aos seus telefonemas. Quem não o perdoava por ter concedido uma entrevista a Scalfari hoje está ainda mais contrariado pelo seu diálogo com Pannella-Diabo, que liderou e venceu batalhas epocais pelas leis sobre o divórcio e o aborto.

O telefonema demonstra, no entanto, que Bergoglio não vem, de fato, do "fim do mundo", mas tem conselheiros que lhe informam bem sobre "quem é quem" na Itália.

A conversa com o líder radical também nasceu de um dado pessoal do papa: Bergoglio é curioso, lê os jornais e não os recortes da imprensa, quer saber o que acontece em uma sociedade multicultural em que a Igreja não tem monopólios garantidos de cima. Este estar imerso na realidade do pluralismo – sem a menor nostalgia de hegemonias passadas –, por outro lado, é o que diferencia radicalmente Jorge Mario Bergoglio dos pontífices anteriores, todos nascidos na reserva protegida de um catolicismo dominante: trate-se uma pequena localidade italiana ou de um vilarejo bávaro ou polonês.

Francisco telefonou para Pannella porque – como disse o cardeal Ravasi recentemente em uma entrevista com Antonio Gnoli – o papa argentino "deslocou, evidentemente, a comunicação do plano teórico para o existencial". É isso o que é interessante para Francisco. Falar do homem e da mulher concretos no mundo de hoje.

Pannella fez muitas batalhas – também não é preciso estar de acordo com todas ou com toda solução proposta –, mas há um fio comum que as une. O divórcio, o aborto, a luta contra a fome, a paz, as condições carcerárias: em cada uma desses empreendimentos, conduzidos com paixão e com um uso sanguíneo e muitas vezes violento das palavras, o líder radical teve como centro da sua atenção o ser humano de carne e osso.

Divorciar não é bonito, mas definhar na opressão de um vínculo imposto pela vida inteira é desumano. Abortar é um drama, mas transformar com a força ou o terror psicológico a mulher em um contêiner para levar a termo uma gravidez indesejada é desumano. Lutar pela paz para combater o escândalo da fome no mundo, pela dignidade dos presos não é um ideal abstrato, mas sim um ir ao encontro de rostos concretos de mulheres e homens espalhados pelo planeta.

"Eu vou lhe ajudar", disse Francisco ao velho leão radical. Enviando a mensagem de uma Igreja que dialoga sobre os problemas vitais do homem, sabendo que o Outro – a pessoa com quem se dialoga – é diferente de si mesmo, pode fazer outras propostas, mas deve ser reconhecido na dignidade de interlocutor.

Não, não agradará a muitos da velha guarda curial o telefonema do papa argentino. Porque um supremo pontífice – segundo eles – não deveria dirigir a palavra a quem reservou palavras de fogo a padres e cardeais que, na Itália, montaram barreira contra muitas leis liberatórias.

Mas, ao contrário, se a Igreja deve ser hospital de campo na crise existencial e social contemporânea, como acredita o Papa Francisco, não se fazem exames de sangue preventivos daqueles que temos à nossa frente.

Uma velha foto mostra Marco Pannella e Emma Bonino diante do Papa Wojtyla em 1986. Tratava-se de uma ocasião oficial: o encontro de João Paulo II com o conselho da associação Food and Disarmament International, do qual ambos faziam parte. A diferença está aqui. O Papa Francisco não precisa de tapumes oficiais para falar de homem para homem.

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