Tempo de deslocamento define o que é periferia ou centro

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15 Janeiro 2014

Um paulistano demora, em média, 43 minutos para ir de casa ao trabalho todos os dias. E a população mais pobre demora 20% mais tempo que os mais ricos para fazer a viagem, segundo o Ipea.

A reportagem é de Thiago Borges e publicada pelo sítio Periferia em Movimento, 14-01-2014.

Milhares de brasileiros saíram às ruas no ano passado durante as jornadas de junho. Causas diversas e muitas vezes superficiais, mas que surgiram após um movimento reivindicatório antigo, pela tarifa zero. Os protestos realizados pelo Movimento Passe Livre (MPL) e outros movimentos populares das periferias são contra as catracas do transporte e, mais que isso, contra as barreiras para se usufruir a cidade.

Mas, mais do que o espaço a ser ocupado na cidade, é o tempo que define quem está dentro ou fora da festa urbana.

Um levantamento do jornal Estado de S. Paulo mostra que o tempo de deslocamento de casa para o trabalho é até 163% maior na periferia da capital paulista. Enquanto um morador de Moema (bairro nobre de São Paulo) leva em média 34 minutos para ir de casa ao trabalho, o tempo mais que dobra para moradores de Cidade Tiradentes (1h19min), Grajaú (1h16min) ou Itaim Paulista (1h07min).

Segundo um estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), São Paulo fica atrás apenas de Xangai, na China, quando o assunto é o tempo gasto nesse percurso. Um paulistano demora, em média, 43 minutos para ir de casa ao trabalho todos os dias. E a população mais pobre demora 20% mais tempo que os mais ricos para fazer a viagem, segundo o Ipea.

O estudo aponta deficiências no sistema de mobilidade urbana, mas ainda que recentemente governo federal e prefeitura municipal tenham anunciado investimentos de R$ 3 bilhões em transporte público a situação só vai mudar quando as desigualdades sociais forem atacadas.

“A cidade é um jogo, e esse jogo não se define pela localização em seu espaço, mas pelo tempo que se tem para usufruir desses espaços”, observa Tiaraju D’Andrea, doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e morador de Itaquera (zona leste). “Toda discussão sobre valorização de um imóvel, por exemplo, tem como pano de fundo o tempo gasto para se deslocar na cidade”, diz ele.

D’Andrea aponta que o processo de formação das periferias está ligado à ressignificação de territórios urbanos pelo mercado imobiliário.

No sistema capitalista, o amontoado de terra chamado ‘cidade’ é mais uma mercadoria a ser vendida. E esse preço é estabelecido pelo espaço: se há favela por perto, o preço cai. Mas o imóvel se “valoriza” quando há metrô, parques, shopping centers ou outras “melhorias” no entorno.
 
Novos centros, novas periferias

A ideia de periferia surge na Guerra Fria, quando duas potências – Estados Unidos e União Soviética – disputavam a influência sobre o restante do globo. Esse conceito foi aplicado às cidades para definir suas geografias. Mas o significado se modificou ao longo do tempo.

“No caso da cidade de são Paulo, dizer que periferia e centro são diferenças geográficas não resolve muito, porque o que vai diferenciar um do outro são características sociais dessa periferia e desse centro”, observa D’Andrea.

Em São Paulo, por exemplo, há extensas periferias distantes do centro com características de empobrecimento. Mas, ao mesmo tempo, o centro geográfico da cidade também apresenta essas características. A diferença é o acesso a equipamentos públicos, culturais e infraestrutura urbana, que não existem nas regiões mais afastadas.

Ao longo das décadas, o verdadeiro centro de São Paulo – o financeiro, ao redor do qual orbitam os investimentos públicos e privados e as vagas de emprego – se deslocou duas vezes. Primeiro, passou da região da Praça da Sé para a avenida Paulista. Depois, se estabeleceu no perímetro entre a Paulista e a várzea do rio Pinheiros, entre as avenidas Faria Lima, Luiz Carlos Berrini e Chucri Zaidan – e deve se estender pelas Nações Unidas até a avenida Interlagos.

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