Argentina. “Sem o apoio da Igreja, o golpe de 1976 não teria acontecido”

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Por: André | 12 Março 2014

“Olhem, estou convencido de que o golpe não teria acontecido se a Igreja não tivesse estado de acordo. Eles, em um acordo tático, disseram: ‘vocês façam o trabalho sujo e nós convalidamos’”, acusou, com certeza argumental, o teólogo Daniel García Carranza, diante do tribunal que julga os crimes de lesa humanidade cometidos em La Perla (Córdoba). García Carranza foi um dos seis religiosos sequestrados e torturados na madrugada de 03 de agosto de 1976: exatamente 24 horas antes do assassinato do bispo Enrique Angelelli em uma estrada, e a poucas semanas do homicídio dos padres palotinos em San Patricio.

 
Fonte: http://bit.ly/NYgE1n  

A reportagem é de Marta Platía e publicada no jornal argentino Página/12, 10-03-2014. A tradução é de André Langer.

Sendo assim, a hierarquia da Igreja católica argentina durante a última ditadura foi a principal acusada – junto com os 41 repressores liderados por Luciano Benjamín Menéndez – em uma das audiências mais intensas vividas neste julgamento. Testemunharam dois teólogos, Daniel García Carranza e Alejandro Dausá, e uma freira norte-americana, Joan McCarthy: a religiosa que com sua coragem e sua fuga quase cinematográfica impediu que os matassem.

“Nós estamos vivos, mas sabemos muito bem que poderíamos não estar aqui – disse o teólogo García Carranza. Se não fosse pela ‘Juanita’ (como chamam a Joan, que já está com 81 anos), nos teriam feito desaparecer como fizeram com tantos irmãos”. Veemente, García Carranza relatou que por esses dias ele, Dausá, Alfredo Velarde, José Luis Destéfanis, o chileno Humberto Pantoja Tapia e o superior do grupo, Santiago Martín Weeks (também norte-americano), “cursávamos teologia na Escola das Irmãs Claretianas, porque (da cúria local) nos pediram para que não estudássemos no Seminário Maior. A Igreja havia decidido que não éramos gratos porque havíamos feito a opção pelos pobres. Por essa razão, não nos deixaram estudar na sede da Arquidiocese”, o edifício palaciano onde residia o cardeal Raúl Primatesta.

“Os seis pensávamos que o modo de viver o Evangelho não estava na cúria arquidiocesana. Assim que nos disseram que fôssemos cada um para sua casa. Decidimos não fazê-lo. As pessoas com que nós trabalhávamos nas vilas desapareciam e morriam. Nós víamos isso acontecer quase que diariamente. Teria sido um ato de enorme covardia ir embora. Dar testemunho do Evangelho pedia de nós isso. Acusavam-nos de falar de justiça social, mas o Evangelho é justiça social”, detalhou expressivo o sobrevivente, diante do olhar de Menéndez que, desde dezembro, não escutava ninguém.

García Carranza relatou que os seis seminaristas foram viver em uma casa em um bairro operário. Todos eram saletinos, de origem norte-americana.

A Igreja cúmplice

Na noite de 03 de agosto de 1976, o jovem García Carranza chegou e deu de cara com a polícia. “Era perto da meia noite. Entrei e senti que alguém gritava para que me encostasse na parede. Pensei que era uma brincadeira de mau gosto, mas me deram coronhadas nas costas e me ordenaram que olhasse para o chão. Vendaram-me os olhos com uma camiseta enquanto gritavam como loucos. Eles diziam que eram da polícia, mas pareciam criminosos comuns. Jogaram roleta russa conosco. Batiam em nós. Destruíram tudo o que havia e roubaram tudo o que podiam levar”.

Na casa, além dos seminaristas que foram esperando até completar o grupo, estavam também “um velhinho espanhol muito doente e pobre que estávamos cuidando e uma irmã norte-americana que havia descido de Jujuy para nos visitar: Joan McCarthy”. Foi ela quem, enquanto esperava os seus colegas, abriu a porta aos repressores, que se identificaram como policiais. Joan presenciou tudo ao longo das quase seis horas que a polícia levou para sequestrar os seminaristas.

