O Islã político fracassou no Egito, afirma o Patriarca Sidrak

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Por: André | 16 Dezembro 2013

Ibrahim Sidrak (na foto) foi eleito Patriarca de Alexandria pelos coptas católicos em janeiro passado. Desde então, tanto no Egito como na Igreja, não faltaram imprevistos e surpresas de todo tipo. E antes do próximo mês de janeiro, acontecerá um referendo sobre a nova Constituição.

 
Fonte: http://bit.ly/18QkgcI  

A entrevista é de Gianni Valente e publicada no sítio Vatican Insider, 14-12-2013. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

No rascunho da nova Constituição do Egito foram incluídos também os princípios da Sharia como ‘fonte principal’ da legislação. Para vocês, representa um problema?

A referência aos princípios da Sharia era dada como certa. O importante é a interpretação desta referência jurídica geral. A Constituição anterior, proposta pela Irmandade Muçulmana, no artigo 29 dizia que a Lei do Corão tinha que ser interpretada segundo a jurisprudência elaborada durante os primeiros séculos do Islã. Assim se favorecia a interpretação das escolas corânicas mais rígidas, próximas dos salafitas. Agora esse artigo foi tirado, e a interpretação dos princípios recai sobre a Corte Constitucional.

Há novos elementos que possam interessar as comunidades cristãs?

O texto tutela a liberdade de construção de lugares de culto e o respeito dos regulamentos, e isto é uma novidade. Aos cristãos e aos judeus será garantida a defesa dos seus próprios princípios religiosos para regular as questões relativas ao estatuto pessoal e comunitário. Deste ponto de vista, nós havíamos pedido que esta possibilidade fosse reconhecida para todas as comunidades religiosas minoritárias. Mas, evidentemente que não queriam conceder espaço aos xiitas e aos alauitas.

Segundo os críticos, a Constituição apoiará juridicamente os superpoderes do Exército. É verdade?

Os militares no Egito não são mercenários dirigidos por um grupo de poder exterior. São filhos do nosso povo. Não desejam governar. Agora estão protegendo as mudanças que estão havendo, na expectativa de ver se sai uma direção política à altura. Sem esta tutela, nesta fase delicada, tudo poderia explodir em caos.

No novo texto constitucional está incluída a proibição de criar partidos religiosos. É uma medida de castigo contra a Irmandade Muçulmana?

As forças islâmicas estarão obrigadas a usar uma linguagem mais adequada, que evite fórmulas discriminatórias com base na religião. Mas, claro que não desaparecerão por isto. Deverão encontrar novos caminhos.

Em qualquer caso, diz-se que no caso do Egito, uma certa parte do Islã político está perto de se extinguir. Você concorda com esta percepção?

A Irmandade Muçulmana esperou 80 anos para chegar ao poder, e, depois, em um ano queimou tudo. Durante muito tempo construiu uma presença básica em nível social entre as classes mais pobres do povo. Foram hábeis em conseguir levantar a multidão, mas depois não foram capazes de guiá-la e governá-la. Prevaleceram sobre os outros com o método democrático, porque eram os únicos bem organizados em um momento de confusão e vazio político. Mas, uma vez que chegaram ao poder, esqueceram a democracia e quiseram tomar as rédeas de tudo. Seu governo não caiu por um obscuro golpe de Estado. Para mandá-los para casa, 30 milhões de egípcios manifestaram-se nas ruas. Ago até agora nunca visto.

Entre cristãos do Egito, às vezes existem certos excessos de polêmica contra os muçulmanos que vêm, sobretudo, de membros das comunidades que vivem no Ocidente...

Estes grupos representam a si mesmos, e, em qualquer caso, não representam a posição oficial da Igreja. Parece-me fora de lugar organizar grupos de pressão no exterior que depois pretendem falar em nome dos coptas que se encontram no Egito. Mesmo se às vezes os argumentos que defendem acertam no alvo. No Egito, ainda não somos livres, é preciso reconhecer isto. Estou falando de liberdade substancial, vivida, concreta.

Mas os coptas, em sua Pátria, ainda têm necessidade de ‘demonstrar’ que não são um corpo estranho, que não fazem parte de grupos estrangeiros?

Em agosto, quando houve a onda de assaltos às igrejas, nenhum cristão egípcio fez um apelo para pedir ajuda ou intervenção estrangeira, e ninguém reagiu usando tons de guerra religiosa. Junto com o Patriarca copta ortodoxo Tawadros e com os protestantes, dissemos que o ataque às igrejas era um ataque a todo o Egito, não apenas aos cristãos. Nossa reação, longe de qualquer sectarismo, abriu os olhos de muitos muçulmanos. Reconheceram que só os verdadeiros egípcios podiam comportar-se assim. Se tivéssemos reagido de outra forma, de maneira sectária, a Irmandade Muçulmana teria podido dizer: aqui está a prova, eles são o inimigo, os verdadeiros autores do complô contra o governo de Morsi.

A missa que você celebrou com o Papa no dia 09 de dezembro teve um significado especial...

Na Capela da Casa Santa Marta estavam presentes os bispos coptas católicos e também um grupo de leigos vindos do Egito. Eu, quando em janeiro fui eleito Patriarca, recebi na sequência a ‘Ecclesiastica Communio’ do Papa Bento XVI. Mas aquela comunhão, como manda a antiga tradição, vem concretizada com o sacramento da Eucaristia. Depois se deu a renúncia de Bento XVI, o conclave e a eleição de Bergoglio como sucessor de São Pedro. O Papa Francisco confirmou sua particular preocupação com as Igrejas católicas do Oriente e quis celebrar pessoalmente a missa que manifestava sacramentalmente a nossa comunhão com a Igreja de Roma. Normalmente, nesses casos, os papas delegam sua representação a um cardeal.

Em 21 de novembro, vocês, os chefes das Igrejas católicas do Oriente, tiveram uma longa reunião de trabalho com o Bispo de Roma. Como foi?

Durante meio-dia, o Papa Francisco nos ouviu e falou conosco. Era a primeira vez que eu participava de um encontro deste tipo. Os outros me disseram que desta vez não houve nenhum formalismo e as coisas estavam sendo ditas de maneira clara, com total liberdade, sem muita ‘diplomacia’. Não foi possível falar de tudo, muitas coisas ficaram de fora. Por este motivo, propôs-se formalizar esta reunião de Patriarcas e Arcebispos junto com o Bispo de Roma, criando um organismo semelhante à comissão dos oito cardeais, o chamado C8, para realizar reuniões periódicas que serão convocadas quando houver problemas concretos a serem resolvidos de maneira operacional.

Como continuarão as relações ecumênicas com a Igreja copta ortodoxa?

Com a eleição do Patriarca Tawadros começou uma nova fase. Mas eles continuam a batizar novamente os coptas católicos que decidirem passar à sua Igreja. Tawadros mostra-se disponível para estudar e discutir esta prática, que para nós representa uma ferida e contradiz qualquer discurso sobre a unidade dos cristãos. Mas as coisas não mudam de um dia para outro.

Você também, assim como Tawadros, convidou o Papa Francisco para visitar o Egito.

Seria um acontecimento bonito e importante. Espero que receba também o convite oficial por parte do Governo.

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