Tempo de Roma, tempo de consenso

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Por: Jonas | 14 Março 2014

Após um ano no Vaticano, o papa Francisco conseguiu gerar uma expectativa de mudança no seio da Igreja. Mostrou-se um pastor carismático e pôde tecer consensos que lhe permitiram oxigenar as várias frentes de tormenta que estavam sobre Roma.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 13-03-2014. A tradução é do Cepat.

Tempo de Roma. Tempo de consenso. Do majestoso terraço do Grand Hotel de La Minerve, a cúpula do Vaticano emerge envolta na cor ocre do entardecer. Em janeiro de 1846, quando esteve hospedado neste hotel, o general José de San Martín contemplou muitas vezes esta mesma luz mágica que, a partir de certa hora, cobre a cidade como um caramelo. Doce tempo de paz. O papa Francisco governa sobre um estranho consenso. Nem a esquerda, nem a direita, nem no seio das congregações, que até alguns meses atrás batalhavam e se conjuravam sem piedade no coração secreto da Santa Sé, não se escuta qualquer voz discordante. “Chegou o papa do povo e, desde então, as vozes discordantes se calaram. Continuam aí, mas entenderam a mensagem”, diz com certa ironia um dos vaticanistas mais importantes, Marco Politti.

Andrés Beltramo, um agudo vaticanista argentino autor de um ensaio sobre o papa Francisco, recorda: “É evidente que desde o início de seu pontificado este Papa causou preocupação. É óbvio que há e haverá inimigos e críticas. Na direita, na esquerda eclesiástica, no mundo das finanças. Porém, o povo o ama, e essa é sua força, isso é o que lhe permitirá realizar seu trabalho até o fim”. Tanto silêncio e tantas caracterizações resultam em uma grande estranheza. “Papa do povo”, “papa do fim do mundo”, “papa do novo mundo”. Francisco coleciona as caracterizações e oscila entre o “fim” e o “novo mundo”. O ex-arcebispo de Bruxelas, Godfried Danneels, participou dos dois últimos conclaves, o que elegeu Ratzinger e, depois, Bergoglio. Quando pronuncia o nome de Francisco seus olhos se iluminam. “O que ele quer é fazer com que a Igreja suba muitos degraus para a santidade. Essa é sua meta final”, disse Danneels.

No entanto, sua chegada à cadeira de Pedro foi precedida por uma das mais brutais guerras internas que já ocorreu no Vaticano. Todo o desarranjo herdado dos anos obscuros do papado de João Paulo II recaiu sobre Bento XVI. Conservador em sua visão de Igreja, mas progressista em sua ação interna, o alemão procurou mudar o rumo de uma Igreja atolada na corrupção, nos abusos sexuais e um sem-fim de sutilezas de escassa ética. Ainda que a esquerda o aborreça, a história o favorece: foi o primeiro a falar de uma limpeza do banco vaticano e foi ele também quem empunhou e executou as primeiras sanções contra os Legionários de Cristo, a congregação mexicana fundada em 1941 pelo padre Marcial Maciel, corrupta, violadora de mulheres e crianças e, no entanto, promovida a categoria celestial por João Paulo II. Os Legionários de Cristo foram, inicialmente, a ponte latino-americana a partir da qual João Paulo II começou a varrer os representantes da Teologia da Libertação.

Ao papa polaco pouco importou a imundície na qual se banhavam os Legionários de Cristo. Sua visão política da Igreja, seu ódio ao comunismo e à esquerda o levaram a compactuar com os demônios que encontrava no caminho, sejam os Legionários, Videla ou Pinochet. Joseph Ratzinger tentou modificar o rumo, mas renunciou em fevereiro de 2013, destruído pelas lutas intestinas, acurralado pelos abutres com batina que não aceitavam as reformas morais mais básicas, entre elas as do banco do Vaticano, o IOR (Instituto para as Obras de Religião). Ingravescentem aetatem. A frase em latim com a qual Bento XVI se despediu de seu papado ainda ressoa naqueles que estiveram presentes no consistório que o papa reuniu para anunciar sua decisão. O cardeal Paul Poupard ainda abre os olhos com incredulidade quando relembra esse momento.

O conclave ocorrido abriu as portas para Jorge Bergoglio. Godfried Danneels conta que o conclave, de março de 2013, “foi uma assembleia muito séria e muito cordial. Todos nós tínhamos consciência de que o futuro da Igreja estava em nossas mãos, de que urgia uma reforma muito séria”. Dessa peleja entre passados turvos e presentes incertos, surgiu Francisco. Na mesma noite de sua eleição, diante de uma Praça São Pedro ainda fria, Francisco reformou o papado e conquistou o amor das pessoas com alguns gestos e um punhado de palavras. Foi até a sacada sem as vestimentas luxuosas, pronunciou uma palavra proibida durante 35 anos, “povo”, e, em seguida, ao invés de abençoá-lo, pediu ao povo que o abençoasse. “No curso de um ano, aconteceram mais coisas do que no último quarto de século”, comenta outro vaticanista de prestígio, Andrea Tornielli, um dos poucos que pôde entrevistar o Papa (tem um catálogo impressionante de biografias papais escritas por ele, entre elas uma sobre Bergoglio).

