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10 Março 2014

Muitos americanos ouviram ou leram um relatório sobre o êxodo de cristãos no Oriente Médio. Hoje os cristãos representam apenas 5% da população da região, muito abaixo dos 20% de um século atrás. Em locais como Iraque, comunidades cristãs inteiras estão à beira da extinção.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por The Boston Globe, 08-03-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No entanto, a Península Arábica está vendo, hoje, uma das maiores taxas de crescimento católico. A expansão está sendo impulsionada não pela conversão de indivíduos árabes, mas por expatriados estrangeiros em quem a região cada vez mais se apoia para realizar os serviços domésticos e trabalho manual.

Filipinos, indianos, cingaleses, paquistaneses, coreanos e membros de outras nacionalidades estão se tornando os novos pobres trabalhadores em algumas das sociedades mais ricas do mundo.

O resultado é uma população católica na península estimada de 2.5 milhões. Kuwait e Qatar são lares para cerca de 380 mil católicos; o Bahrein tem cerca de 140 mil; e a Arábia Saudita, 1.5 milhão.

Apesar das inúmeras desvantagens por serem pobres, carentes dos direitos de cidadania e pertencerem a uma minoria religiosa muitas vezes vistas com suspeitas, estas pessoas estão tentando criar raízes para sua fé e estão tendo algum sucesso surpreendente.

O rei Hamad bin Isa Al Khalifah, do Bahrein, recentemente concordou em doar um terreno para a construção de uma igreja católica, a ser chamada “Nossa Senhora da Arábia” e que irá servir como catedral para o Vicariato da Arábia do Norte. Sem uma igreja, o costume até então tem sido o de que os trabalhadores estrangeiros que querem participar da missa vão a uma das embaixadas ocidentais – especialmente a da Itália – ou se juntam numa residência particular, ou mesmo nas dependências de uma empresa estrangeira de petróleo, para celebrar.

Camillo Ballin, italiano de 69 anos e membro missionário da ordem religiosa dos Combonianos, lidera uma comunidade católica crescente. Ele esteve nos Estados Unidos no começo de março para arrecadar dinheiro em vista da construção da catedral, a qual segundo estimativa irá custar cerca de 30 milhões de dólares. Ele concedeu entrevista ao The Washington Globe durante sua estada no país.

Ballin considerou a decisão no Bahrein como “um bom sinal de diálogo, que deveria ser seguido por outros países”.

Embora Ballin tenha que medir as palavras para falar sobre a situação que seu rebanho enfrenta, ele não esconde o fato de que vive em um dos lugares mais difíceis do mundo para se ser um cristão.

“Não se trata da política dos governos destes países para converter todo mundo ou para impor o Islã”, disse ele. “Mas tais pressões são muitas vezes feitas por indivíduos e por movimentos radicais islâmicos”.

Ballin disse que, às vezes, se prometem melhores salários ou outras vantagens para os trabalhadores cristãos se eles se converterem, e que estes são frequentemente forçados a trabalhar em horários que, na prática, os impedem de participar nas missas aos sábados.

Dadas essas realidades, ele reconhece que erguer uma igreja é uma iniciativa complicada. Em consideração à sensibilidade islâmica, disse, a nova catedral não terá uma cruz no topo ou nenhum outro símbolo externo de sua identidade cristã.

“No mundo árabe em geral, estamos vivendo uma época de fanatismo cruel”, falou Ballin. “Não queremos provocar os fanáticos, tornando-nos um alvo”.

Em todo caso, afirmou, as aparências externas são secundárias.

“Como cristãos, cruzes externas são importantes, mas não essenciais. O importante é testemunhar com nossas vidas que, como cristãos, somos filhos de um Pai que ama a todos”.

Ballin também admite que, embora alguns do Golfo possam ser acolhedores, a Arábia Saudita continua a ser um lugar para o qual não se deve ir em termos de construção de uma igreja para servir à sua ampla minoria católica.

“O muçulmanos pregam que o país inteiro é uma grande mesquita, e dizem que não se pode construir uma igreja dentro de uma mesquita”, falou.

Ballin não se põe a discutir os méritos desta afirmação, dizendo somente que “o dia em que conseguirmos construir uma igreja na Arábia Saudita será um dia glorioso, não apenas para os sauditas mas para o mundo todo”.

Qualquer pessoa preocupada em evitar um choque de civilizações deve rezar para que essa crescente presença cristã constitua uma ponte com o Islã, e não se torne um outro ponto de tensão.

Isso tudo ilustra uma outra verdade, uma verdade que pelos americanos é, às vezes, difícil de ser compreendida.

O típico cristão no mundo, hoje, não é um homem banco, classe média, pronto a frequentar sua igreja local indo até aí de carro próprio. Ele é uma mulher, negra, mãe de quatro filhos, empobrecida, que vive na Nigéria; é uma avó dalit na Índia, ou mesmo uma empregada doméstica filipina explorada na Arábia Saudita. Estas muitas vezes enfrentam dificuldades que são difíceis para a maioria dos cristãos americanos entenderem, de tão acostumados que estão com o conforto material e carentes de qualquer experiência real de perseguição religiosa.
Até se conseguir compreender isso, não se conseguirá ver a história completa do cristianismo nesta região.

