Professor é acusado de racismo em aula na FFLCH-USP. O debate pode ser bom, se ficarmos atentos às injustiças

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02 Abril 2014

A aula Regionalização do Espaço Mundial estava sendo dada na última terça-feira (18/03) pelo professor André Martin, chefe do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo. A discussão era sobre a legitimidade da presença das tropas brasileiras no Haiti e o professor argumentava em defesa da posição do Brasil. Nesse momento, surgem duas versões para os diálogos travados em sala. Segundo os estudantes, que publicaram uma nota na página do Centro de Estudos Geográficos Capistrano de Abreu no Facebook, Martin disse: “Se o exército brasileiro não estiver lá (no Haiti), quem vai por ordem na macacada?”.

A reportagem é de Bruno Paes Manso, publicada pelo jornal Estadão, 28-03-2014.

Momentos de improviso criam uma aula dinâmica. Alunos envolvidos, perguntas e respostas. Não é fácil tirar da cartola um bom argumento para convencer uma audiência de jovens extremamente críticos. Não há tanto tempo para elucubrar. De repente, no debate, uma palavra errada, carregada de significados negativos, acumulados ao longo de 400 anos de história de escravidão e preconceito no Brasil, é lançada pelo professor aos seus alunos:…”macacada”….

A aula Regionalização do Espaço Mundial estava sendo dada na última terça-feira (18/03) pelo professor André Martin, chefe do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo. A discussão era sobre a legitimidade da presença das tropas brasileiras no Haiti e o professor argumentava em defesa da posição do Brasil. Nesse momento, surgem duas versões para os diálogos travados em sala. Segundo os estudantes, que publicaram uma nota na página do Centro de Estudos Geográficos Capistrano de Abreu no Facebook, Martin disse: “Se o exército brasileiro não estiver lá (no Haiti), quem vai por ordem na macacada?”.

Ainda segundo os estudantes, um aluno interrompeu o professor e o questionou sobre o termo. Martin tentou se justificar dizendo que era o imperialismo norte-americano quem dizia isso. Ainda na versão dos estudantes, a justificativa não funcionou e o professor disse que “antigamente o termo ‘macacada’ era comum para designar o “povão”. Há também alunos que contestam essa versão, negada pelo professor.

Segundo Martin, a frase que ele disse foi outra. O professor afirma que usou o termo macacada entre aspas. A frase na íntegra teria sido a seguinte: “E se as tropas brasileiras não estivessem no Haiti? Eles iriam se pegar e aí o imperialismo norte-americano diria: ‘nós temos que intervir para por ordem nessa macacada’”.

Os dias que se seguiram foram tensos, com articulação dos alunos e acusações a Martin nas redes sociais. A porta da sala do professor na FFLCH foi pichada com o termo “racista otário”. Colegas do departamento saíram em defesa de Martin. Professores e alunos soltaram notas (ver a íntegra abaixo), que valem muito a pena serem lidas. Mas o diálogo ainda está truncado, compreensivelmente com mágoas de ambos os lados.

Pontos importantes foram levantados por ambos. Afinal, dois pesos pesados estão travando o debate: de um lado, Martin, com 38 anos de magistério, professor livre docente desde 2007 e chefe de departamento. Tem uma trajetória vinculada a ideias progressistas e uma carreira sem máculas. Ele mesmo afirma na nota: “Poderia um estudante liberal me acusar de marxista ultrapassado, mas me chamarem de racista? É insano.” Na discussão que propôs na carta aos alunos, Martin apontou a ameaça a reputações proporcionada hoje pela internet; o risco do patrulhamento ideológica feito pela ditadura do politicamente correto; a armadilha que a discussão em torno do termo raça e racismo levanta; a má vontade dos alunos com ele, que é visto como chefe, cargo que intrinsicamente teria uma carga negativa.