Com seu sotaque norte-americano e requintes de um fino senso de humor, Joan McCarthy contou ao Tribunal que “me dei conta do que estava acontecendo quando começaram a quebrar tudo. Disseram-me para que não me preocupasse, que não me fariam nada. Eu disse a eles ‘que alegria’ e fiz de conta que não estava entendendo nada. Me sentei ao lado da lareira, junto ao velhinho espanhol que estava me contando sobre a Segunda Guerra Mundial e comecei a tecer. Dei-me conta de que tinha que colocar toda a minha energia para escutar, ver e registrar”.

Joan contou que “enquanto destruíam tudo e batiam nos irmãos, andavam buscando evidências subversivas. E a única coisa que encontraram foi o livro de um autor de ultradiretia, López Trujillo, que dizia ‘Libertação cristã, libertação marxista’. Ficaram contentes. Depois um disco de Joan Baez, que cantava músicas de protesto, e um dos Beatles sobre Bangla (o concerto de George Harrison para Bangladesh). Também um disco boliviano sobre a Pátria Grande. Essas foram todas as evidências que encontraram”, riu. Mas seus lábios se apertaram pela dor quando recordou: “Antes de saírem desenharam uma suástica sobre uma foto de (Carlos) Mujica, e escreveram a palavra ‘kaput’ (morto)”.

García Carranza continuou seu relato: “Levaram-nos em vários carros à D2, em pleno centro histórico e a poucos passos da catedral. Aí, nos pátios, nas celas, bateram em nós. A coisa era horrorosa. Os gritos dos torturados. Mas, sabem o quê? Absolutamente todos os dias que estivemos aí veio alguém da Arquidiocese para ver se ainda estávamos vivos. Muito possivelmente era mons. (Pedro Eladio) Bordagaray. Esse homem viu tudo e não fez nada”, indignou-se a testemunha.

— Como sabe que era Bordagaray? – perguntou o juiz Jaime Díaz Gavier.

— Porque disseram na D2. E eu o conhecia bem: era meu padrinho de batismo. Meus pais pediram a ele para que fizesse alguma coisa por mim, mas não fez nada.

A testemunha chorou de dor e de raiva. Contou que depois de alguns dias, quando tiraram todos da D2, os repressores lhes disseram: “Bom, agora temos que levá-los para matar. Assim que se quiserem, aproveitem já e corram. Fujam. Quem quiser ir, que vá agora”. “Mas nós ficamos parados. Não fugimos. Sabíamos que era uma armadilha. Levaram-nos à UPI (prisão do Bairro San Martín). Eu a conhecia porque meu pai havia sido médico da prisão. Ali nos colocaram no pavilhão dos presos políticos. Eles nos avisaram que haviam matado o bispo Angelelli”.

O relato de García Carranza tornou-se vertiginoso: “Quando nos transferiam para a prisão de processados também nos levaram na porrada. Recordo que perto da minha cela estavam (o governador José Manuel) De la Sota e (o sindicalista) Chechela Pastorino. Que me deixaram, assim como meu companheiro, ir ao banheiro. Me deram um tarro de cinco litros. Pela manhã colocavam ali a água para tomar. À noite tinha que usá-la para o banho. Com o passar dos dias, houve mais uma desgraça: minha cela foi inundada com os excrementos que caíam do banheiro de cima. Eu estava sentado em cima de uma mesinha na manhã em que Menéndez passou por ali e me viu. Recordo-me de que um militar lhe disse que era preciso tirar-me dali, mudar-me de cela. Mas ele disse: ‘não, que aguente’. Um homem muito humanitário este Menéndez...”.

O tom do teólogo tornou-se grave: “Olhem, uma parte da hierarquia da Igreja foi cúmplice. Se eles não tivessem apoiado, esse golpe não teria acontecido. Mons. (Adolfo) Tortolo disse ao nosso provincial que não deixaram entrar uma Bíblia. Disse que nós não merecíamos por traição. Eles foram cúmplices. Os capelães foram cúmplices. Peço aos promotores para que sejam convocados a se apresentarem”, brincou.

García Carranza prosseguiu: “Levaram-nos a La Perla. Ali perdi a noção do tempo. Fui interrogado por um sujeito que se dizia João XXII (o repressor José Carlos González) e pelo (Roberto Mañay, apelidado de) ‘padre’ Magaldi. Este foi que me disse que não iriam me torturar porque se o fizessem seriam excomungados. Isso porque mons. (Victorio) Bonamín havia dito que era ‘inconcebível que no Colégio Militar a pena de morte fosse aceita e a tortura não, que é um mal menor. Os capelães vão ter que se colocar de acordo em relação a isto’. Eles estiveram de acordo. E nós tínhamos visões diferentes da Igreja. Assim que em um golpe de ultradireita, nós éramos considerados de esquerda. Fazer menção à Teologia da Libertação aos repressores era o mesmo que apresentar-lhes Lúcifer”.

