Papa Francisco com Cristina Kirchner. “Que a região se mantenha unida”

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Por: André | 19 Março 2014

Cristina Fernández de Kirchner (CFK) visitou Jorge Bergoglio por ocasião do seu primeiro ano de pontificado. Disse que compartilharam inquietudes sobre o emprego juvenil e mencionaram a insegurança, mas não analisaram esses temas pelo viés da repressão, mas da inserção.

 
Fonte: http://bit.ly/1nDdIHo  

A reportagem é de Fernando Cibeira e publicada no jornal argentino Página/12, 18-03-2014. A tradução é de André Langer.

Os vaticanólogos cronometraram o tempo de almoço desta segunda-feira entre Cristina Kirchner e o Papa Francisco, que durou 2h40, e assinalaram que durou inclusive mais tempo do que o do ano passado, que aconteceu quase no mesmo dia e no mesmo lugar. “Isso não é algo que Bergoglio passe por alto”, analisavam. O sinal, então, era que tudo andava muito bem, melhor inclusive que antes. Ou do que nunca. “Foi um encontro muito caloroso e muito especial”, disse a Presidenta, que foi ao encontro com uma bota ortopédica na perna esquerda devido a uma torção que sofreu enquanto caminhava no quarto do hotel.

Cristina Kirchner colocou o acento do encontro em algumas preocupações comuns, como o emprego juvenil e a questão da insegurança, mas não vista sob a ótica da repressão, mas da inclusão, das injustiças promovidas pelo capitalismo financeiro moderno. “Alguns daqueles que vêm para visitá-lo deveriam ler a Evangelii Gaudium”, referiu a Presidenta que o disse a Francisco quando recebeu como presente um exemplar encadernado da última encíclica papal onde, justamente, um dos pontos trata da inclusão social dos pobres. Outra mensagem de Francisco foi aos presidentes da região: “O Papa tem como objetivo fundamental, além dos matizes, que a região se mantenha unida e solidária”, comentou FCK.

A Presidenta chegou com seis minutos de atraso. Esperava-a na porta da residência Santa Marta o secretário pessoal tanto deste papa como do anterior, o alemão Georg Gänswein, a quem a imprensa internacional batizou de “George Clooney do Vaticano”. Além de fotogênico, também tem bom humor quando se tem em conta as brincadeiras que dirigiu aos jornalistas para matizar a espera, não muito, mas suficiente para os estritos protocolos pontifícios. “Tivemos um inconveniente”, avisou-lhe Cristina Kirchner quando Gänswein abriu-lhe a porta do carro e exibiu sua bota ortopédica, preta como o resto da sua roupa incluindo o guarda-chuva, seguindo a etiqueta nestes casos. O Papa a esperava na porta, alguns passos atrás dos imperturbáveis guardas suíços: “Como vai? Bem?”, ela o saudou. Francisco fez algum comentário portenho sobre a “perna ruim” de CFK.

Depois passaram às saudações das comitivas. O chanceler Héctor Timerman; o secretário de Culto, Guillermo Oliveri; o secretário de Comunicação Pública, Alfredo Scoccimarro, e o embaixador argentino junto à Santa Sé, Juan Pablo Cafiero, pelo lado argentino. O secretário de Estado, Pietro Parolin, junto com outras autoridades do Vaticano acompanharam Francisco. Para a tradicional troca de presentes, a Presidenta levou um livro com textos e imagens do Bicentenário, outro sobre as modificações na Casa Rosada, uma imagem dela com o padre “vileiro” Pepe – amigo de Bergoglio – e um quadro de Santa Rosa de Lima, com a particularidade de ter sido pintado com vinho malbec. Explicou ao Papa que depois do processo de oxidação, que demora cerca de cinco anos, o quadro ficará com a cor autêntica do vinho. “É um presente autenticamente argentino”, arredondou a Presidenta, que também lhe entregou uma garrafa térmica com as cores pátrias. Francisco presenteou-lhe uma imagem de San Martín feita em bronze e entregou rosários a todos os presentes. Resolvidas as questões formais, o Papa e a Presidenta passaram para o refeitório para o almoço, que foi a sós.

