Quem quer comer uma maçã geneticamente modificada?

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Por: André | 20 Janeiro 2014

Quem quer comer maçãs geneticamente modificadas? Esta é mais ou menos a pergunta que, nos EstadosUnidos, é feita ao público, que tem justamente até o dia 30 de janeiro para dar sua opinião sobre uma nova planta genética proposta para o consumo humano, no caso a maçã. O Ministério da Agricultura (USDA) está estudando a liberação de duas variedades produzidas pela empresa de biotecnologia canadense Okanagan Specialty Fruits (OSF): uma Golden e uma Granny Smith. Planejadas para serem comercializadas sob a marca Arctic Apples, essas maçãs geneticamente modificadas não tem algo a mais em relação às outras, mas algo a menos: elas não escurecem.

 
Fonte: http://bit.ly/1i52vvT  

A reportagem é de Pierre Barthélemy e publicada no jornal francês Le Monde, 15-01-2014. A tradução é de André Langer.

Se você alguma vez já preparou uma salada de frutas com antecedência com pedaços de maçãs, teve que se lamentar em vista do resultado esteticamente calamitoso que você constatou ao servi-la: a polpa da fruta escureceu, como se ela tivesse enferrujado. A mesma coisa deve ter acontecido se, porventura, deu uma mordida em alguma maçã e a deixou alguns minutos para fazer outra coisa. Ao pegá-la novamente para comer, deve ter notado que, na parte mordida, marcas de cor caramelada apareceram.

Para compreender o que se produz, basta um pequeno recurso à química. Quando a maçã é machucada, quer seja por um choque, pela lâmina de uma faca ou por seus dentes, as paredes das células são quebradas, liberando compostos fenólicos contidos em seu interior. Na célula encontra-se também uma enzima, a polifenol oxidase (PPO). Um terceiro elemento intervém: o oxigênio do ar. Ao seu contato, e com a ajuda da PPO, os compostos fenólicos se oxidam e se transformam... em pigmentos, o que faz surgir a cor marrom. Os químicos chamaram a reação de ‘escurecimento enzimático’. Para impedir ou retardar esse processo, muitas alternativas são conhecidas. Para a salada de frutas, recomenda-se o suco de limão (cujo ácido ascórbico tem propriedades antioxidantes) e a conservação na geladeira, que retarda o processo. Para as preparações mais industriais de frutas cortadas existem outras soluções: o armazenamento a vácuo, que elimina o oxigênio, ou a adição de conservantes.

E agora existe a resposta OGM que consiste em impedir o escurecimento removendo um dos seus agentes. Uma solução tão simples quanto radical. Como seria estúpido remover os compostos fenólicos – porque além de proteger a fruta dos ataques de pragas, esses compostos lhe conferem aroma e gosto –, os pesquisadores da OSF tomaram o PPO como alvo. Embora o genoma completo da maçã só fosse publicado em 2010, os cientistas conheciam há muitos anos os quatro genes responsáveis pela produção desta enzima. A OSF escolheu não retirar esses genes, mas reduzi-los ao silêncio impedindo-os de se manifestarem.

Pode parecer desproporcional criar um organismo geneticamente modificado por razões estéticas, mas a OSF desenvolveu uma argumentação bem afiada, em dois pontos, para justificar a colocação no mercado de suas maçãs geneticamente modificadas. Um aspecto econômico, em primeiro lugar, porque as frutas que não escurecem após um machucado não têm essas marcas que impedem sua comercialização e mandam toneladas de frutas ao lixo. E um aspecto dietético, em segundo lugar, com o término do efeito “beurk”, devido à descoloração das maçãs, efeito que afasta as frutas de muitos consumidores e especialmente dos mais jovens.

Um primeiro debate público aconteceu em 2012. Apareceram especialmente inquietações relacionadas à saúde humana e ao meio ambiente. O Ministério da Agricultura dos Estados Unidos descartou-as afirmando, após análise que fez dos documentos fornecidos pela OSF, que as maçãs transgênicas em questão não apresentam nenhum perigo sob este ponto de vista, sem dúvida porque essas frutas, contrariamente a outros OGM, não produzem nova proteína. Os produtores americanos de maçãs também se manifestaram dizendo temer a polinização acidental de suas árvores. O argumento não é de boa fé dado que o grosso das macieiras é obtido por enxerto (que é uma forma de clonagem) e não pela plantação de caroços. É, portanto, bem provável que, apesar das numerosas reticências, as maçãs da OSF obtenham sua autorização do USDA.

O Ministério da Agricultura, por sua vez, não respondeu a uma pergunta feita na primeira consulta pública: ao anular a PPO, não se corre o risco de provocar uma redução das defesas naturais da planta em relação a doenças ou a pragas? Além disso, a PPO e o escurecimento enzimático que ela provoca não têm um papel biológico que se estaria desconsiderando nesse assunto? É a própria OSF quem respondeu a essa questão, explicando duas coisas: primeira, que nenhum enfraquecimento das defesas vegetais foi notado nos experimentos realizados durante anos e, segunda, que, embora a PPO exercesse um papel defensivo no tomate, esse não seria o caso da maçã. Nesta fruta, a enzima seria apenas um fóssil, a herança “inútil” de um ancestral vegetal distante.

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