A humanidade é responsável pelos campos de concentração

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Por: Luciano Gallas | 28 Março 2014

“O grito que não cala”. Assim o filme Noite e Neblina, ou Noite e Nevoeiro (Título original: Nuit et Brouillard. Alain Resnais, França, 1955, 32 min), define o horror da existência dos campos de concentração e do genocídio do povo judeu na Europa durante a 2ª Guerra Mundial. Ao apresentar uma série de indivíduos envolvidos com o confinamento e o martírio daquelas pessoas, do carcereiro judeu (chamado de kapo) ao oficial nazista, e lembrar que todos, sem exceção, afirmavam posteriormente não serem responsáveis pelas atrocidades, a obra alerta para os perigos de fingirmos que o extermínio pertence a uma determinada época, a um lugar específico, a um país em especial. Porque, na verdade, somos todos responsáveis pela existência dos campos de concentração. O extermínio de seres humanos, infelizmente, consiste em ato recorrente na história da própria humanidade.

       Crítico Marcus Mello. Fotos: Luciano Gallas

Noite e Neblina foi a obra exibida e debatida no IHU Cinema desta terça-feira, dia 25-03-2014, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Para apresentar o filme, foi convidado o crítico de cinema Marcus Mello, programador da Sala P. F. Gastal, de Porto Alegre. O debate integrou a programação da 11ª Páscoa IHU – Ética, Memória, Esperança. Uma perspectiva de triunfo da justiça e da vida e reuniu mais de 40 pessoas no local - a programação desta edição da atividade segue até o dia 11-04-2014.

O filme tem roteiro e texto narrativo assinados por Jean Cayrol, poeta e escritor que ingressou na Resistência Francesa em 1941, durante a ocupação nazista da França, ele próprio um sobrevivente dos campos de concentração.

O nome do filme é inspirado na coletânea Poèmes de la Nuit et du Brouillard (Poemas da Noite e da Neblina), escrita em 1945 por Cayrol. Nacht und Nebel (Noite e Neblina), ou N N, era a forma como os soldados da SSSchutzstaffel (Esquadrão de Proteção), a polícia particular do partido nazista, que mais tarde se tornou a força de guarda dos campos de concentração – chamavam os prisioneiros recém chegados aos campos de concentração, os quais desembarcavam dos trens à noite, sob fumaça, vapor e neblina.

Impacto das imagens

O cineasta Alain Resnais (falecido em 1º de março deste ano) realizou Noite e Neblina a pedido do Comitê da História da Segunda Guerra Mundial, no contexto das efemérides de 10 anos do final dos conflitos. Conforme lembra Marcus Mello, o filme é considerado a primeira obra cinematográfica produzida para tratar da temática do holocausto. Assim, provocou grande impacto pela qualidade e virtudes enquanto obra cinematográfica, mas também porque suas imagens foram as primeiras a serem assistidas sobre os horrores dos campos de extermínio – antes da obra, o acesso a estas imagens restringia-se às fotografias publicadas em jornais e revistas e às filmagens dos cinejornais. O filme chegou a ser usado como prova em tribunais de julgamento de oficiais nazistas.

 

Na obra, Resnais mescla imagens coloridas atuais (em 1955) dos campos de concentração com imagens de arquivo em branco-e-preto do cotidiano dos prisioneiros, dos corpos dos mortos empurrados por tratores, de guilhotinas coletivas e cabeças depositadas em cestos, de pessoas transformadas em pele e ossos.

O belo texto de Jean Cayrol - poético por vezes, irônico em outras, mas sempre sóbrio e crítico - une as bucólicas cenas coloridas das paisagens de muito verde com imagens dos prédios vazios dos campos de concentração, de estradas e linhas férreas e de cercas de tela e arame farpado, com as cenas em preto-e-branco dos horrores do extermínio.

Produtividade

A narrativa do filme esboça um estudo sociológico dos campos de concentração. Demonstra categorias de prisioneiros com pequenas "regalias" adquiridas conforme sua utilidade para o funcionamento dos campos, entre as quais a maior era a de continuar vivo.

No topo desta sociedade miserável estavam os kapos, prisioneiros judeus com físico mais forte que aceitavam servir ao regime nazista, recebiam um pequeno quarto individual, atuavam como monitores dentro dos alojamentos e tinham entre suas responsabilidades a de contar e separar os mortos diários.

O texto de Cayrol lembra que os campos de concentração eram concebidos para “exterminar com produtividade” e que tudo era reaproveitado: os cabelos dos mortos viravam tecidos, enquanto os ossos eram utilizados como fertilizantes.

Colaboração

Marcus Mello afirma que Noite e Neblina foi concebido inicialmente para ser exibido em escolas, universidades, sindicatos e cineclubes. Tinha objetivos educativos, portanto, e não comerciais. Ainda assim, recebeu muitas críticas pelo uso de imagens terríveis. De acordo com o crítico de cinema, a obra, que era uma produção francesa, chegou a ter algumas imagens censuradas por exigência do governo daquele país – não pelo aspecto ético, mas político: imagens de oficiais franceses colaborando com o nazismo e conduzindo prisioneiros judeus aos campos de extermínio foram eliminadas.

Filme-ensaio

 

Noite e Neblina é visto como um filme-ensaio. Antes propriamente de narrar uma história, ele conta uma tese, a de que este episódio da história humana não está em um passado remoto.

