Uma expressão da opção pelos pobres. Entrevista com Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga

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10 Fevereiro 2014

Uma conversa com o cardeal Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga sobre a situação do seu país, Honduras, e da Igreja Católica com o Papa Francisco.

A reportagem é de Daniel Deckers, publicada no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, 30-01-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Cardeal Rodríguez, antes da eleição do presidente de Honduras, o delegado da Igreja Católica da Cáritas lamentava o fato de que as condições de vida de 70% dos pobres não haviam melhorado, mas sim piorado, em 32 anos de democracia. Você compartilha essa avaliação?

A população cresceu fortemente, ao contrário do nível dos programas sociais. Há melhorias na saúde, graças às quais a mortalidade infantil diminuiu. Mas no que diz respeito à escola e à educação, as coisas ainda parecem ruins. Sem melhorias na educação, não há possibilidade de sair da pobreza. O maior problema continua sendo a desigualdade.

O que deu errado depois do fim da ditadura militar em 1980?

Voltou uma classe de políticos que já haviam se sucedido anteriormente no poder. O cálculo continuou o mesmo: investe-se durante a campanha eleitoral, no período em que se governa se recolhem os dividendos, e assim enriquecem a fim de sobreviverem até o fim dos seus dias. O fato de que a política deve ser um serviço ao bem comum ainda não se impôs.

Honduras não é apenas um dos países mais pobres da América Latina, mas também se tornou um dos mais perigosos. Como se chegou a isso?

A raiz do mal reside na tolerância com relação ao narcotráfico, ao comércio de drogas. Entre 2007 e 2009 [sob a presidência de Manuel Zelaya], foram emitidas licenças de voo falsas. E na região de Mosquitia não havia radares. Todas as noites, aterrissavam aeronaves desconhecidas de um país do Sul [Venezuela] com drogas a bordo. Honduras se tornou um campo de batalha dos cartéis do Norte e do Sul. O número de assassinatos aumentou enormemente, as forças de segurança têm se corrompido, gangues de jovens se massacram mutuamente e exigem dos mais pobres um chamado "imposto de guerra".

O que deve mudar com o novo presidente Juan Orlando Hernández?

Prometeu-se ao povo que as forças de segurança serão reformadas, e a violência irá diminuir. Deve cessar a corruptibilidade da justiça, senão não haverá um fim à impunidade. Só podemos esperar que o novo presidente cumpra as suas promessas e implemente programas que possam aliviar a pobreza, melhorar a educação pública e criar empregos.

Na sua exortação Evangelii gaudium, o Papa Francisco dá a impressão de estar decepcionado com a democracia na América Latina e em muitos outros países do hemisfério Sul. Você concorda com ele?

O papa expressa o que muitos pensam. Até agora, democracia significou ir votar e depois ver que tudo continua como antes. Uma das causas desse tipo de situação está no fato de que a economia passou por cima da política e a colocou a serviço dos interesses de alguns indivíduos ou de poucos pequenos grupos. Assim, o bem comum é esquecido.

As elites políticas e econômicas, que do México até a Argentina sempre foram formadas nas universidades católicas, fracassaram?

Eu não posso reconhecer um fracasso da educação nas universidades católicas. O problema, ao contrário, é que muitos chegam à conclusão dos seus estudos em instituições de ensino superior que estão comprometidas com o neoliberalismo e com um capitalismo selvagem. Lá, por trás da máscara do pragmatismo, foi e é preparado o terreno para a corrupção, a evasão fiscal e o mau governo.

Na América Latina, em números absolutos e relativos, aderem à Igreja Católica mais pessoas do que em qualquer outra região do mundo. A Igreja Católica não faria parte dos problemas da América Latina, em vez da sua solução?

Se a Igreja não se comprometesse continuamente com os valores do Evangelho e com o ensino social com os seus princípios de primado da pessoa, de solidariedade e de subsidiariedade, a chamada democracia já teria desmoronado há muito tempo. Da Assembleia Plenária dos bispos latino-americanos que foi realizada em Medellín, em 1968, a crítica construtiva passa como um fio de ouro através das assembleias plenárias de Puebla, Santo Domingo e Aparecida, até hoje.

O que significa, no contexto da América Latina, a expressão do Papa Francisco, que quer uma "Igreja pobre para os pobres"?

A Igreja Católica na América Latina é pobre e é sustentada pelos pobres. Ela deve estar ainda mais ao seu serviço. Nós não precisamos de leigos "clericalizados" nas sacristias, mas sim de católicos convictos no centro da política, da economia e também da cultura. Portanto, a "opção preferencial pelos pobres" deve levar a mudar o ordenamento da economia mundial. A tão propalada globalização até agora é apenas uma globalização dos mercados. Por trás dela, esconde-se uma tendência à constituição de monopólios, de empresas cada vez mais poderosas que atuam em nível mundial.

O que significa "Igreja pobre" no contexto europeu, especialmente na Alemanha?

Tudo depende de como se define a riqueza. A história da Europa envolve o fato de que há muitas propriedades da Igreja e até mesmo o imposto para a Igreja. Eu estou convencido de que a Igreja Católica na Alemanha é não apenas uma das mais ricas do mundo, mas também a mais generosa. Muitas Igrejas ajudam os mais pobres dos pobres, mas nenhuma pode ser comparada à Igreja alemã. Por mais de 50 anos, o instituto episcopal Adveniat é um dos maiores benfeitores do continente latino-americano em todos os campos da pastoral. Misereor, Missio, Kirche in Not e Renovabis falam por si mesmos. Seria uma pena que, por causa dos acontecimentos de uma única diocese na Alemanha, fossem colocadas na sombra as realizações de tantos anos. Eu acredito que a Igreja Católica alemã está a serviço dos pobres.

