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03 Dezembro 2013

O modelo de Igreja de Francisco é de uma Igreja mais participativa e aberta, mais descentralizada e fluida, mais disposta a assumir riscos, menos preocupada com a conformidade doutrinal, menos clerical. Mas acima de tudo, centrada em Cristo.

Publicamos aqui o editorial da revista católica britânica The Tablet, 28-11-2013. A tradução, da versão italiana do editorial, é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O plano que o Papa Francisco quer que a Igreja Católica siga tem aparecido peça por peça desde a sua eleição em março, mas agora ele o definiu em detalhes. Ele quer uma mudança da cultura e do caráter da Igreja, uma mudança de suas prioridades e uma mudança de suas estruturas. Ele quer uma Igreja que não seja sonâmbula, nem que marche na cadência dos outros, mas que vá para fora, para o mundo, sujando seus sapatos com a lama das ruas, para entregar a mensagem do cuidado infinito de Deus para cada pedacinho do mundo.

Naquela que não é tanto uma reversão do "nós" papal da tradição, mas sim uma exclamação de alegria em nome de toda a Igreja, ele declara: "Nós amamos este magnífico planeta onde Deus nos colocou…". É um exemplo da exuberância contagiante através da qual, por inúmeros gestos eloquentes, ele já tocou os corações de milhões de pessoas em todo o mundo.

Tecnicamente chamada de exortação apostólica, a Evangelii gaudium é literalmente isto também: o papa que exorta alegremente o seu rebanho a repensar quase tudo o que faz em busca de seu objetivo-chave, a evangelização. Mas ao fazê-lo, ele redefine isso não como um processo de "igrejificação", mas como quase o oposto. Velhas certezas e formas familiares, todas caem sob o chicote de sua prosa, às vezes, fulminante. "Mais do que como peritos em diagnósticos apocalípticos ou juízes sombrios que se comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, é bom que possam nos ver como mensageiros alegres de propostas altas, guardiões do bem e da beleza que resplandecem em uma vida fiel ao Evangelho".

Igreja de compaixão e misericórdia

Ao contrário daqueles que igualam a evangelização simplesmente com encorajar as pessoas que já vão à Igreja, ele inclui "os fiéis que conservam uma fé católica intensa e sincera, expressando-a de diversos modos, embora não participem frequentemente do culto". Lembrando aos sacerdotes que o confessionário não deve se tornar uma "câmara de tortura", ele elogia quem dá "um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas", que pode ser mais agradável a Deus "do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades". Esse é um estilo pastoral que se recusa a deixar o "melhor" se colocar como o inimigo do "bom". "A Eucaristia", diz ele, "embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos".

O Papa Francisco iniciou um grande debate em toda a Igreja sobre a forma como trata os divorciados em segunda união – se devem continuar a serem excluídos de receber a Sagrada Comunhão, como dizem as regras. Com observações como essa, não é difícil ver de que lado ele está. Mas também está claro que essa questão vai muito mais além: como a Igreja considera os seus membros que não obedecem todos os detalhes de todos os aspectos de seu ensino moral – ou seja, a maioria deles: homossexuais, heterossexuais, solteiros, casados, divorciados, celibatários, coabitantes, usuários de contraceptivos e assim por diante.

A Igreja deve mostrar-lhes compaixão e misericórdia. É assim que ela os evangeliza. Mas ao insistir que o novo estilo de evangelização que ele quer ver tem a ver com a inclusão e não com a exclusão, o Papa Francisco está abrindo questões para as quais ele pode não estar preparado. A misericórdia pode ser uma boa política pastoral, mas não equivale a uma nova ética sexual. E se, por exemplo, a encíclica sobre controle de natalidade de 1968, Humanae Vitae, estivesse simplesmente errada? Isso é o que a grande maioria dos católicos que participaram da atual consulta (lineamenta) parecem estar dizendo.

Implicações de longo alcance ao priorizar os pobres

Se há raiva na alma do Papa Francisco, ele não a tem para aqueles cujas vidas privadas não se conformam com algum ideal católico, mas para aqueles que exploram os pobres e aumentam a sua pobreza. Em um documento que teria sido mais acessível se tivesse sido muito mais curto, essa é uma área em que ele precisava dizer mais. Nem neoconservadores nem neoliberais – por vezes as mesmas pessoas – vão gostar do seu ataque feroz à devastação provocada pelo livre mercado, mas ele não diz o suficiente para se defender contra farpas óbvias.

"A ambição do poder e do ter não conhece limites", declara ele. "Nesse sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa diante dos interesses de um mercado divinizado, transformados em regra absoluta". Isso tem a virtude da fala direta, mas não tem a experiência política e a nuance econômica da Caritas in veritate, do Papa Bento XVI, de 2009. Ainda mais do que os ricos, os pobres precisam da criação de riqueza que as economias de mercado podem fornecer, embora empresas globais devam servir claramente ao bem comum, assim como ter lucros.

No entanto, o mais importante daquilo que o Papa Francisco fala sobre as questões sociais e econômicas está na maneira como ele dissolve as fronteiras entre evangelização e trabalho pela justiça social, para que se tornem dois aspectos da mesma coisa. E isso é impulsionado por sua paixão pelos pobres.

"Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres", diz. "Estes têm muito para nos ensinar. Além de participar do sensus fidei, nas suas dores conhecem Cristo sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles". Esse privilégio dos pobres no esquema da salvação é uma visão distintamente própria de Francisco. Ele sugere que a fé cristã – que não esteja apegada às necessidades dos pobres e que não esteja comprometida em acompanhá-los em seu caminho para a libertação, tanto pessoal quanto pela reforma fundamental da estrutura econômica – é oca. Isso tem implicações de longo alcance para a maneira como os católicos comuns vivem a sua fé e para cada camada da administração da Igreja, das paróquias locais ao próprio Vaticano.

Cristo no centro

O papa admite que não tem a intenção de assinalar cada item e convida especificamente a uma ajuda externa – mesmo para a reforma do papado – no movimento da Igreja para a frente. Seu modelo de Igreja é de uma Igreja mais participativa e aberta, mais descentralizada e fluida, mais disposta a assumir riscos, menos preocupada com a conformidade doutrinal, menos clerical. Mas acima de tudo, centrada em Cristo.

Francisco é um verdadeiro evangélico na ênfase que coloca em um relacionamento pessoal com Cristo e um verdadeiro católico no papel que vê para a devoção popular, especialmente para a Virgem a quem ele chama de "a Mãe da Evangelização". Sempre que olhamos para Maria, declara Francisco, passamos a acreditar mais uma vez "na força revolucionária da ternura e do afeto". Essas últimas palavras encapsulam, em palavras e atos, o que este papado passou a representar.

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