De outro lado, estão alguns dos alunos mais politizados do Brasil, que estudam na faculdade que pode ser apontada como berço dos movimentos sociais de junho. Vem de lá desde os integrantes do MPL, do grupo Somos Jovens, e até black blocks, para citar alguns. Na FFLCH, assim como em todas as faculdades da USP, os negros são minoria. Como podem os brancos de classe média, como eu e a maioria dos alunos de lá, minimizar o grau da ofensa que a palavra dita em sala de aula carrega? É isso que o movimento dos alunos, de alguma forma, está tentando passar. A FFLCH, aliás, é o local onde esses movimentos negros estão mais se articulando ativamente e se fortalecendo.

Os alunos também levantaram outros temas importantes. Será que certas associações feitas com o povo negro já não são hoje a tal ponto enraizadas e normatizadas que surgem de repente na boca de um professor, sem que ele perceba, dentro da sala de aula? Associações que, conforme argumentam os estudantes, são “à primeira vista inofensivas, mas que vêm historicamente acorrentadas a uma estrutura hierárquica de classe e raça que se mantém até hoje”.

Em vez de respostas, surgem perguntas, perguntas e mais perguntas que fazemos às nossas consciências. Sem dúvida, o debate é provocador e pode ajudar a avançar nas discussões sobre preconceito e racismo em São Paulo e no Brasil. Desde que se tenha cuidado com injustiças a serem cometidas contra pessoas abertas ao diálogo, dispostas a se desculpar e a reconhecer o erro. O que se trata de uma postura grandiosa. Uma minoria que vem por séculos sofrendo injustiças, certamente vai tomar cuidado para não usar a mesma arma. Foram essas as principais lições de dois dos maiores líderes mundiais do século XX, Martin Luther King e Nelson Mandela.

Torcemos para um desfecho em que todos saiam ganhando, para que as mágoas sejam superadas. Parece que, nesse caso, estudantes e professor podem seguir juntos. O professor sugeriu uma mesa-redonda sobre “Brasilidade, Africanidade e preconceito racial no Brasil?” Os alunos concordaram com a proposta. Mas também querem uma retratação pública do professor e pretendem aprofundar o debate sobre o ocorrido. Dizem aguardar o agendamento conjunto do evento. Novidades, aviso pelo blog.

Abaixo, segue a íntegra das cartas de André Martin e dos alunos da Geografia.

Carta aberta aos estudantes do Departamento de Geografia da FFLCH-USP

Queridos alunos, Negros, brancos e de todas as cores.
Estupefato diante da repercussão causada a partir de um pequeno incidente em sala de aula, ocorrido na turma da noite da disciplina Regionalização do Espaço Mundial, na última terça-feira, vejo-me consternado, na obrigação de esclarecer a todos o que realmente aconteceu. E vamos direto aos fatos.

Eu nunca disse a frase que está circulando por aí nas redes sociais. E veja, estão me acusando não apenas de haver pronunciado uma suposta frase racista, mas pessoas que não me conhecem, estão escrevendo que eu sempre fui racista. É estarrecedor. A frase literal que pronunciei foi a seguinte: “E se as tropas brasileiras não estivessem no Haiti? Eles iriam se pegar e aí o imperialismo norte-americano diria: “nós temos que intervir para por ordem nessa macacada”.

Que tirem os leitores, suas próprias conclusões. Poderia um estudante liberal me acusar de marxista ultrapassado, mas me chamarem de racista? É insano. Não sei com que interesses políticos estão tentando criar um factóide, se aproveitando do fato de que, por ora, ocupo o cargo de Chefe do Departamento de Geografia. Menciono este aspecto porque não foi casual ressaltarem esta condição, que para mim é passageira, mas que para se criar uma imagem desfavorável a meu respeito, e atingir por extensão toda a USP, vem bem a calhar. Ora, colocada a questão nos termos dos meus detratores eu começo perdendo de goleada: de um lado um aluno negro, pobre e indefeso. De outro o poderoso homem branco, professor e ainda por cima, Chefe.

Quem vai ficar do meu lado, ainda mais que o meio utilizado para me difamar são as redes sociais, que eu não freqüento? Só que eles se esqueceram de uma coisa: eu ainda não entrei em campo, não comecei a jogar, não fui ouvido.