Uma conversa sobre a igreja na África

Não faz muito tempo que o cardeal Peter Turkson, de Gana, dirigente de um departamento vaticano que lida com as questões de justiça e paz, foi considerado um forte candidato a se tornar o primeiro papa africano da Igreja Católica desde o século V.

Na corrida para a eleição papal em março do ano passado, as ruas de Roma foram enfeitadas com cartazes divulgando sua candidatura. Até hoje Turkson disse não saber quem estava por trás da campanha, a qual chamou de “cômica”.

Falei com Turkson em 07-03-2014, em parte para solicitar suas reações sobre primeiro ano do Papa Francisco no cargo. No entanto, durante nossa conversa ele tocou em algumas questões relacionadas à Igreja no continente africano que, em si mesmas, são interessantes.

Os cardeais de todo o mundo recentemente tiveram dois dias de reuniões com o papa para falar sobre assuntos relacionados à família, com alguns cardeais relatando, depois, que os prelados africanos se opuseram a abrandar as regras da Igreja concernentes a católicos divorciados e recasados, dizendo que fazer assim iria prejudicar seus esforços para quebrar com o domínio da poligamia nas sociedades africanas.

Segundo as atuais regras, os católicos que se divorciam e casam novamente sem terem anulação – a declaração de um tribunal eclesiástico dizendo que seu primeiro casamento foi inválido – são barrados da comunhão e de outros sacramentos. De sua parte, Turkson disse não partilhar da preocupação segundo a qual flexibilizar tal posição iria criar problemas no continente.

“Não creio que considerar esta questão dos divorciados e recasados criaria algum problema para o ministério do matrimônio na África”, falou.

Pelo contrário, Turkson disse que o que ele gostaria de ver é uma ampliação do debate da Igreja, indo além do modelo ocidental de família com pai e mãe e tendo presente a experiência da África, de relações mais amplas dentre de um clã.

“Para nós, ‘família’ frequentemente significa relações prolongadas dentro de um clã, compostas de várias unidades familiares menores juntas que dão apoio uns aos outros e fornecem regras para a vida em família”, disse ele.

Um foco exclusivo nos problemas ocidentais tais como o divórcio e a coabitação, argumentou Turkson, corre o risco de deixar a África fora de questão.

Turkson também aproveitou uma pergunta sobre a adoção recente de duras leis contrárias à comunidade gay em Uganda e na Nigéria.

“Penalizar os homossexuais não é o caminho por onde devemos ir”, falou, dizendo que o Vaticano fez circular esta mensagem aos bispos dos países africanos que podem contemplar medidas semelhantes.

Ao mesmo tempo, Turkson opôs-se aos movimentos para impor sanções ou negar ajuda externa aos países africanos que adotarem estas leis.

“Não devemos tão rápida e prontamente penalizar países que não estão prontos a adotarem os modelos ocidentais”, declarou. “Devemos ajudá-los a ampliar seus horizontes, e não puni-los”.
“Com o tempo as pessoas provavelmente irão mudar suas opiniões”, falou, argumentando que “penalizá-los por não serem capazes de se moverem mais rapidamente” pode fazer a bala sair pela culatra, reforçando o apoio africano pela criminalização da homossexualidade, em vez de enfraquecê-lo.

Novas nomeações para a reforma financeira

No último sábado o Papa Francisco revelou suas escolhas para um novo conselho que irá definir políticas para a Secretaria de Economia, organismo criado por ele no fim de fevereiro para promover transparência e responsabilidade nas finanças vaticanas.

Com as nomeações, o papa avançou mais um passo em seu projeto de reforma, que está rompendo com a velha guarda italiana, mas nem tanto uma outra ala da Igreja: aquela que está promovendo a presença das mulheres em cargos de tomada de decisão.

O conselho é composto de oito cardeais e sete especialistas leigos; há apenas dois italiano aí. Embora representem uma variedade de nacionalidades, os especialistas leigos escolhidos pelo papa são todos homens.

A responsabilidade financeira há muito tem sido a causa que une cardeais de diferentes perspectivas, e isso está claro para o novo painel. Este inclui o cardeal Juan Luis Cipriani Thorne, de Lima (Peru), membro da Opus Dei conhecido como um forte conservador, e o cardeal Wilfrid Fox Napier, de Durban (África do Sul), em geral considerado moderado.

Há um norte-americano: o cardeal Daniel DiNardo, de Galveston-Houston (Texas), que também serve como vice-presidente da Conferência dos Bispos dos EUA.

Entre os especialistas leigos estão o economista maltês Joseph F.X. Zahra, que encabeçou o painel que o papa criou em julho para estudar as estruturas econômicas e administrativas do Vaticano. Os demais vêm da Alemanha, França, Canadá, Espanha, Itália e Singapura.

