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Por: André | 27 Janeiro 2014

“Obrigado por compartilhar felicidade”, diz o último anúncio da Coca-Cola. Entretanto, olhando de perto parece que a Coca-Cola de felicidade compartilha bem pouco. Senão, que se pergunte aos trabalhadores das fábricas que a multinacional pretende fechar agora no Estado Espanhol ou aos sindicalistas perseguidos, e alguns inclusive sequestrados e torturados na Colômbia, Turquia, Paquistão, Rússia, Nicarágua ou nas comunidades da Índia que ficaram sem água após a passagem da companhia. Para não falar da péssima qualidade dos seus ingredientes e o impacto sobre a nossa saúde.

A reportagem é de Esther Vivas e publicada no jornal espanhol Público, 24-01-2014. A tradução é de André Langer.

A cada segundo são consumidos 18.500 latas ou garrafas de Coca-Cola em todo o mundo, segundo dados da própria empresa. O Império Coca-Cola vende suas 500 marcas em mais de 200 países. Quem garantiria isso a John S. Pemberton, quando, em 1886, projetou tão exitosa poção em uma pequena farmácia de Atlanta. Hoje, ao contrário, a multinacional já não vende apenas uma bebida, mas muito mais. Através de campanhas multimilionárias de marketing, a Coca-Cola vende algo tão precioso como “a felicidade”, “a faísca da vida” ou “um sorriso”. Entretanto, nem seu Instituto Coca-Cola da Felicidade é capaz de esconder toda a dor que a companhia causa. Seu currículo de abusos sociais e trabalhistas percorre, assim como seus refrigerantes, todo o mundo.

Agora chegou a vez do Estado Espanhol. A companhia acaba de anunciar um Expediente de Regulação de Emprego que implica no fechamento de quatro de suas onze fábricas, a demissão de 1.250 trabalhadores e a recolocação de outros 500. Uma medida tomada, segundo a multinacional, “por causas organizacionais e produtivas”. Um comunicado de CCOO, ao contrário, desmente esta afirmação, e assinala que a empresa tem lucros de cerca de 900 milhões de euros e um faturamento de mais de três bilhões de euros.

As más práticas da empresa são tão globais como a sua marca. Na Colômbia, desde 1990, oito trabalhadores da Coca-Cola foram assassinados por paramilitares e outros 65 receberam ameaças de morte, segundo o Relatório Alternativo da Coca-Cola, elaborado pela organização War on Want. O sindicato colombiano Sinaltrainal denunciou que atrás destas ações encontra-se a multinacional. Em 2001, o Sinaltrainal, através do International Labor Rights Fund e a United Steel Workers Union, conseguiu interpor nos Estados Unidos uma demanda contra a empresa por estes casos. Em 2003, a corte indeferiu o pedido alegando que os assassinatos aconteceram fora dos Estados Unidos. A campanha do Sinaltrainal, de qualquer maneira, havia conseguido numerosos apoios.

Os rastros de abusos da Coca-Cola encontram-se praticamente em cada canto do mundo onde está presente. No Paquistão, em 2001, vários trabalhadores da fábrica de Punyab foram demitidos por protestar e as tentativas de sindicalização de seus trabalhadores em Lahore, Faisal e Gujranwala chocaram-se com os impedimentos da multinacional e da administração. Na Turquia, seus empregados denunciaram, em 2005, a Coca-Cola por intimidação e torturas e por utilizar um ramo especial da polícia para estes fins. Na Nicarágua, no mesmo ano, o Sindicato Único de Trabalhadores (SUTEC) acusou a multinacional de não permitir a organização sindical e fazer ameaças de demissões. E casos similares encontramos na Guatemala, Rússia, Peru, Chile, México, Brasil, Panamá. Uma das principais tentativas para coordenar uma campanha de denúncia internacional contra a Coca-Cola aconteceu em 2002, quando sindicatos da Colômbia, Venezuela, Zimbábue e Filipinas denunciaram conjuntamente a repressão sofrida por seus sindicalistas na Coca-Cola e as ameaças de sequestros e assassinatos recebidas.

A companhia não é conhecida exclusivamente por seus abusos de trabalho, mas também pelo impacto social e ecológico das suas práticas. Como ela mesma reconhece: “A Coca-Cola é a empresa da hidratação. Sem água, não há negócio”. E esta suga até a última gota ali onde se instala. De fato, para produzir um litro de Coca-Cola, requer-se três litros de água. E não apenas para a bebida, mas para lavar garrafas, máquinas... Água que depois é descartada como água contaminada, com o consequente prejuízo ambiental. Para saciar sua sede – uma engarrafadora da Coca-Cola pode chegar a consumir até um milhão de litros de água por dia –, a empresa toma unilateralmente o controle de aquíferos que abastecem comunidades locais deixando-as sem um bem tão essencial como a água.

Na Índia, vários Estados (Rajastão, Uttar Pradesh, Kerala, Maharastra) encontram-se em pé de guerra contra a multinacional. Vários documentos oficiais assinalam a diminuição drástica dos recursos hídricos ali onde se instalou, acabando com a água para o consumo, a higiene pessoal e a agricultura, sustento de muitas famílias. Em Kerala, em 2004, a fábrica de Plachimada da Coca-Cola foi obrigada a fechar depois que o município negou a renovação da sua licença acusando a companhia de esgotar e contaminar a sua água. Meses antes, o Supremo Tribunal de Kerala sentenciou que a extração massiva de água pela Coca-Cola era ilegal. Seu fechamento foi uma grande vitória para a comunidade.

Casos similares aconteceram em El Salvador e Chiapas, entre outros. Em El Salvador, a instalação de fábricas de engarrafamento da Coca-Cola esgotaram recursos hídricos após décadas de extração e contaminaram aquíferos ao despejar a água não tratada destas fábricas. A multinacional sempre recusou assumir responsabilidade sobre o impacto de suas práticas. No México, a companhia privatizou numerosos aquíferos, deixando as comunidades locais sem acesso aos mesmos, graças ao apoio incondicional do Governo de Vicente Fox (2000-2006), ex-presidente da Coca-Cola México.

O impacto de sua fórmula secreta sobre a nossa saúde também está extensamente documentado. Suas altas doses de açúcar não nos beneficiam e nos convertem em dependentes da sua poção. E o uso do aspartame, edulcorante não calórico substitutivo do açúcar, na Coca-Cola Zero, foi demonstrado, como assinala a jornalista Marie Monique Robin em seu documentário “Nosso veneno diário”, que consumida em altas doses pode ser cancerígeno. Em 2004, a Coca-Cola na Grã-Bretanha viu-se obrigada a retirar, após seu lançamento, a água engarrafada Dasani, depois que se descobriu em seu conteúdo níveis ilegais de bromuro, substância que aumenta o risco de câncer. A empresa teve que tirar de circulação meio milhão de garrafas, que havia anunciado como “uma das águas mais puras do mercado”, apesar de que um artigo na revista The Grocer assinalasse que sua fonte era água tratada das torneiras de Londres.

Os tentáculos da Coca-Cola, assim mesmo, são tão grandes que, em 2012, uma das suas diretoras, Ángela López de Sá, chegou à direção da Agência Espanhola de Segurança Alimentar. Que postura terá, por exemplo, a Agência diante do uso do aspartame quando a empresa, que até dois dias lhe pagava o salário à sua atual diretora, o usa sistematicamente? Conflito de interesses? Já assinalávamos isso antes no caso de Vicente Fox.

A marca que nos diz vender felicidade, antes reparte pesadelos. A Coca-Cola é assim, diz o anúncio. Assim é e assim contamos os fatos.

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