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09 Abril 2014

O apelo dramático lançado pelo núncio apostólico na Síria. "A ajuda humanitária ainda é bloqueada".

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Linkiesta, 02-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É preciso um cessar-fogo parcial, até mesmo de poucas horas, nas várias localidades sob ataque na Síria. Os caminhões com ajuda humanitária são bloqueados pelas diversas partes envolvidas no conflito e não podem levar ajudas fundamentais como alimentos e remédios. A comunidade internacional pode se comprometer imediatamente para obter esse resultado. As pessoas, as crianças estão morrendo de fome.

Esse é o apelo dramático lançado por Dom Mario Zenari, 68 anos, núncio apostólico na Síria desde 2009.

Zenari se encontra em Damasco desde o início do conflito e nestes dias está em Roma, onde se encontrou com o papa para lhe relatar a situação em que o país se encontra. "Na Síria – diz o diplomata – está sendo travado um conflito medieval. Retrocedemos séculos. Mas, diante disso, não podemos permanecer em silêncio."

"No passado – conta – eu desempenhei a minha missão na África, estive no Sahel, onde vi cenas semelhantes, mas, naquele contexto, também faltavam os recursos naturais. Aqui, estão morrendo de fome sob ataque."

A revolução síria começou há três anos como uma revolta popular contra o regime autocrático de Assad. Depois da repressão das forças de segurança, ela se transformou em uma feroz guerra civil de fundo étnico, alimentada com o tempo também por um número crescente de grupos fundamentalistas islâmicos. Na Síria, muitos interesses geopolíticos estão em jogo, mas o país está no seu limite.

Eis a entrevista.

Dom Zenari, em que ponto está a crise humanitária?

Na Síria, há um conflito sangrento, muito duro. As destruições continuam, as pessoas morrem de fome, faltam remédios. Infelizmente, tudo isso não gera mais notícia. Mas, mesmo em Damasco, às vezes tem-se a mesma sensação. Muitas vezes, penso que em 3-4 quilômetros de distância de onde eu me encontro, nos bares e nas lojas da cidade, há pessoas que morrem de fome. Há esse campo palestino de Yarmouk, que é um bairro sitiado, onde só as Nações Unidas entraram. Também para Ghouta, a localidade em que ocorreu o ataque com armas químicas no ano passado, não podemos mais ir há muitos meses. Ninguém sabe como as pessoas vivem lá. Em muitos lugares, nem mesmo cães e gatos circulam. De acordo com as estatísticas da ONU, em toda a Síria, em várias localidades, há cerca de 250 mil pessoas que vivem sob ataque. Homs está sitiada há quase dois anos. Devemos repetir que estamos diante de uma catástrofe humanitária.

Quando o senhor fala de Damasco, parece que estamos ouvindo a descrição de Varsóvia durante a guerra: no gueto, morria-se de fome, e o resto da cidade ainda levava uma vida quase normal...

Sim, mas isso está debaixo dos olhos de todo o mundo. Além disso, as partes em conflito ficam jogando as responsabilidades entre si. Há quem tenha mais e quem tenha menos responsabilidade, mas essa é a situação.

Mas a ajuda internacional chega?

Contam-me sobre crianças, até mesmo de poucos meses, que não têm leite, e as mães lhes dão a água em que o arroz é lavado; 9,3 milhões de sírios precisam de ajuda humanitária de uma população de 23 milhões de pessoas. Mas o fato é que os caminhões das Nações Unidas e de outras organizações humanitárias estão lá e não conseguem se deslocar: leite, arroz, remédios estão lá, mas não têm a permissão para entrar nas cidades sitiadas. Bastariam poucas horas de um cessar-fogo. É uma lógica diabólica que está em curso. A comunidade internacional deve fazer mais. Há crianças que são pele e ossos.

As negociações de Genebra 2, portanto, foram um fracasso...

Sob esse ponto de vista, Genebra 2 foi uma decepção. Isso já estava um pouco no ar, as partes estão distantes demais. Uma tentativa foi feita depois com a resolução da ONU sobre a ajuda humanitária, mas de pouco serviu, até porque o texto, fruto de muitas mediações, não prevê sanções no caso de não ser aplicada.

Para responder à emergência humanitária, o que pode ser feito de imediato?

Seria preciso um cessar-fogo total, mas temos de ser realistas, seria preciso ao menos um cessar-fogo parcial ou mesmo algumas horas, como pediam várias organizações, para fazer com que as ajudas cheguem, para deixar os caminhões entrarem e para lhes dar tempo para descarregar. O emaranhado político da crise, além disso, se complica cada vez mais, mas o emaranhado humanitário deve ser desfeito. Sobre as ajudas, não se deve transigir, é preciso respeitar o direito humanitário internacional. Está sendo travada uma guerra com métodos rejeitados pelas convenções internacionais, estamos retrocedendo em séculos, estamos na Idade Média. Além disso, certamente, as várias partes em combate devem dar um passo atrás.

Qual é a contribuição da Igreja e como os cristãos vivem hoje?

A Igreja atua principalmente no fronte humanitário. Até agora, foram recolhidos e distribuídos 80 milhões de dólares em projetos de apoio dentro e fora da Síria, através das Cáritas de várias partes do mundo. A situação dos cristãos é de sofrimento, como para todos. Certamente, no último ano e meio de conflito, com a chegada de combatentes fundamentalistas da Arábia Saudita, do Afeganistão, da Tchetchênia, começaram as agressões às igrejas, as intimidações. Dizem aos cristãos: "Vocês têm que ir embora, este é um Estado islâmico". Mas, durante todo o primeiro ano e meio de guerra, os cristãos foram respeitados. Nos postos de controle, quando eles eram reconhecidos, mesmo que só pelo nome, sempre deixavam-nos passar. Agora, há o risco de que o mosaico da convivência entre etnias e religiões seja despedaçado. Será preciso reconstruí-lo. Até porque a violência gera vingança, ódio, represálias.

O senhor pode dizer algo sobre o destino do padre Paolo Dall'Oglio e dos outros reféns?

Os reféns são vários milhares com esse modo de fazer a guerra. Temos o padre Dall'Oglio, dois bispos ortodoxos e outros. Esses são a ponta do iceberg. Certamente, não podemos ignorar o fato de que o padre Dall'Oglio foi sequestrado em uma das regiões mais difíceis, Raqqa, onde se encontram os mais fanáticos. Mas eu espero sempre.

No plano internacional, como estão as coisas? A comunidade internacional está fadada ao imobilismo?

Em setembro, quando os Estados Unidos e a Rússia chegaram a um acordo sobre o desmantelamento dos arsenais químicos do regime de Assad (depois do ataque com armas químicas em Goutha e a posterior missão na área dos inspetores da ONU), ficou demonstrado que, se quiserem, as superpotências, a comunidade internacional podem chegar a acordos importantes. Naquele momento, ninguém acreditava, mas foi feito. Mas agora tudo é mais difícil. A primeira a pagar a conta pela crise na Crimeia e na Ucrânia e pelo retorno da Guerra Fria é a Síria.

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