O Papa Francisco confiou a você o encargo de coordenar o trabalho da comissão de oito cardeais que o aconselha na reforma da Cúria e na direção da Igreja universal. Que sinal você acha que está correlacionado com a escolha da sua pessoa?

Outra expressão da opção pelos pobres. A minha Igreja é uma das menores e das mais pobres da América Latina.

Em outubro, a comissão discutiu o papel do Sínodo dos Bispos, pouco tempo depois foi publicado um questionário para a preparação do Sínodo sobre a família no próximo ano. Por que, de repente, a Igreja se interessa por aquilo que os católicos do mundo inteiro pensam sobre contracepção, divórcio e casamento homossexual?

Em 1980, ocorreu um Sínodo sobre o tema da família, do qual depois derivou a exortação Familiaris consortio. Trinta e quatro anos depois, a realidade mudou completamente. E a Igreja quer ver claramente isso. Evidentemente, o modelo da família cristã não é mais determinante. Onde antes havia a família, hoje existem muitas convivências que duram apenas um período da vida. Principalmente as crianças sofrem com isso. Dói-me ver que elas voam de cá para lá, quase como bolas de tênis, uma semana com um dos pais, na semana seguinte com o outro. Muitos nem sequer querem ter mais filhos, a ponto de que outros modelos de família são "patenteados".

A percepção da realidade mudará o ensino da Igreja?

Há coisas que, na Igreja, não podem ser mudadas, porque remontam diretamente à vontade do seu fundador. Outras coisas são obra humana e podem, ou, melhor, devem mudar. O papa fala muito claramente de misericórdia. Essa é a nova perspectiva sobre as preocupações e as necessidades da humanidade.

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o arcebispo Müller, considera que devem ser excluídas mudanças tanto no ensino, quanto na práxis da Igreja, também com relação à autorização de acesso aos sacramentos dos divorciados em segunda união. Corre-se o risco de um conflito entre a Congregação da Fé, o papa e as pessoas que da sua confiança?

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé é um homem muito competente, com opiniões muito respeitáveis. Mas eu não acredito que se chegará a um conflito. Cabe ao Sínodo dos Bispos, em que se realiza a colegialidade dos bispos, expressar-se sobre questões como essas e trazer esclarecimentos. O Papa Francisco segue a orientação do fundador da ordem jesuíta, Santo Inácio. Ele pede conselho, busca o diálogo, reza e tenta fazer o discernimento.

Com a expressão "salutar descentralização", o Papa Francisco, na Evangelii gaudium, assumiu um pedido que cardeais como Walter Kasper levantam há muito tempo. Que aspecto tal descentralização pode assumir?

Nos últimos anos, a centralização levou a feridas e descontentamento. Enquanto as feridas não forem curadas, a Igreja não estará em paz consigo mesma. O papa escreveu o que pensa na Evangelii gaudium. A tarefa da comissão de cardeais é o de concretizar essas ideias, em diálogo com o papa. Francisco gostaria de fortalecer a colegialidade.

O papa imagina as Conferências Episcopais como "sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal". O que há de novo nisso?

A Igreja conhece desde sempre a função do bispo. As Conferências Episcopais são um dos melhores frutos do Concílio Vaticano II. Também a elas compete uma função. Mas não se trata somente de ensinar, mas também de decidir. Parece-me que importa ao papa que as coisas que possam ser decididas em nível de Conferências Episcopais não devem ser continuamente submetidas à Cúria.

Na Evangelii gaudium, diz-se que a Igreja Católica poderia aprender com as Igrejas ortodoxas a experimentar na vida os conceitos de "sinodalidade" e "colegialidade". A Igreja Católica pode aprender também com as Igrejas que surgiram da Reforma?

A Igreja Católica não tem nenhum monopólio sobre o Espírito Santo. O Espírito "sopra onde quer". Com base nesse espírito de humildade e de abertura, o papa defende com força a ideia de que a Igreja não cesse de construir pontes em vista da unidade. Nessa perspectiva, podemos aprender com o que o Espírito provocou nas Igrejas da Ortodoxia e da Reforma, principalmente com a sua "sinodalidade".

Quais são os objetivos mais urgente na reforma da Cúria vaticana?

Existem muitos pontos. Um deles diz respeito a tudo o que tem a ver com a administração e as finanças, e portanto com o banco vaticano IOR, a administração da APSA, a administração do Estado da Cidade do Vaticano, o Governatorato. Outra coisa são as várias autoridades da Cúria, como a Secretaria de Estado, os dicastérios, os Pontifícios Conselhos. Em terceiro lugar, há as relações com os Estados e as nunciaturas. Atualmente, estamos recolhendo propostas de todas os âmbitos da Igreja. Estamos em um bom caminho.

Na Evangelii gaudium, o papa fala de uma "conversão pastoral do papado". Nas palavras do Papa João Paulo II, significa que se deve encontrar "uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova". O que se entende por isso?

O Papa Francisco, no dia da sua eleição, assumiu um novo tom, com aquele "boa noite" e, depois, com o seu repetido convite, "rezem por mim". O seu estilo simples e caloroso mostra o que significa ser um pastor com cheiro de ovelhas. No diálogo e no discernimento, se verá como o desejo do Papa João Paulo II pode ser implementado para desenvolver novas formas do primado do bispo de Roma. No conselho dos cardeais, vamos falar dessas questões, assim que surgirem os contornos de uma reforma da Cúria.

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