Retórica e mística em Laclau

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Por: Jonas | 15 Abril 2014

“Os nomes de Deus seguem como compreensível ponderação retórica o itinerário do inefável, que chama para atos de substituição ou representação, metáforas ou metonímias de meios. Laclau é, sem dúvida, um consumado retórico e toda sua filosofia é uma retórica que proclama, por sua vez, o fim da retórica”, escreve o sociólogo Horácio González, em artigo publicado por Página/12, 14-04-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Quando se encerra uma obra – ele, que meditou sobre a impossibilidade do conceito encerrar –, encerra-se uma vida. Dizemos assim e não ao contrário, porque Ernesto Laclau tinha plena consciência de ter oferecido uma obra e dedicou sua vida para propagar a linguagem que a constituía, em grande medida inventada por ele. Seu falar cotidiano era composto de desafios, ironia e tango. Quando abandonava essas nostalgias, aparecia a expressão “debates e combates”. Tão latino-americanista, tão fervoroso adepto de itinerários políticos que defendeu como um dever ser kantiano, sua escritura consistia em uma consideração quase geométrica sobre a ordem das diferenças e as equivalências, mas em seu caso levada a um tenso diálogo com uma radicalização da tese do significante vazio da lingüística do século XX.

Isso o colocou diante da facticidade do “nada místico” e dos dilemas de sua representação. Acredito que essa é sua maior originalidade. Em algum momento de seu longo trajeto – desde o Partido Socialista da Esquerda Nacional até Essex, e desde o debate europeu com Negri ou Zizek até suas rompantes declarações, toda vez que pisava em Buenos Aires – pronunciou a palavra que faltava: misticismo. Refletiu com esta ênfase em seus últimos trabalhos, onde se ocupou da interessante figura de Mestre Eckhart, como objeto de sua antiga interrogação sobre a impossível plenitude da vida política.

A dificuldade de todo presente leva Laclau a explorar a potencialidade da ausência, do nada, do misticismo e da linguagem como o outro que se coloca em ato de compreensão necessária (porém desfalecente) sobre o que traz todo significante político: precisamente, aquela impossibilidade de saturação de sentido. Tais dificuldades são, então, as que acreditam o político entendido como uma realidade essencialmente frustrada na tentativa de se saber a si mesma. Nenhum enunciado pode encerrar sua própria qualidade de se preencher, com o qual em princípio é formulado. Laclau chama isso de política, mas isso tampouco pode ser inteiramente chamado (quer dizer, é inibido de ser objeto completo de um chamado por outro).

Esses paradoxos do ser argumentativo da vida (porque há um vitalismo profundo no conteúdo destas considerações) lhe servem para esclarecer o funcionamento das ideologias, indispensáveis, mas, por sua vez, ineficazes para designar o campo de possibilidade do ser político, para o qual se propagará sobre os nomes de Deus. O célebre “mito” de Sorel lhe é oferecido como forma intelectual de tratamento com a diferença e a igualdade dos enunciados de ação. O mito se torna, talvez como Sorel desejava, uma revelação daquilo que toda situação tinha como sedimento. Não servia como plenitude do pensar, mas em sua “falha” descobria uma forma do ser.

Os nomes de Deus seguem como compreensível ponderação retórica o itinerário do inefável, que chama para atos de substituição ou representação, metáforas ou metonímias de meios. Laclau é, sem dúvida, um exímio retórico e toda sua filosofia é uma retórica que proclama, por sua vez, o fim da retórica. Esses atos devem se consumar, mas nisso deixam o vazio necessário para que se renove o ciclo fatal do significante vazio. Sempre se reintroduz, como nesse caso em que o político, em sua capacidade de dar nomes, é envolvido em um estilo místico, como o de Eckhart, que trabalha com o nada e o vazio de Deus.

O retórico verdadeiro é sempre um grande leigo falando das religiões e da linguagem; conhece o vazio, a anedota que ajuda a descobrir os nomes ausentes, e é o que se anima a dar um nome sem ser áugure. Uma velha revista argentina, da época em que Laclau era jovem, tinha como seção uma frase de Nietzsche. “Fala sua palavra e rompe-te”. Ao conhecer a morte de Laclau, deu vontade de voltar a nossa adolescência.

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