New York Times: ''É um erro santificar Wojtyla''

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25 Abril 2014

Ele não era um santo, porque fechou os olhos para os abusos sexuais cometidos dentro da Igreja. Assim o New York Times rompe o coro das celebrações pela canonização de João Paulo II, com um editorial da renomada colunista Maureen Dowd.

A reportagem é de Paolo Mastrolilli, publicada no jornal La Stampa, 24-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O título já diz tudo: "A Saint, He Ain't", uma forma quase dialetal para desmontar os méritos do papa polonês. Dowd, católica de formação, reconhece que Wojtyla foi uma figura histórica da Igreja, sobretudo pelo seu papel no colapso da União Soviética.

Ao mesmo tempo, presta homenagens à sua coragem intelectual, lembrando que, apesar da aversão ao comunismo, uma vez vencida a batalha da sua vida, ele também não foi terno com o capitalismo, antecipando muitas das críticas que hoje tornam o Papa Francisco popular.

Na opinião de Dowd, porém, o grande erro de João Paulo II foi fechar os olhos para o fenômeno da pedofilia, chegando a proteger no Vaticano o controverso cardeal de Boston, Bernard Law, titular da diocese onde ocorreram os abusos sexuais mais graves na Igreja norte-americana, e a defender fortemente o fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel Degollado, acusado pessoalmente de assédios.

A justificativa dada para esse comportamento é que Wojtyla não acreditava nas denúncias, porque lhe lembravam daquelas levantadas contra a Igreja polonesa pelo regime comunista para derrubá-la. Segundo Dowd, no entanto, é uma defesa que não se sustenta, porque, como papa, ele poderia e deveria ter investigado melhor.

Em seu artigo, a colunista do New York Times faz uma comparação direta com o outro pontífice destinado à glória dos altares, João XXIII, defendendo que a sua canonização é um ato de equilíbrio político. Em essência, Bento XVI quis fazer santo o seu antecessor, considerado um conservador como ele, mas, sabendo das ressalvas que havia, tentou impedi-las, elevando também o "papa bom".

Desse modo, Dowd, que geralmente não aborda o tema Igreja, revelou talvez o verdadeiro objetivo do seu ataque.

É verdade que João Paulo II foi criticado pelo modo como enfrentou o problema da pedofilia, embora sobre esse ponto haja versões conflitantes, porque boa parte dos abusos tinham ocorrido antes do seu pontificado, e os defensores respondem que foi justamente ele que começou a limpeza.

As suas posições conservadoras em termos de doutrina, porém, são inegáveis, e, comparando-as de forma negativa com as aberturas progressistas de João XXIII, Dowd visa a demolir sobretudo esse aspecto do pontificado de Wojtyla.

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