É preciso agradecer ao feminismo. Artigo de Luisa Muraro

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01 Março 2014

“Se vocês, eclesiásticos, quiserem nomear o feminismo, sejam justos e reconheçam-lhe o muito que ele fez e faz pelas mulheres, em primeiro lugar pela sua conscientização e pela sua liberdade.”

A opinião é da filósofa italiana Luisa Muraro, cofundadora da comunidade filosófica feminina Diotima e ex-professora da Universidade de Verona, em artigo publicado na revista Leggendaria, de janeiro de 2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

1. Dirijo-me ao senhor, bispo e papa, e aos outros bispos que governam e guiam, de vários modos, a Igreja católica e pergunto: quando vocês entram em contato com movimentos, ideias, pessoas que não pertencem inteiramente à Igreja, mas que também dizem e fazem coisas boas que vocês ainda não tinham pensado em dizer ou fazer, ou que vocês também dizem e fazem nos modos e limites das suas possibilidades, como vocês se ajustam com relação a eles? Falam a respeito? E em que termos? Colocam-se em relação com eles ou se colocam em concorrência? Distanciaram-se da antiga tendência de desconfiar e de reprimir?

Faço-lhes essa pergunta por um motivo preciso. Sou alguém que não toma posições anticlericais nem antirreligiosas, muito pelo contrário. No entanto, na linguagem dos padres, eu nunca encontrei os termos "feminismo" e "feminista" senão acompanhados por reprovação, por suspeita ou pela indicação de erros específicos. Com argumentos que muitas vezes revelam mais a ignorância do que o conhecimento da questão.

O antifeminismo dos homens da Igreja chegar a roçar até mesmo o recente documento preparatório "Os desafios pastorais sobre a família", em que não se fala de feminismo, exceto para dizer que há "formas de feminismo hostil à Igreja".

Nós pedimos que vocês façam o mea culpa por terem sistematicamente fechado os olhos diante da violência familiar sofrida pelas mulheres. Nem pedimos que se fale de nós. Mas, se quiserem nomear o feminismo, sejam justos e reconheçam-lhe o muito que ele fez e faz pelas mulheres, em primeiro lugar pela sua conscientização e pela sua liberdade.

2. Desagrada-me que o senhor não consinta com as expectativas das mulheres que se sentem chamadas ao sacerdócio na Igreja católica. Mas aprovo o modo pelo qual o senhor fez isso, em chave pessoal, sem trazer argumentos contra a ordenação de mulheres. Parece-me que os argumentos trazidos no passado não se sustentam ao exame crítico da própria teologia católica. Eu entendo que o senhor não se sinta disposto a assumir a responsabilidade de inovar uma tradição secular, em cujo caso parece-me bom que o senhor tenha feito isso sem se proteger atrás de qualquer verdade de fé ou raciocínio teológico.

Naturalmente, isso não basta. É preciso também levar em conta o espírito dos tempos, que demanda interpretações livres da diferença sexual e rejeita as exclusões.

O senhor, Papa Francisco, falou várias vezes sobre a valorização das mulheres dentro da Igreja, convidando a não confundi-la com o pertencimento ao clero. Pergunto-me como isso é possível se os eclesiásticos, começando pelo senhor, continuam se mostrando com os sinais e as prerrogativas de uma especial proximidade a Deus e de uma autoridade superior sobre os outros batizados. Tal discurso naturalmente também vale para os leigos (as mulheres na Igreja, incluindo as irmãs, são todas leigas!) e, em parte, também para o baixo clero.

Segundo o senhor, a quem cabe tomar a iniciativa das mudanças que urgem? Junto com a pergunta, proponho duas considerações: primeira, que só os santos se despojam espontaneamente dos seus privilégios; segunda, que nada valoriza mais do que tomar a iniciativa.

3. Vivemos em um mundo cuja economia se unificou em nível global e funciona às custas de contínuos desequilíbrios cujas consequências negativas caem sobre a parte mais frágil da população, tanto em nível global quanto nas situações particulares. Desde que o senhor se tornou o chefe da Igreja católica, o senhor assinala com palavras enérgicas a condição daqueles que se encontram expostos ao sofrimento e aos riscos da pobreza. E prega uma Igreja pobre próxima dos pobres. Interrogo-me sobre o significado que a sua pregação pode ter em um mundo como esse.

O senhor vem da América Latina, onde a teologia da libertação dos pobres interpretava a mensagem evangélica no contexto do nosso mundo. Mas ela foi condenada e reprimida sob o pontificado de João Paulo II. O senhor, como se sabe, concordou com a posição da autoridade de Roma (deixando de lado os modos usados pelo seu antecessor, de uma dureza que o contexto não justificava).

Quando se tornou bispo de Buenos Aires, anos depois, em uma pregação de Natal, disse: "Rezemos particularmente pelos marginalizados que, como os pobres pastores do Evangelho, vivem e experimentam a 'periferia da vida', para que encontrem na nossa vizinhança uma presença capaz de lhes fazer conhecer o Deus que nos ama". Nessas palavras, transparece a sua distância da teologia da libertação. Mas também se sente uma certa distância da pregação de hoje: à época, o mal da pobreza era a ausência de Deus, enquanto agora o mal parece ser no máximo o nosso egoísmo de privilegiados.

Reuni elementos para fazer a minha pergunta. Como resposta principal da Igreja à condição de pobreza grave de uma parte da humanidade, o senhor pensa em uma nova doutrina social, adaptada ao século XXI? Ou pensa (repito, como resposta principal) que é preferível continuar com aquilo que a Igreja já está fazendo, a filantropia e a beneficência? Ou pensa em uma conversão dos católicos no sentido de uma Igreja espiritual não comprometida com os poderes deste mundo?

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