Este monstro permanece atual, convivendo conosco, e pode voltar. É preciso que estejamos atentos”, enfatiza Marcus Mello.

Ele cita a existência de campos de concentração nos dias atuais na Coréia do Norte e o massacre de milhares de pessoas a partir da década de 1970, quando o Timor-Leste foi invadido pela Indonésia, como dois exemplos da repetição de atos de barbárie na história humana. A lista é grande, mas não se pode deixar de citar também os genocídios cometidos contra os africanos durante a escravidão e contra os índios na colonização das Américas.

(Por Luciano Gallas)

Quem é Marcus Mello

Marcus Mello é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Rio Grande do Sul - UFRGS. Crítico de cinema, é editor da revista Teorema e colaborador das revistas Aplauso e Cinética. Em 2000, assumiu a função de programador da Sala P. F. Gastal, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, primeiro cinema municipal de Porto Alegre, mantido pela Secretaria Municipal da Cultura.

Veja também:

 

A obra foi realizada pelo cineasta Alain Resnais (falecido em 1º de março deste ano) a pedido do Comitê da História da Segunda Guerra Mundial, no contexto da efeméride de 10 anos do final dos conflitos. Conforme lembra Marcus Mello, o filme é considerado a primeira obra cinematográfica produzida para tratar da temática do holocausto. Assim, provocou grande impacto, pela qualidade enquanto obra cinematográfica mas também porque suas imagens foram as primeiras a serem assistidas sobre os horrores dos campos de extermínio – antes da obra, as imagens exibidas restringiam-se às fotografias publicadas em jornais e revistas e às filmagens dos cinejornais. O filme chegou a ser usado como prova no julgamento de oficiais nazistas.

 

Na obra, Resnais mescla imagens coloridas então atuais dos campos de concentração (o filme é de 1955) com imagens de arquivo em branco-e-preto dos prisioneiros ainda vivos, dos corpos dos mortos empurrados por tratores, de guilhotinas coletivas e cabeças depositadas em cestos, de pessoas transformadas em pele e ossos. O belo texto de Jean Cayrol, poético, sóbrio e crítico, une as cenas coloridas bucólicas, das construções então vazias, de paisagens de muito verde, estradas, linhas férreas e cercas de tela e arame farpado, com as cenas em PB dos horrores do extermínio.

 

A narrativa esboça um estudo sociológico dos campos de concentração. Demonstra categorias de prisioneiros, que ocupavam determinadas camadas sociais com pequeníssimos direitos, entre os quais o de receber um pequeno pedaço de pão junto com o prato de sopa a que faziam jus diariamente, conforme a sua utilidade nos campos – para realizar pequenos consertos, por exemplo. No topo desta sociedade miserável estavam os chamados kapos, prisioneiros judeus mais fortes que aceitavam servir ao regime nazista, recebiam um pequeno quarto individual, atuavam como carcereiros e tinham entre suas responsabilidades as de contar e separar os mortos diários. O texto de Cayrol lembra que os campos de concentração eram concebidos para “exterminar com produtividade”.

 

Marcus Mello ressalta que Noite e Neblina foi concebido inicialmente para ser exibido em escolas, universidades, sindicatos, cineclubes. Tinha objetivos educativos, portanto, e não comerciais. Ainda assim, recebeu muitas críticas pelo uso de imagens terríveis. De acordo com o cineasta, a obra, de produção francesa, chegou a ter algumas imagens censuradas por exigência do governo francês – não pelo aspecto ético, mas político: imagens de oficiais franceses colaborando com o nazismo e conduzindo prisioneiros judeus aos campos de extermínio foram eliminadas da versão final. A colaboração francesa com o nazismo alcançaria também a população daquele país, que denunciava a localização famílias judias para serem presas.

 

“Noite e Neblina é visto como um filme-ensaio. Antes propriamente de narrar uma história, ele conta uma tese, a de que este episódio da história humana não está em um passado remoto. Este monstro permanece atual, convivendo conosco, e pode voltar. É preciso estarmos atentos”, enfatiza Marcus Mello. Para exemplificar, ele cita as informações da existência de campos de concentração nos dias atuais na Coréia do Norte e o massacre de milhares de timorenses entre as décadas de 1970 e 1990, quando Timor-Leste foi invadido e ocupado pela Indonésia.

 

Quem é Marcus Mello

Marcus Mello é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Rio Grande do Sul - UFRGS. Crítico de cinema, é editor da revista Teorema e colaborador das revistas Aplauso e Cinética. Em 2000, assumiu a função de programador da Sala P. F. Gastal, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, primeiro cinema municipal de Porto Alegre, mantido pela Secretaria Municipal da Cultura.

 

Leia mais:

- Noite e nevoeiro: “Um alerta para as futuras gerações”. Entrevista com Marcus Mello publicada no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em 25-03-2014, disponível em http://bit.ly/OQFGzW

 

- O Decálogo de Kieślowski e o debate sobre os Mandamentos. Entrevista com Marcus Mello publicada na edição 321 da IHU On-Line, de 15-03-2010, disponível em http://bit.ly/1dNtrKf

 

- “O que engendra a violência é a pobreza absoluta verificada nas periferias brasileiras”. Entrevista com Marcus Mello publicada na edição 250 da IHU On-Line, de 10-03-2008, disponível em http://bit.ly/1dvqZxw

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