O lixo tecnológico inunda a África

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Por: André | 22 Abril 2014

Para onde vão os celulares, computadores, microondas ou geladeiras velhos? O que acontece com esses aparelhos uma vez que os jogamos no lixo, mesmo no “reciclável”? O caminho que percorrem não está inteiramente claro, mas não há dúvida de que existem vários lugares no mundo onde este lixo tecnológico é acumulado há anos fazendo destes locais tão contaminados ou inclusive mais do que as próprias zonas de extração ilegal de produtos como petróleo, urânio e outros recursos altamente poluentes.

A reportagem é de Aurora Moreno e publicada no sítio La Marea, 20-04-2014. A tradução é de André Langer.

O exemplo mais claro é o chamado lixão tecnológico de Agbogbloshie, em Accra (Gana) onde, de acordo com alguns estudos, existe uma contaminação por chumbo, cádmio e outros contaminantes prejudiciais para a saúde que ultrapassa em mais de 50 vezes os níveis livres de risco. Dizia-o claramente um relatório de 2013 feito pela Green Cross Switzerland e o Blacksmith Institute no qual apontavam as 10 maiores ameaças tóxicas do mundo. Ou seja, os 10 lugares mais contaminados da Terra.

Um deles é este lixão, que compartilha esta triste honra com lugares como Chernobyl. Oficialmente, trata-se de uma ‘área de processamento de lixo tecnológico’. Um eufemismo para definir esta área para a qual vão milhares de toneladas de resíduos tóxicos para, em teoria, serem ‘processados’. A verdade é que até ali chegam, misturados, materiais de todo tipo – entre os quais se encontram geladeiras, microondas e televisores –, tão diversos e contaminantes que, “para reciclá-los de maneira segura requeriria um alto nível de competência e proteção dos trabalhadores”. Algo que claramente não existe em Agbogbloshie. E o pior é que esta zona não é apenas um lixão. É um assentamento informal no qual coexistem zonas industriais, comerciais e residenciais. Uma zona na qual os metais pesados expelidos dos processos de queima chegam às casas e mercados.

Segundo este mesmo relatório, Gana importa anualmente cerca de 215.000 toneladas de resíduos tecnológicos principalmente do leste europeu (...). Dessas, aproximadamente a metade pode ser reutilizada imediatamente, ou reparada e vendida, mas o resto do material é ‘reciclado’ de forma barata, à custa de contaminar a terra e prejudicar a saúde de quem trabalha com eles. Um exemplo paradigmático é o dos coletores de cobre, que queimam os materiais que recobrem os cabos a fim de obter o cobre. Para queimá-los, utilizam um tipo de espuma altamente poluente, jogando no ar todos os contaminantes.

Sucata, fogo e fumaça são o dia a dia em algumas zonas do lixão, onde trabalham sobretudo jovens sem recursos provenientes de famílias pobres, que dependem completamente do que obtiverem neste lixão. Pessoas que sabem que o trabalho ali é lixo, mas que não se queixam porque o que ali conseguem é melhor do que nada. Porque o material que ali obtêm podem vendê-lo depois pelas ruas de Accra e conseguir, assim, o necessário para sobreviver. Interessa também a outros: o centro de Accra está repleto de pontos que vendem a preço baixo todo tipo de aparelhos elétricos, boa parte deles de segunda mão. E a situação não se circunscreve apenas a Gana – que é, certamente, um dos países mais desenvolvidos do continente.

A mesma realidade afeta outros lugares, como Zimbábue, onde há pouco se chamou a atenção para uma possível crise ambiental, porque não dispõe de sistemas adequados para a eliminação deste tipo de resíduos. Tudo isso apesar da existência de tratados internacionais, como a Convenção de Basileia, que restringe os movimentos transfronteiriços de dejetos, e o acordo complementar ao assinado já em 1993, em Bamako, sobre o mesmo tema. Acordos que estabelecem condições, quantidades e critérios para verificar se a ‘exportação’ de lixo está sendo feito de maneira correta.

No entanto, para os países mais desenvolvidos sai muito mais barato desfazer-se deles em algum porto remoto da África do que seguir as estritas normas de reciclagem que eles mesmos se autoimpuseram, mas que quase ninguém cumpre. Para os países receptores, por sua vez, esta é uma suposta fonte de ‘riqueza’ da qual vivem muitos dos seus concidadãos, apesar dos riscos e problemas que traz para a saúde. Uma solução, em definitiva, que convém a muitos e que não é regulada adequadamente.

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