A testemunha cobriu novamente o rosto com as mãos quando nomeou La Perla: “Isso não era uma antessala do inferno. Era o próprio inferno! Eu não sofri determinadas torturas, mas ainda recordo dos gritos dos torturados. Ainda hoje, com todos os anos que passaram, não posso entrar na minha casa com as luzes apagadas e evito sair sozinho. As marcas de tudo isso são incrivelmente profundas”.

Quando a querelante Adriana Gentile perguntou-lhe pela atuação de Primatesta, García Carranza voltou a se indignar: “Foi de terror. Quando nos libertaram graças à luta de Juanita e de outros companheiros, tivemos que passar para lhe agradecer. Uma cortesia antes do exílio. Recordo que quando estávamos entrando na cúria metropolitana apareceram atrás de nós vários policiais armados que apontaram as armas contra nós. Pensamos que iriam nos matar ali mesmo, mas Primatesta apareceu por trás deles e então os sujeitos cobriram suas pistolas com as gorras, mas continuaram a apontar para nós. Depois ficaram de lado e fomos à audiência”.

— E Primatesta soube disso? – perguntou alarmado o juiz Díaz Gavier.

— Sim. Isso é o mais asqueroso do assunto. Quando lhe contamos, ele disse: “Não há problema, vou dar um jeito nisso”. E se isso não é cumplicidade, o que é? Mais, a uma companheira, Ema Rins, que foi pedir sua proteção, Primatesta tirou listas da sua mesa e lhe disse: “Mas, você não está nestas listas”. Ele as tinha!

Um banho de sangue

Por sua vez, Alejandro Dausá, também teólogo e companheiro de cativeiro de García Carranza, recordou horrorizado: “A loucura, as armas na cabeça, na boca” durante o sequestro, os golpes e os tormentos na D2 e, em particular, “os gritos de uma mulher que rogava que por favor parassem de torturá-la”. Quando se recompôs, este homem de 60 anos que aparenta menos, argumentou firme: “O que nós considerávamos trabalhar com setores despossuídos e levar uma vida simples não estava na mesma linha da hierarquia. A Igreja conhecia perfeitamente o que acontecia aqui. Os bispos eram a única instância que poderia ter freado o golpe. Mas aqui se deu um caso único na América Latina: que a Igreja apoiou o que aconteceu e até contribuiu com argumentos para avalizar a tortura e o genocídio”.

— E quais foram esses argumentos? – perguntou o promotor Facundo Trotta.

— Eles falavam do banho de sangue purificador. Há homilias de mons. Bonamín, de Tortolo que falam do banho de sangue purificador.

De Córdoba aos Estados Unidos

“Lembro-me que senti uma espécie de premonição nessa tarde quando ia visitar os seminaristas no Bairro Los Boulevares”, relatou Joan McCarthy aos juízes. De traços belos e afiados, “Juanita”, como é chamada por seus amigos na Argentina, foi, por sua vez, a pessoa indicada no momento justo, e não. “Cheguei na casa na tarde em que apareceram os policiais. Bateram, gritaram que eram da polícia e eu, que estava esperando os companheiros, abri”. Amparando-se em sua passagem como visita estrangeira, a irmã foi uma testemunha fundamental no sequestro, mas também uma protagonista central na salvação de seus colegas.

“Antes de irem, os sequestradores, que eram cerca de oito ou nove, todos armados, me deram uma ordem: que fosse ao jornal La Voz del Interior e dissesse que os seminaristas e o padre Weeks foram levados pelos Montoneros como traidores. Claro que me dei conta de que eles não eram Montoneros. Mas era preciso fazer algo e ainda não sabia o que”.

