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“Estamos vivendo uma contra reforma agrária”

O Largo da Carioca, no Centro do Rio, transformou-se em palco da agricultura campesina e da cultura popular neste início de semana. Embalados por sons de diferentes regiões do Brasil, agricultores e consumidores estão tendo a chance de romper a distância estabelecida pelas grandes cadeias de supermercados e conectar as duas pontas da alimentação: a produção e o consumo.

A reportagem é de Alan Tygel e Camila Nobrega e publicado pelo Canal Ibase, 10-12-2103.

O encontro é resultado da IV Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, que termina nesta terça-feira (10/12). Agricultoras e agricultores de assentamentos de todo o Estado do Rio de Janeiro trouxeram diferentes produtos, como verduras, legumes, além de alimentos beneficiados e processados. A procura foi tanta que alguns produtores venderam tudo no primeiro dia de feira.

- Não esperávamos tanta procura e tanta aceitação dos produtos da reforma agrária – afirmou Ivi Tavares, do Coletivo de Saúde do MST.

Xampus, condicionadores, tinturas e xaropes do coletivo fizeram sucesso. Em meio a um sistema de produção agrícola massificado e controlado por grandes empresas, a diversidade de cultivos exposta na feira surpreende, como explicou a administradora Tânia Regina Alcindo, que trabalha no Centro e visitou a feira:

- Eu sei o que é reforma agrária, claro, mas não pensava tanto na relação dela com as coisas que eu como em casa, por exemplo. Foi um barato vir à feira e descobrir essa quantidade toda de culturas. Nós ficamos tão viciados na praticidade do supermercado que até esquecemos da saúde. Nem sabemos de onde vêm os alimentos. Aqui é diferente, adorei – contou ela.

Segundo o especialista em segurança alimentar e pesquisador do Ibase Chico Menezes, eventos desse tipo cumprem um papel de unir as duas pontas, da produção da reforma agrária e dos consumidores. Para ele, é uma forma inteligente e leve de mostrar que os dois grupos tem muito em comum.

- Aquilo que estes pequenos agricultores oferecem é desejado e apreciado pelos consumidores. É, também, uma forma de enfrentar a permanente desqualificação que os setores mais retrógrados da sociedade tentam colar na reforma agrária. É um momento em que não se trata tanto de fazer discursos ou distribuir panfletos, mas de se mostrar o que está sendo produzido e oferecer alimentos e bebidas de boa qualidade e boa música, bem no centro da cidade.

Entre outras atrações, passaram pelo local os blocos Samba Brilha, Tambores de Olokum e Apafunk. Nesta terça-feira, o evento será encerrado ao som da roda de coco do grupo Zanzar e dos grupos Terreirada Cearense e Caramuela, todos representantes da cultura popular brasileira. Afinal, a valorização da diversidade dos alimentos cultivados pelos pequenos agricultores passa também por uma outra perspectiva de cultura de uma forma geral. O saber tradicional se verifica nas suas mais diversas formas de expressão.

No caso do campo, a maior luta é contra a massificação imposta pela monocultura do agronegócio, como afirmou o coordenador da Concrab, cooperativa nacional que comercializa os produtos do MST, Milton Fornazieri:

- O papel do assentamento é produzir alimento saudável. Mas isso é cada vez mais difícil no Brasil, com o avanço do agronegócio.

Gustavo Noronha, superintendente do INCRA, ressaltou a tristeza pela ausência do militante Cícero Guedes, homenageado pela feira, mas comemorou a possibilidade de poder mostrar “a reforma agrária que dá certo”. Já o representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário, José Otávio, lembrou de Sebastião Lan, que foi assassinado nas mesmas circunstância de Cícero, há 10 anos:

- A culpa é da estrutura agrária brasileira. É do executivo, do legislativo, e principalmente do Judiciário, que é incapaz de se pronunciar sobre a desapropriação da Fazenda Cambahyba.

O diretor Nacional do MST Marcelo Durão, afirmou que estamos passando pelo pior período para a reforma agrária no país:

- Já podemos falar de uma contra reforma agrária. Não conseguimos mais conquistar territórios, e estamos perdendo os que tínhamos, especialmente com os indígenas e os quilombolas.

Atualmente, indígenas e quilombolas sofrem uma grave situação de insegurança alimentar, o que está diretamente relacionado com a perda de territórios. Sem ter onde produzir, as populações ficam completamente expostas à fome. Por outro lado, crescem os grandes latifúndios brasileiros e vê-se um afrouxamento da legislação ambiental, com o objetivo de permitir a expansão do agronegócio. Alguns alimentos estão desaparecendo, ao serem preteridos em função da monocultura, e cresce o uso de agrotóxicos para manter este modelo de produção. O Brasil é hoje um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo.

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