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18 Março 2014

Quando não há mais ideias, é preciso um milagre, e quem melhor do que Cristo? Um famoso empresário de Hollywood comenta assim o retorno às telas norte-americanas de produções de fundo religioso. E o milagre chega também desta vez, o último da série, O Filho de Deus, e enche as bilheterias norte-americanas com mais de 26 milhões de dólares no primeiro fim de semana e um ritmo constante que o leva a tocar os 50 milhões.

A reportagem é de Massimo Vincenzi, publicada no jornal La Repubblica, 16-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O filme vem de uma marca de origem controlada, a série de TV The Bible tornou-se um culto no ano passado no History Channel, com picos de mais 11 milhões de espectadores, impensáveis até então para esse canal. Um sucesso tão marcante a ponto de convencer os produtores a levá-lo para a tela grande, e, embora haja pouco ou nada de novo para ver, o público corre para lotar os cinemas.

Jornais e televisões cobrem o evento dedicando primeiras páginas e horas de aprofundamentos no horário nobre. Jesus oferece, dentre outras coisas, a garantia de não passar despercebido: nos últimos meses, houve a confirmação de uma novidade absoluta, com a chegada de filmes, séries de TV e livros dedicados ao Filho de Deus. Diferentes entre si, de grandes produções às aventuras quase amadoras, de escritores consagrados como o nobel Coetzee a autores em busca de fama, cada um com o seu estilo, cada um com a sua ideia, mas unidos pela vontade de contar "a história mais fascinante do mundo".

Hollywood tinha entendido isso com antecedência, nos anos gloriosos entre 1950 e 1960, com os "enlatados" bíblicos. Depois, estourou o tempo da transgressão com o musical Jesus Christ Superstar e agora chega a consagração popular.

"Há um desejo de religião", juram os especialistas de fé declarada, nos debates. Na realidade, há um desejo de "um Messias que caminhe no meio de nós", como canta na abertura dos seus shows o rapper Kanye West, arrancando gritos de alegria do público.

"É óbvio que isso aconteça: Cristo é a figura mais importante dos últimos 2.000 anos, está na base da civilização ocidental: interessa a todos", explica o professor de história das religiões Reza Aslan e autor de um best-seller, O zelota, que acendeu mais do que um debate: "Eu acho que são discussões inúteis. O que é preciso é o respeito pelas opiniões alheias, mas não se pode imaginar que ninguém fale a respeito. Como estudioso, tentei dividir o mito da realidade. Os diretores e os escritores de romances, ao invés, desdobram a história segundo as suas sensibilidades".

Mas as polêmicas chegam pontualmente. Dez anos atrás, coube a Mel Gibson e à sua Paixão de Cristo, que ainda detém o recorde de dólares ganhos com um filme religioso norte-americano: 600 milhões. Receitas que cresceram proporcionalmente com os venenos: "É um horror", "Não, finalmente coloca em cena o verdadeiro sofrimento de Nosso Senhor", impossível contentar a todos. Agora, o roteiro é replicado com O Filho de Deus.

Os produtores, marido e mulher, Mark Burnett e Roma Downey, são crentes, e a sua mensagem é de evangelização: "Somos cristãos e estamos felizes por difundir a nossa fé a Hollywood. O nosso filme é uma história de sentimentos, e queremos compartilhar com o resto do mundo o amor de Jesus pelos outros". Quem os apoia são alguns importantes líderes religiosos, como o pastor Rick Warren, que comprou milhares de ingressos e organizou exibições para os seus fiéis.

Mas nem todos pensam assim. Na mira está o protagonista, o português Diogo Morgado, que, segundo a acusação, "é um cruzamento entre Brad Pitt e Bradley Cooper, parece um modelo e se movimenta de maneira muito sexy". E a escritora ultracatólica Jennifer Roback Morse acrescenta outro tema: "O filme não é inerente às Escrituras. Isso acontece todas as vezes: os diretores, que também têm entre as mãos o mais belo roteiro de todos os tempos, se divertem ao mudá-lo. Pensam que podem fazê-lo porque consideram Jesus um personagem fictício, uma figura pop a ser reinventada de acordo com as exigências da cena".

Desta vez, a variação sobre o tema é menos evidente do que em outros casos: "É uma versão de A Paixão de Cristo limpa, menos sombria e menos violenta", escreve o New York Times para enfatizar a proximidade aos textos bíblicos. Este Filho de Deus é menos hippie, menos roqueiro do que o visto em outras produções: apesar da forte compleição física, ostenta olhares dolorosos, cheios de espiritualidade.

As polêmicas produzem clones. Há um diretor e produtor, John David Ware, que usa um time de amadores e de jovens aprendizes para produzir repetidamente curtas sobre a vida do Messias, que depois ele distribui para igrejas e círculos religiosos norte-americanos: é uma invasão que repercute cenas de entusiasmo. Agora, chega também Russell Crowe com o seu Noé, e no Twitter o ator não resiste à tentação: "Santo Padre, vá ver o meu filme, ele tem uma mensagem forte".

A produção literária também sofre uma nova aceleração. Menos de um ano atrás, quem subiu as listas de todo o mundo foi John Niven, promissora estrela da escrita anglo-saxônica, com o seu The Second Coming, que choca os crentes mais ortodoxos, imaginando um estranho Messias que, a fim de salvar uma humanidade já perdida, chega até a participar de um show de talentos do tipo X Factor.

Um livro divertido, que lembra, em alguns trechos, as Cartas da Terra, de Mark Twain, um dos primeiros exemplos de humorismo aplicado a Cristo. O recorde de irreverência é de Andrew Masterson, que, em dois romances noir, imagina que nos nossos tempos Jesus é um maltrapilho detetive particular e traficante de drogas que se mistura com os abandonados da sociedade para tentar, se não resgatá-los, ao menos para enviá-los para o reino dos céus com um sorriso nos lábios. Em ambos os casos, os leitores gostam, e na Austrália a série se tornou uma série de televisão.

Menos pop e mais visionário é o relato de J. M. Coetzee, que, embora à sua maneira, não resiste à tentação de se exercer sobre o tema e, assim, no seu A infância de Jesus, o imagina como criança em um mundo pós-apocalíptico: "Porque só os menores ainda têm a força para ser visionários".

Tóibín Colm, com O evangelho segundo Maria, imagina um monólogo da Virgem já envelhecida e entristecida. O breve texto também acabou na Broadway, na verdade com pouco sucesso, e tornou-se então, com maior reconhecimento de vendas, um DVD lido por Meryl Streep.

Na Itália, preanuncia-se como um triunfo a chegada de uma nova edição de Jesus Christ Superstar: no palco, além de Pau, vocalista da banda Negrita, e Shel Shapiro, estará o Jesus original do primeiro musical: Ted Neeley, que confirmou em uma entrevista: "Certamente, esse papel condicionou a minha carreira. Mas é o papel mais bonito que pode acontecer na vida de um ator e de um homem".

Porque, quando não há ideias e dinheiro suficientes, é preciso um milagre, e ninguém é mais competente do que o Filho de Deus e, acima de tudo, como o pastor Rick Warren quase grita no fim de um debate de TV na CNN, "a mensagem dos Evangelhos é eterno e merece ser ouvido pelo maior número de pessoas possíveis: é só isso que importa. O resto é bobagem".

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