Quando o pontífice convocou esta comissão, a composição incluía uma mulher, uma ex-funcionária da empresa Ernst and Young chamada Francesca Immacolata Chaouqui. No entanto, o Vaticano se sentiu traído quando descobriu que Chaouqui publicara tuítes mal-intencionados acusando um padre de corrupção e de ter erroneamente afirmado que Bento XVI tivesse leucemia; além disso, mais tarde, fotos picantes dela circularam pela internet.

Estes antecedentes podem explicar a cautela do papa aqui, mas a ausência de uma mulher num grupo para o qual não sacerdotes são elegíveis é, no entanto, de fazer levantar as sobrancelhas.

O aniversário papal

Quinta-feira irá marcar o aniversário de um ano da eleição do Papa Francisco, e a ocasião provavelmente irá desencadear uma avalanche de cobertura midiática. Nisso tudo saber o que é válido de nota pode ser uma tarefa difícil; então ofereço aqui um guia prático para determinar se algo vale a pena ser apreciado.

A seguir apresento três erros comuns de enquadramento da “revolução de Francisco”. Se você se deparar com algum deles, é sinal de que poderá deixar de lado e seguir adiante.

O primeiro é a narrativa do “Francisco bom, Bento XVI mau”. Pense nisso como uma tentação, já que a tendência de estilizar o Papa Francisco como um repúdio de tudo o que as pessoas não gostam em seu predecessor foi tratada na matéria de capa de algumas revistas.

Em alguns aspectos, é claro, Francisco constitui um contraste estilístico óbvio em relação a Bento XVI. Onde Bento era intelectual e acadêmico, por exemplo, Francisco se sai como populista e acessível; onde os gostos indumentários de Bento incluíam tecidos de carmesim, Francisco é mais informal.

Os fatos centrais, entretanto, são estes:

– Foi a decisão histórica de Bento XVI em renunciar que abriu caminho para o Papa Francisco.

– Os dois se gostam e se admiram mutuamente, com Francisco comparando ter Bento no Vaticano como se fosse ter seu avô em casa.

– Várias das medidas reformistas pelas quais Francisco está recebendo os créditos, incluindo o impulso pela glasnost financeira no Vaticano, na verdade começaram sob o papado de Bento XVI. De fato, poder-se-ia argumentar que quanto à questão dos escândalos dos abusos infantis Francisco fica para trás em relação a seu predecessor em termos de quão incisivo ele tem sido até agora neste campo.

Um segundo erro comum é tratar a revolução de Francisco como sendo somente de estilo e não de conteúdo. A realidade é, como o cardeal Vincent Nichols recentemente disse numa entrevista ao The Boston Globe, que aquilo que se está realizando não é apenas um “conserto”, mas uma “renovação radical”.

Prova disso veio da decisão recente do papa em criar uma nova Secretaria da Economia para impor disciplina financeira no Vaticano e nomear o lendário cardeal George Pell, da Austrália, como seu czar financeiro.

Este movimento pode não ter o apelo que possuem os gestos simbólicos de Francisco, como a sua rejeição do apartamento papal ou do convite feito a três desabrigados e ao cão de um deles (aliás, chamado Marley em homenagem ao ícone do reggae Bob Marley) para um café da manhã no dia de seu aniversário. Mas os que estão envolvidos internamente sabem que há poucas coisas que o papa poderia fazer que desafiaria mais a velha guarda do Vaticano do que esta que está realizando.

Quando esta decisão foi anunciada, quase se poderia ouvir o som das placas tectônicas da Igreja mudando em direção à transparência e responsabilidade.

Em terceiro e último lugar, alguns meios de comunicação podem usar o aniversário como uma desculpa para reciclar algumas controvérsias desgastadas, com uma tendência de pôr o Papa Francisco como sendo a solução e não a causa.

Embora um recente documentário da rede de televisão PBS chamado “Secrets of the Vatican” [Os segredos do Vaticano] tenha tido vários pontos fortes, incluindo entrevistas com vaticanistas renomados, ele também ofereceu exemplos clássicos desta tendência.

Por exemplo, a produção levantou verdadeiras questões sobre o mal tratamento dado pela Igreja nos casos dos abusos sexuais, mas também deu voz a uma noção bastante mitológica do Vaticano como sendo responsável direto pela supervisão de todo o ato cometido pelos mais de 400 mil padres católicos ao redor do mundo.

O documentário também tratou os escândalos envolvendo o Banco do Vaticano. No entanto, não ressaltou que uma reforma abrangente das operações do bando se iniciaram sob Bento XVI. Também não destacou a questão de que, embora o banco tenha mais de 9 bilhões de dólares em ativos sob sua gerência, a maior parte desse montante não é dinheiro do Vaticano, mas pertencente às dioceses, ordens religiosas e organizações católicas ao redor do mundo.

A conclusão é: o simples fato de que o tratamento do Papa Francisco por parte de alguém seja favorável não é garantia de equilíbrio em outras frentes.

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