Misericórdia forçada: uma grande teologia, talvez desesperada. Artigo de Massimo Cacciari

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06 Março 2014

Kasper convida, com razão, a não idealizar nenhum passado (era só o que faltava!), mas certamente o "realismo" bíblico sobre as misérias humanas não basta para compreender as características atuais da crise da instituição familiar. São superáveis? E como?

A reflexão é do filósofo italiano Massimo Cacciari, professor da Università Vita-Salute San Raffaele de Milão e ex-prefeito de Veneza, em artigo publicado no jornal Il Foglio, 04-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Walter Kasper é um teólogo de vasta cultura e autor de obras fundamentais, como Der Gott Jesu Christi. Qualquer escrito seu mereceria, pela amplitude das referências e o esforço exegético autêntico em relação aos textos bíblicos à sua tradição, um tratamento analítico. Isso também vale para a sua conferência ao Consistório sobre a família.

Do meu ponto de vista, o aspecto mais apreciável dessa conferência consiste justamente no seu espírito, mais do que na sua letra. Esse espírito expressa, às vezes apertis verbis, uma autêntica angústia que o pastor e o crente sentem com relação à situação atual da família: "Entre doutrina da Igreja e as convicções vividas por muitos cristãos, abriu-se um abismo".

Não só, portanto, entre Igreja e "século", mas também entre Igreja e quem se professa cristão! Não só uma distância, mas um verdadeiro abismo! E a "cura" não parece poder vir de algum "compromisso": o cristão deve assumir uma posição radical em torno do problema. Mas tal posição não pode vir senão de uma interrogação igualmente radical sobre as razões daquelas que Kasper chama de formas de "alienação" da família, as razões pelas quais a família se parece tantas vezes hoje a "um hospital de campanha".

Kasper convida, com razão, a não idealizar nenhum passado (era só o que faltava!), mas certamente o "realismo" bíblico sobre as misérias humanas não basta para compreender as características atuais da crise da instituição familiar. São superáveis? Como?

Aqui, as perspectivas se confundem: a superação sacramental da crise (toda a parte da conferência sobre a "Igreja doméstica") não pode responder, como tal, às causas histórica, social e economicamente determinadas desta última. Para um cristão autêntico, e não para um pagão batizado, essa crise não poderia nem mesmo se dar; para ele a escolha, eventualmente, poderia ser entre castidade e sacramento do matrimônio. O sacramento pressupõe e nutre a fé, repete Kasper. Exatamente. E por isso onde não pode ser suposto não pode alimentar um matrimônio sacramentalmente vivido.

Os dois planos são radicalmente distintos – ou, melhor, só é possível afirmar que a evangelização (incluindo a do próprio cristianismo contemporâneo, na sua grande maioria) traria como consequência a revitalização da própria vida matrimonial. Mas não pode haver um "alegre anúncio" apenas para a família.

O sacramento torna sobrenatural a ordem da família. Citar "aos pedaços" as palavras de Jesus não ajuda. O "pacto" homem-mulher que ele sugere "cumpre", sim, aquele mosaico, mas justamente no sentido de uma metamorphosis, no sentido daquela teleia agape que nos faz perfeitos como o Pai nos Céus.

A ordem natural da instituição da família, ao invés, é natural no sentido do devir, do mudar. O fato de que todas as culturas conhecem a família – e sobre esse matter of fact pretender "salvar" uma eterna verdade sua – é uma contradição em termos: tudo o que é cultura, de fato, é contingente por definição.

Aqui jaz o que eu considero como um perigo mortal para a própria evangelização: a redução do "alegre anúncio" a uma medida "naturalista", ou ao menos a sua contaminação com ela. A família também pode pertencer à "ordem da criação", mas apenas como o homem é dotado de uma faculdade de falar. Em todos os idiomas, expressaram-se valores incomparáveis.

A ordem da família grega é totalmente diferente da romana (e nem em Atenas nem em Roma se concebia o oikos como fundamento da polis!), ambas são diferentes da hebraica, e todas não têm nada a ver com as convicções vividas hoje pelos habitantes deste planeta (podem dizer respeito no máximo às formas do contrato matrimonial). Há tão pouca Madame La Famiglia quanto há Madame La Terre ou Monsieur Le Capital.

Os princípios do direito natural (sem poder aqui sequer mencionar os colossais problemas que levanta o fato de apenas citá-los) valem, ou não valem, universalmente para todas as instituições e para todas as relações sociais, e não dizem nada especificamente sobre a natureza da família; defendem os seus membros exatamente como tutelam, ou gostariam de tutelar, aqueles que atuam e vivem em qualquer outra condição.

Adverte-se esse drama nas palavras de Kasper; compreende-se bem a sua insatisfação com aquelas referências a uma "teologia natural", que não pode preencher de modo algum aquele abismo, de cuja constatação ele havia partido corajosamente. E eis, então, que o seu discurso é obrigado a forçar de todos os modos a doutrina consolidada no sentido da misericórdia, do perdão, da escuta, do amor.

Acredito que, como o Reino só pode ser alcançado pelos "violentos", assim também não há outro modo hoje para que a Igreja fale aos pagãos, batizados ou não. Mas é preciso ser totalmente ignorante de história e extasiar-se encantado com as conversas fiadas sobre a secularização para não perceber as imensas dificuldades e problemáticas do processo que se abre.

Theos Agape – mas Amor exigente; e o que deve exigir irrenunciavelmente? Qual é o verdadeiro ícone do eterno na relação entre duas pessoas, de modo a torná-la inviolável?

Nas palavras de Kasper, percebe-se uma espécie de "nostalgia" por essas perguntas originais, que se confrontam drasticamente com as cartas, os códigos, a casuística da tradição. Poderá ser encontrado um acordo, e não um inútil compromisso? Parece-me que o papado de Francisco está se desenvolvendo no sinal dessa pergunta.

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