Agricultura para ser Sustentável tem que ter Ética Social , artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves

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14 Fevereiro 2014

"A avidez em busca de produtividade visando somente o lucro levou a erros de consequências ambientais catastróficas em muitas partes do mundo", explica Raimundo Nonato Brabo Alves, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, em artigo publicado no portal EcoDebate, 12-02-2014.

Eis o artigo.

Começo por discutir a eficiência da produção de alimentos pela relação da produção por unidade de área. Na pré-história para um homem ser alimentado era necessário em média 2500 ha na atividade de caça. Com o pastoreio era necessário 250 ha. Na agricultura de covas era necessário 3 ha para alimentar um homem. Na idade medieval a capacidade de produção de um homem era inferior a 1/10 de tonelada, produção insuficiente para gerar excedentes. Na mesma época a introdução de arados de roda tracionados a cavalos e a construção de obras hidráulicas como corte de canais, desvios de rios, e outros modernizaram a agricultura na Bacia do Mediterrâneo. Uma revolução tecnológica considerando que a produção obtida em 250 ha foi capaz de alimentar 750 pessoas. Os agricultores passaram a utilizar rotação de culturas, seleção de cultivares e ciclagem de nutrientes com restos de culturas, camas de estábulos, esterco e cinzas. O aperfeiçoamento dos processos agrícolas permitiu a regularidade da produção. As pessoas se alimentavam a base de carne e vinho pelo menos três vezes por semana, diversificando com cereais e leite nos demais. O excedente era confiscado pelos censos, além da corvéia que representava um resíduo de trabalho compulsório ao dono da terra.

Nesta era ocorria no campo o que se pode arriscar a denominar de “socialização” da agricultura em que um número significativamente elevado de pessoas no campo, no que se denominou de reprodução do campesinato, era necessário para alimentar um número expressivamente menor de pessoas nas urbes em constante crescimento. Isto sempre com a centralização da terra nas mãos do senhor feudal. No entanto esta mesma agricultura familiar se tornou insustentável para suprir a demanda do mercantilismo imposto pela abertura de mercado no Mediterrâneo, com a vitória das Cruzadas sobre os árabes.

Com o arrendamento de grandes extensões de terra a comerciantes que passavam a empregar o trabalhador assalariado nasce o capitalismo mercantilista. A transição entre o capitalismo e o feudalismo nem sempre ocorreu de forma pacífica, pela necessidade de mais alimentos para as cidades que exigia excedentes crescentes impostos aos agricultores pelos patrões, gerando em alguns casos, êxodo de servos e conflitos sangrentos. Na transição do sistema feudal para o capitalista, a desestabilização da agricultura familiar se deu por um conflito de motivação ambiental: a proibição da exploração dos bosques para retirada de lenha e madeira impedindo a construção de residências, estábulos e currais e o impedimento da utilização das pradarias para o manejo e alimentação do gado.

A modernização da agricultura e sua intensificação com o advento do capitalismo industrial intensificou mais ainda o êxodo rural e a centralização do capital, pois ao mesmo tempo em que se moderniza, expulsa a pequena produção do campo, criando dependência, haja vista que 250 ha produzem alimentos para em média 3600 pessoas. Com a ameaça do esgotamento das reservas de petróleo e de fertilizantes, principalmente de fosfatos. Com a emissão de carbono para a atmosfera pelas atividades agropecuárias, não é só a eficiência econômica da produção por unidade de área ou por agricultor que passa ser considerada. Uma nova relação entrou definitivamente nesta avaliação: o balanço energético das atividades agropecuárias. Questiona-se, por exemplo, qual o balanço energético de um agricultor indiano em relação a um americano para produzir uma tonelada de milho?

O novo paradigma da agricultura foi de que se “modernizasse” a exemplo da indústria tanto na escala como na padronização, sempre buscando a redução da força de trabalho. A avidez em busca de produtividade visando somente o lucro levou a erros de consequências ambientais catastróficas em muitas partes do mundo. A intensificação da agricultura no centro-oeste americano na década de 1930 culminou com as tempestades de areia conhecidas como Tempestades Negras, simplesmente por não ser considerada a importância da profundidade do sistema radicular das gramíneas nativas das pradarias americanas na retenção dos solos.

Na Amazônia a agricultura familiar vem cedendo espaço tanto para a pecuária extensiva como para a agroindústria de grãos, óleos vegetais e de florestas de eucaliptos para atender a demanda da siderurgia eletrointensiva, reproduzindo-se exemplarmente os modelos agrícolas que desestabilizaram a agricultura familiar medieval, considerada historicamente sustentável por séculos. Exatamente como vem ocorrendo com a agricultura familiar dos africanos, asiáticos e indianos.

Prospectei no interior do Pará, unidade familiar de 25 ha representativa da Amazônia, com lucro mensal superior a R$ 4 mil mensais, gerando 18 empregos diretos, sem crédito rural, com atividade na cultura mais tradicional da região: a madiocultura. São estas unidades familiares que caminhando com seus próprios recursos se sentem ameaçadas pelo agronegócio financiado com recursos oficiais.

Como mencionado anteriormente é evidente que os avanços tecnológicos da agricultura foram responsáveis pela manutenção de uma população humana sempre em crescimento. O Brasil é o país de maior domínio tecnológico da agricultura tropical, com avanços científicos no manejo de solos como o dos cerrados, processos tecnológicos como o do plantio direto, técnicas de preparo de área sem queima, métodos de melhoramento de plantas como a transgenia. Tem, portanto know how suficiente para dar exemplo ao mundo com uma agricultura sustentável, conciliando a produção de alimentos e matérias primas com a preservação ambiental e social, harmonizando os setores da agricultura industrial e da agricultura familiar. É só manter o equilíbrio dos sistemas na eficácia da produtividade com sustentabilidade. É isso que se espera do Novo Código que deveria ser bem mais que Florestal, para sair dos meros conceitos reducionistas.

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