A Igreja Universal reatualizada por Bergoglio confirma a todo mundo. Nem uma palavra crítica no Opus Dei. A comunhão se impõe, no momento, a tudo. No entanto, o atrito se intui em muitas posturas, sobretudo no desconforto dessa Cúria Romana habituada a todos os excessos e ébria de sua missão romana. Entretanto, a Igreja deixou de ser romana. O próprio Federico Lombardi aponta: “O fato de ter um papa que não é europeu abre a perspectiva de um horizonte universal”. Andrea Tornielli pensa que isto “é um grande desafio para as igrejas velhas e pesadas da Europa”. Christophe Dickes, historiador e especialista do catolicismo contemporâneo, não dissimula as asperezas. “Há – diz Dickes – uma diferença significativa entre a Igreja de tradição romana, europeia, que Ratzinger encarnava, e a de Francisco. Bergoglio já escreveu que não quer uma Igreja de tradição grega e romana. E isto já é uma oposição dentro do Vaticano”.

Além das formas e as palavras, a grande novidade foi a exportação de uma origem social para o coração de Roma, ou seja, o famoso princípio de “uma Igreja pobre para os pobres”. Lombardi sustenta que a forma como o Papa “apresenta a temática da pobreza é, efetivamente, uma perspectiva mais comum a América Latina do que a Europa”. O padre Antoine Sondag, diretor da Missão Universal, destaca que “a Igreja dos pobres é uma opção na Europa, mas na América Latina não, pois lá os católicos são pobres”. As vozes mais críticas devem ser buscadas entre os tradicionalistas de dom Lefebvre. Neste setor, a bandeira branca não é de uso comum, muito pelo contrário. Para os tradicionalistas, o papa Bento XVI era o Sumo Pontífice sonhado, Bergoglio não. A exortação apostólica publicada pelo papa Francisco, a Evangelii Gaudium, deixou-lhes muito nervosos.

O padre Guillaume de Tanoüarn abre com certa irritação as páginas da Evangelii Gaudium e se detém no parágrafo 95, 96. Ali, Bergoglio escreve: “Em alguns há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no Povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história. Assim, a vida da Igreja transforma-se em uma peça de museu ou em uma posição para poucos”. O padre Guillaume de Tanoüarn considera isto “um ataque”. E, embora assegure que não é “hostil ao papa Francisco”, adverte: “Se o papa Francisco irá se apoiar na velha guarda do antigo progressismo europeu, iremos a um fracasso estrondoso”. Por via das dúvidas, esse líder tradicionalista avisa: “Os tradicionalistas possuem uma força terrível na Igreja de hoje”. Os conservadores continuam ali, entocados e à espera do melhor momento.

O padre Antoine Sondag observa que “esses grupos de pressão ainda existem, mas não possuem uma maneira democrática de atuar, nem o apoio da opinião pública. Trabalham nas sombras. O imaginário dos grupos da direita da Igreja não é um imaginário democrático”. Aos conservadores norte-americanos ocorreu acusar Bergoglio de “marxista”. Um delírio na contramão, que causa riso em Giacomo Galeazzi, um dos vaticanistas mais sérios da Itália, autor de um destacável livro de investigação sobre João Paulo II. “Marxista? – questiona-se, e responde -: Pelo contrário. A teologia de Francisco é uma Teologia da Libertação sem o marxismo. Francisco colocou a Cristo no lugar do marxismo. Logo, recuperou os princípios verdadeiros e justos da Teologia da Libertação como, por exemplo, a opção preferencial pelos pobres”.

Os exércitos das sombras, no momento atual, apertam seus lábios e escondem suas cruzes pontudas. A legitimidade popular que Francisco adquiriu os assusta. Em 365 dias, Francisco eliminou os confrontos entre cardeais, bancos internacionais e banqueiros e lançou uma ambiciosa reforma interna, cuja necessidade poucos escondem. O arcebispo Claudio Maria Celli, diretor do Conselho Pontifício de Comunicação Social da Santa Sé, reconhece sem rodeios: “Estivemos envolvidos em coisas delicadas. Acredito que o caminho que se empreendeu é um caminho justo”. Muito consenso, mas também dívidas. Com uma hipocrisia sem piedade, o Vaticano continua escondendo o tema dos abusos sexuais cometidos pelos seus representantes em todo o planeta. Sua responsabilidade é indiscutível. Essa dívida Francisco ainda não pagou abertamente.

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