Joan pôde sair da casa pelas duas horas da madrugada. Sozinha, na rua, “com dois centavos na carteira, porque me roubaram o dinheiro”, e a carta do bispo de Jujuy, que ainda conserva. “Por sorte”, levava também o papelzinho com o número do telefone do teólogo da Espanha: “Eu sabia que tinha que avisar meus superiores o mais rápido possível. Mas, não tinha dinheiro nem para o ônibus”. Quando chegou à cúria arquidiocesana era ainda de madrugada e não queriam abrir. “Mas insisti e lhes disse que levaram os seminaristas. Abriram para que eu entrasse. O cardeal Primatesta estava no Canadá. Em seu lugar estava o mons. (Cándido) Rubiolo. Mas ele estava dormindo e não queriam acordá-lo”, recordou a freira. Pediu, então, papel e lápis e escreveu tudo o que recordava das horas que durou o sequestro. Como Rubiolo continuava em sua cama quando Joan terminou de redigir a carta, pediu para dar um telefonema. Falou ao teólogo espanhol que era conhecida de Santiago Martin Weeks. Foi ele quem avisou a congregação da Salete o que tinha acontecido. “Quando Rubiolo finalmente acordou, entreguei-lhe em mãos o que havia acontecido – rememorou McCarthy. Não sei se fez algo ou não. Mas suponho que essa carta ainda deva estar no arquivo da Arquidiocese”.

Joan conseguiu sair de Córdoba com a ajuda de Seco, que enviou um sacerdote canadense para buscá-la e acompanhá-la até o aeroporto. Já em Buenos Aires, no dia 04 de agosto, foi diretamente à Embaixada dos Estados Unidos. Má sorte: um cônsul de sobrenome Owen não quis acreditar no seu relato. Ou ao menos foi o que lhe disse. Ao fim e ao cabo, era coerente com seus chefes. Naqueles dias, o embaixador norte-americano na Argentina era Robert Hill, um homem que havia sido designado pelo próprio Henry Kissinger, cérebro do Plano Condor. Owen disse-lhe que não podia ajudá-la, e mais ainda: “Não podemos lhe dar dinheiro, não podemos emprestar-lhe dinheiro, não podemos oferecer-lhe asilo, não podemos acompanhá-la a um porto de saída. A única coisa que podemos fazer é dizer-lhe qual é forma mais fácil de sair da Argentina, mas também não podemos sugerir que a use”.

Quase à beira do desespero, a irmã telefonou para o núncio Pio Laghi: ela estava consciente da categoria de embaixador da Santa Sé que Laghi tinha no país e pensou que talvez seus foros diplomáticos, somados à extraterritorialidade da Nunciatura, lhe permitiriam outorgar-lhe o asilo que ela necessitava para que não fosse sequestrada. Mas do outro lado da linha disseram-lhe que poderiam atendê-la apenas na segunda-feira. Era quinta-feira. A irmã sabia que tinha apenas 48 horas para sair do país.

Apesar de que “estivesse morta de medo e de fome”, arriscou-se a esperar dentro de um hospital da congregação de Schoenstatt. Finalmente, chegou a segunda-feira. Pio Lagui nem se dignou a atendê-la. Comunicou-lhe através de um secretário que não podia ajudá-la: “Que podia ajudar apenas a sacerdotes argentinos, e que fosse à minha Embaixada”. Foi então que Joan fez contato com um grupo de jesuítas. Um deles, uruguaio, convidou-a para ir ao seu país. “Foram as melhores palavras que pude ouvir em todos esses dias e noites cheios de horas terríveis”, recordou McCarthy. Com a polícia e os militares mordendo-lhe os calcanhares, Joan embarcou num barco rumo a Montevidéu.

Já na capital uruguaia, os funcionários norte-americanos também não quiseram auxiliá-la, mas um empregado do consulado esclareceu o que estava acontecendo: “Você tem que ir o mais rápido possível. As polícias e os exércitos de todos os países latino-americanos estão em contato. Não podemos dar-lhe nenhuma proteção”. McCarthy conseguiu pegar um avião cuja passagem também foi paga pelos jesuítas. O itinerário? Bolívia via Paraguai. Em La Paz um grupo de irmãs, contatadas pelos religiosos uruguaios, juntou dinheiro para a viagem para Washington, onde Joan chegou apenas no dia 13 de agosto. “Avisei todos os que pude. Não paramos até que um belo dia, diante do Congresso, conseguimos que Ted Kennedy nos atendesse. Estávamos com as Mães. Tínhamos cartazes. Ele desceu do seu carro, nos viu na porta e disse que iria nos ajudar, que não nos abandonaria”, recordou, já com um sorriso.

Os companheiros de Joan foram libertos pela ditadura cerca de três meses depois, com a opção de deixar o país. A maioria, salvo o chileno, continuou seus estudos na América do Norte. Todos sabem que a luta do espanhol Seco, do próprio Weeks já em liberdade e, fundamentalmente de Joan, foi determinante para que não fossem assassinados.

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