A Presidenta fez uma síntese da reunião em uma sala do aeroporto militar de Ciampino, onde já esperava por ela o Tango 01 rumo a Paris. Ali contou que analisaram a questão da juventude e do emprego, ou da falta dele. “É um tema que preocupa e desperta a atenção” do Papa, comentou Cristina Kirchner. “Eu lhe falei sobre quando lançamos o Plano Progredir na Argentina, que apesar de ter tido no último trimestre de 2013 o menor índice de desemprego de toda a série de décadas, de 6,4, quando íamos ao grupo por idade, tínhamos no grupo de 18 a 24 anos um desemprego de 18 pontos, quando a média europeia é de 22%. Foi isso que nos motivou para lançar o Plano Progredir. Quando comento isso com ele, começa a me dar números incríveis de algumas regiões da Europa, enquanto o desemprego juvenil, exclusão e tudo o que isto gera em matéria de violência também”, acrescentou.

CFK disse que lhe adiantou que dentro de alguns dias inaugurariam, na Rua Nove de Julho, uma imagem do padre Carlos Mujica em homenagem aos padres “vileiros” (“Ele fez um trabalho fenomenal com os padres ‘vileiros’”, disse sobre Francisco) e contou-lhe sobre a missa na Vila Barracas em memória de Hugo Chávez. Mas, diante da pergunta, descartou que durante o almoço tenham falado da situação da Venezuela ou de qualquer país em particular. “Falou-se em geral da necessidade de que toda a região se mantenha unida. O Papa tem como objetivo fundamental que, independentemente dos diferentes matizes dos governos, a região se mantenha unida, solidária e mantendo o diálogo entre todos nós. Isto não foi somente o que nos pediu, mas que é o seu desejo. ‘Vocês têm que estar juntos, unidos, não separar-se, dialogar constantemente’, referindo-se obviamente aos governos da América do Sul. Isto foi uma apelação constante que o preocupa, me transmitiu isso e o digo publicamente, porque lhe pedi autorização para poder fazê-lo”, descreveu.

No almoço teve verduras – “que são espetaculares porque são bem frescas e ricas, com óleo de oliva e sal”, descreveu –, costela de carne com verduras ao vapor; como sobremesa, frutas, e a Presidenta comentou que o convidou para um mate. Em comparação com a visita do ano passado, justo no dia anterior à cerimônia de posse, Cristina Kirchner comentou que o via igualmente bem, “seguramente com um maior grau de organização”. “Tomou decisões, são públicas e notórias as mudanças que fez entre seus colaboradores, assim que isto também seguramente lhe dá maior prumo, maior tranquilidade, maior organização. Encontrei-o muito bem, muito tranquilo, muito seguro; na verdade, encontrei-o muito bem”, remarcou.

A Presidenta falou inclusive da utilização de uma “linguagem comum” para descrever determinados temas sociais. Foi quando lhe perguntaram sobre a preocupação da Igreja com o narcotráfico. “Quando ele fala da insegurança, menciona fundamentalmente o tema da exclusão. Por isso digo que muitos deveriam não somente vir para tirar uma foto, ou para visitá-lo, mas lê-lo. Ele menciona que a exclusão, sobretudo dos jovens, é um dos principais motivos da insegurança, e o que chama a sua atenção também é a não estigmatização dos jovens diante destes fatos”, disse. E concluiu: “Por isso, insiste no tema da economia, por isso também insiste no tema do capitalismo financeiro como uma das causas da economia de exclusão, e que isto deve ser revertido. Falamos em uma linguagem que vocês terão escutado também de mim às vezes, uma linguagem comum”.

Francisco parecia mais um pai do que um papa quando a acompanhou até a porta e, com cara de preocupado, viu-a rengueando até o carro. Permaneceu nessa posição até que o carro arrancou e somente então mudou a expressão, distribuiu algumas saudações e voltou a perder-se na residência Santa Marta, sua casa há exatamente um ano.

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