O papa Francisco mudou a atmosfera da Igreja, afirma Walter Kasper

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Por: Caroline | 19 Março 2014

O cardeal alemão Walter Kasper (foto) é o teólogo de referência para o papa Francisco. Jorge Mario Bergoglio o reconheceu desde seu início: em seu primeiro Ângelus como bispo de Roma, recomendou seu livro “A misericórdia: Chave do Evangelho e da vida cristã” e disse que havia feito “muito bem” a sua leitura.

A entrevista é de Darío Menor, publicada por El Tiempo, 16-03-2014. A tradução é do Cepat.

Fonte: http://goo.gl/7bE1gW

No consistório de fevereiro do ano passado, o Sumo Pontífice, solicitou ao cardeal Kasper que realizasse o discurso inicial sobre a situação da pastoral familiar, que abriu o acalorado debate dos cardeais sobre este tema. Logo aplaudiu a “profundidade e serenidade” de seu trabalho, que considerou uma “teologia de joelhos”.

Presidente emérito do Conselho Pontífice para a Unidade dos Cristãos, o “ministério” vaticano que se encarrega da relação com as outras Igrejas, o cardeal alemão se destacou por sua mão estendida aos divorciados que voltaram a se casar. “Deus sempre dá uma segunda oportunidade aqueles que se convertem”, assegurou em entrevista ao jornal El Tiempo, reconhecendo que a continuidade do problema reside na maneira como a Igreja pode realizar essa misericórdia sem por em questão a doutrina. “Falta sabedoria e discernimento. Não há um a receita simples para isso”, assegurou.

Eis a entrevista.

Qual é a maior contribuição feita por Jorge Bergoglio para a Igreja católica em seu primeiro ano de pontificado?

Sua maior contribuição é a mensagem de esperança, que mudou a atmosfera na Igreja. Por todos os lados encontramos um novo entusiasmo e uma alegria renovada por ser cristão. Estamos no início de uma renovação, que atrai muitas outras pessoas que haviam se distanciado da Igreja e que não se consideravam mais cristãs. Talvez, além disso, como esperamos, irá haver um novo espírito missionário.

Em seu encontro com os jornalistas, poucos dias após sua eleição como bispo de Roma, Francisco disse que queria uma Igreja “pobre e para os pobres”. Como pode este desejo ser realizado de forma prática?

O papa sabe que a Igreja necessita de meios materiais para cumprir com sua missão. Entretanto, para isso necessita de tais meios. Por isso o papa critica uma espiritualidade mundana e propõe uma vida simples, assim como a renúncia a pompa barroca. A riqueza da Igreja e de todos os cristãos está no amor de Deus, isto é, na participação e na misericórdia com quem está mal e tem problemas. Desta maneira, a pobreza e a misericórdia caminham juntas.

A Igreja deveria dar uma segunda oportunidade aos divorciados que voltaram a se casar? Como seria isto?

A primeira tarefa da Igreja, e sua missão, é ajudar para que alcance a felicidade no matrimônio e que este seja indissolúvel. Entretanto, Deus sempre dá uma segunda oportunidade a quem se converte, sua misericórdia não termina nunca para que a peça. Como a Igreja pode realizar esta misericórdia, requer sabedoria e discernimento. Não há uma receita simples para isso. Deve-se discernir frente às diferentes situações sem por em questão a doutrina da indissolubilidade do matrimônio. Espero que o futuro sínodo possa oferecer os meios e critérios pastorais.

Como deveria, a seu ver, mudar o papel da mulher na Igreja católica através das próximas assembléias sinodais?

Em primeiro lugar, deseja-se redescobrir o carisma, ou seja, a natureza feminina e a dignidade da mulher, que não permite nenhum tipo de discriminação. A questão fundamental do seu papel, está nesta segunda linha. Nos próximos Sínodos será importante, e também enriquecedor, escutar atentamente ao testemunho de mulheres, que cumprem uma missão importantíssima na família, no diaconato e na própria missão da Igreja.

Como descreveria o perfil teológico do pontífice?

O papa Francisco é, em um sentido confessional, um papa evangélico, isto é, um papa que anuncia e que vive o Evangelho, a Boa Nova de Jesus. Jesus veio para evangelizar aos pobres e ele mesmo se tornou um pobre para converter a nós, em ricos.  Por isso, a mensagem do papa Francisco de uma Igreja “pobre e para os pobres” corresponde ao Evangelho de Jesus e, ao mesmo tempo, as necessidades de nosso tempo.

O fato de que este Papa vive o que prega, lhe da uma autenticidade e credibilidade pessoal, que toca o coração das pessoas. Sua teologia é uma teologia do povo que segue o Concílio Vaticano II e a teologia particular da Argentina.

Durante sua estadia no Rio de Janeiro, devido a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), celebrada no último mês de julho, o pontífice manteve um encontro com jovens argentinos, a quem disse que bastava que lessem Bem-aventuranças e Mateus 25. Isto significa que os outros textos teológicos são secundários ou não são necessários?

Tirar essa conclusão é um contrassenso. As Bem-aventuranças e os critérios para o Juízo Final em Mateus 25 são, de certa maneira, o resumo da mensagem de Jesus, o que não retira nem exclui os outros textos, mas que nos ajuda a compreendê-los e a realizá-los. Já Mateus colocou as Bem-aventuranças de maneira pragmática ao início do Sermão da Montanha.