Quem está portanto na condição de vítima de calúnia, difamação e preconceito sou eu, aliás de quatro preconceitos bem caracterizados, a saber:

1-) Se saiu no facebook, então é verdade, aconteceu mesmo. Ora, quem está replicando o que leu, acha que a realidade está na rede e não na sala de aula. Por que não procurar os alunos que assistiram a aula para apurar a verdade? É lamentável como esta ferramenta vem sendo utilizada para aniquilar o debate público de idéias. A discussão nunca é publica, e nunca se dá em torno de idéias. É bem mais fácil, e divertido talvez, neste multiplicador de fofocas eletrônico, esculhambar a pessoa.escolhida como oponente.

2-) O aluno tem sempre razão. Este é outro mantra típico da pedagogia pós-moderna dominante. Sempre fui extremamente aberto com meus alunos, tenho 38 anos de magistério e nunca me aconteceu nenhum incidente em sala de aula. Respeito a opinião de todos, mas procuro externar a minha, sem receio do patrulhismo ideógico do “políticamente correto”, que também está amplamente disseminado. Essa visão nasceu na escola privada como extensão da idéia de que “o freguês tem sempre razão”.

3-) Não existem negros racistas, ou em outra versão, todo branco, é, no fundo, racista. Esta já é uma posição mais perigosa, que alguns setores do movimento negro brasileiro infelizmente importaram, acríticamente, dos Estados Unidos. Ela se baseia na teoria do “Black Atlantic” onde as identidades não se dão pelo território, nacionalidade, ou classe social, mas sim pela raça, ou outra característica étnica. Desse modo mesmo que involuntáriamente, quem compartilha dessa visão termina reabilitando um conceito já amplamente desacreditado pela ciência, ao mesmo tempo em que não percebe estar fazendo o jogo do imperialismo, ao procurar dividir a nação brasileira entre brancos e negros, de forma análoga ao que estão tentando fazer na porta de entrada do Heartland, ao colocar ucranianos contra russos, mesmo que isto ponha em risco a paz mundial.

4-) Toda autoridade constituída é ilegítima e portanto tem de ser contestada. É a tal coisa do “Chefe”. Se a pessoa ocupa algum cargo, possui algum poder, então essa pessoa não deve ser lá flor que se cheire. Por princípio, deve ser autoritária, ou então corrupta, se não as duas coisas.

Ora, eu estava na sala de aula na condição de professor, não de Chefe. Jamais utilizei meu cargo como argumento de autoridade, aliás, mesmo como professor nunca agí dessa maneira E vale registrar: levei a aula até o fim, normalmente. Apenas um aluno que se sentiu ofendido, retirou-se, e não vários, como se espalhou, mentirosamente. Uma pergunta inocente: se tivesse de fato proclamado uma sentença racista, será que não seria a classe toda, ou uma imensa maioria dela que se revoltaria contra mim, e não um pequeno grupo?

Para terminar quero dizer que não tenho nenhum problema em pedir desculpas pessoalmente, ao aluno que se sentiu ofendido, pois jamais tive qualquer intenção de fazê-lo
Espero honestamente que este episódio infeliz, sirva ao menos como pretexto para que coloquemos o debate acerca das sobrevivências do preconceito racial no Brasil, num novo patamar. Que tal organizarmos uma mesa-redonda sobre “Brasilidade, Africanidade e preconceito racial no Brasil?” Podem contar com o apoio do Chefe do Departamento de Geografia para tanto.
Respeitosamente André Martin

Nota dos estudantes - Regionalização do Espaço Mundial Noturno 2014: Aos Estudantes, Professores e Funcionários do Departamento de Geografia da FFLCH-USP.

Diante da falsa polêmica que se ergueu nas redes sociais sobre o dito ou o não dito na aula de Regionalização do Espaço Mundial na última terça-feira (18/03/2014); diante do falso debate sobre o Professor André Martin ser ou não racista; e diante dos métodos hostis de repúdio contra o Professor (pichação e escracho) nós, alunas e alunos que estávamos presentes no momento do incidente, viemos a público:

I. Esclarecer o que realmente aconteceu: Questionado sobre a legitimidade e beneficência da presença e atuação das tropas do exército brasileiro no Haiti, o Professor André Martin deixou claro: “Se o exército brasileiro não estiver lá [no Haiti], quem vai por ordem na macacada?”.

Nesse momento, indignado, um aluno interrompeu o Professor para atentá-lo para a gravidade do termo “macacada”, empregado da forma como foi. Ao invés de simplesmente reconhecer sua sentença que foi racista e se retratar pelo equívoco, o Professor tentou se justificar dizendo que era o imperialismo norte-americano quem diz isso e, diante do insucesso da sua justificativa, disse que antigamente, em sua época, o termo “macacada” era comum para designar o “povão”.

II. Apontar que o enfoque e objetivo da questão não é estigmatizar um Professor ou Chefe de Departamento, e sim colocar em debate o racismo materializado estruturalmente e institucionalmente em nossa sociedade e Universidade: Para além do termo “macacada”, uma série de afirmações proferidas pelo Professor André (entre elas a de que “O Brasil não é racista”), analisadas em seu conjunto, nos faz pensar no quão enraizadas e normatizadas estão certas associações feitas com o povo negro, como “macacada” ou “denegrir a imagem de”, à primeira vista inofensivas, mas que vem historicamente acorrentadas a uma estrutura hierárquica de classe e raça que se mantém até hoje.

Ademais, respondendo a pergunta “se tivesse de fato proclamado uma sentença racista, será que não seria a classe toda, ou uma imensa maioria dela que se revoltaria contra mim, e não um pequeno grupo?“: Não importa se uma minoria ou maioria saiu da sala, mesmo porque sabemos que os negros são minoria nesta Universidade. É um absurdo tentar “provar” se a sentença foi ou não racista quantificando-se o número de alunos que se retiraram ou não da sala, já que outros alunos que também se sentiram ofendidos permaneceram na sala para dar continuidade a problematização.

III. Propor um debate e aprofundar a questão: As palavras e os conceitos colocados da maneira que foram, despolitizam o debate e banalizam a questão racial no Brasil, até mesmo porque é esperado que a comunidade acadêmica, principalmente os professores, superem o senso comum e se atentem com termos e conceitos proferidos em sala de aula. Assim, a proposta, inclusive sugerida pelo Professor em seu e-mail, é a de ceder a sua próxima aula para um debate profícuo que supere a margem do superficial, a ser acordada entre os alunos e o Professor.

IV. Exigir uma retratação pública e não individual do Professor André Martin: Ao contrário do que o Professor reiterou em seu e-mail, não se trata de uma ofensa particular de um aluno que se indignou e se retirou da sala, pois o racismo e indignação não é algo personificado e sim estrutural e institucionalizado. Entretanto, é importante ressaltar que a indignação de um aluno é uma manifestação social e coletiva de um setor, um conjunto de estudantes. Por isso, não se trata de um pedido de desculpas por um mal entendido como reitera o Professor: “Não tenho nenhum problema em pedir desculpas pessoalmente, ao aluno que se senti ofendido, pois jamais tive qualquer intenção de fazê-lo”, e sim do reconhecimento e retratação do ato racista que, justamente por passar como inofensiva, mantém a estrutura racista velada e incontestável na sociedade.

Nós, estudantes do período noturno da disciplina de Regionalização do Espaço Mundial (1º semestre de 2014), nos reunimos em sala, nesta terça-feira (25/04/2014) em horário de aula, com o objetivo de esclarecer e aprofundar seriamente o debate sobre o caso ocorrido durante nossa aula anterior (18/03/2014). Esta reunião foi presenciada por dois representantes/delegados do CEGE (Centro de Estudos Geográficos Capistrano de Abreu), e por alguns ex-alunos e amigos do Professor André Martin. Após discussão entre a sala, onde as alunas e alunos presentes no momento do fato tiveram a oportunidade de expor seus diversos pontos de vista, decidimos por consenso, ou seja, sem nenhuma manifestação contrária, publicar esta nota de esclarecimento sobre o ocorrido.

Assinam: Estudantes do período noturno da disciplina de Regionalização do Espaço Mundial (1º semestre de 2014). Departamento de Geografia da FFLCH/USP – 25/03/2014

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