Sínodo: o debate está aberto. Artigo de Fulvio De Giorgi

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02 Dezembro 2013

O Sínodo é chamado a desenvolver a compreensão do depósito da fé de modo mais pleno e aprofundado, para chegar a novas e mais satisfatórias soluções pastorais, a fim de que refulja, na plena caridade evangélica, a beleza sacramental.

A opinião é do historiador italiano Fulvio De Giorgi, professor de história da pedagogia da Universidade de Modena e Reggio Emilia. Foi membro do Conselho Pastoral Diocesano da Igreja de Milão. O artigo foi publicado no sítio Viandanti, 27-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A grande contribuição de Dom Müller (prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé), que foi publicada no L'Osservatore Romano do dia 23 de outubro passado, acerca das questões que estarão no centro do próximo Sínodo Extraordinário, foi objeto de diversos comentários na imprensa cotidiana italiana. Alguns até apresentaram tal intervenção como uma correção do magistério do papa. Deixando a cada um a responsabilidade pelas próprias interpretações, gostaria de propor uma leitura diferente que parte do pressuposto de que as Congregações da Cúria (incluindo a da Doutrina da Fé) são o que, nos exércitos, se chama de "intendência", isto é, a serviço da Santa Sé.

Uma tarefa específica do Sínodo

Meritoriamente, portanto, Dom Müller redigiu o status quaestionis: resumiu com precisão o magistério, sobretudo o magistério recente. Foi mais rápido (como era inevitável para um artigo de jornal) sobre a parte histórico-teológica, certamente destinada a maiores aprofundamentos depois. Não tocou em nada, além disso, uma leitura dos sinais dos tempos, um discernimento da realidade atual dos processos históricos em curso e dos problemas mais dolorosos para os fiéis, uma análise sobre a condição histórica de hoje: de fato, essa certamente será uma das específicas do Sínodo.

Os níveis de leitura das questões, de fato, são diferentes. E a conclusão coral do episcopado, mas também das famílias e dos fiéis, é previamente necessária, a fim de ter muitos elementos para um aprofundamento pastoral de tais processos históricos.

Deus está no processo da história

O papa afirmou: "Deus se manifesta em uma revelação histórica, no tempo. O tempo inicia os processos, o espaço os cristaliza. Deus se encontra no tempo, nos processos em curso. Não é preciso privilegiar os espaços de poder com relação aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos iniciar processos, mais do que ocupar espaços. Deus se manifesta no tempo e está presente nos processos da história. Isso faz privilegiar as ações que geram dinâmicas novas [...] Se o cristão é restauracionista, legalista, se quer tudo claro e seguro, então não encontra nada. A tradição e a memória do passado devem nos ajudar a ter a coragem de abrir novos espaços para Deus. Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à 'segurança' doutrinal, quem busca recuperar obstinadamente o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E desse modo a fé se torna uma ideologia entre tantas. Eu tenho uma certeza dogmática: Deus está na vida de cada pessoa. Deus está na vida de cada um. Mesmo se a vida de uma pessoa foi um desastre, se se encontra destruída pelos vícios, pela droga ou por qualquer outra coisa, Deus está na sua vida. Pode-se e deve-se procurar na vida humana. Mesmo se a vida de uma pessoa é um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, há sempre um espaço onde a semente boa pode crescer. É preciso confiar em Deus".

Crescer na compreensão

Portanto, Dom Müller, na realidade, marcou utilmente o ponto até agora alcançado, a partir do qual a Igreja se moverá para crescer e se desenvolver ainda mais. O papa, de fato, afirma novamente: "São Vicente de Lérins faz a comparação entre o desenvolvimento biológico do homem e a transmissão de uma época à outra do depositum fidei, que cresce e se consolida com o passar do tempo. Eis: a compreensão do homem muda com o tempo e assim também a consciência do homem se aprofunda. Pensemos no tempo em que a escravidão era aceita ou a pena de morte era admitida sem nenhum problema. Portanto, cresce-se na compreensão da verdade. Os exegetas e os teólogos ajudam a Igreja a amadurecer o próprio juízo. As outras ciências e a sua evolução também ajudam a Igreja nesse crescimento na compreensão".

Colocando-se no nível teológico, justamente Dom Müller ressalta que a reflexão não pode se separar da realidade essencial do sacramento do matrimônio, que implica a sua indissolubilidade. Mas, ao mesmo tempo, com Bento XVI, lembra que a questão dos divorciados em segunda união é "um problema pastoral espinhoso e complexo". No paradigma tridentino pré-conciliar, de fato, a prática pastoral derivava de modo claro e seguro da "segurança doutrinal" (que, então, fornecia perspectivas adequadas aos tempos e à eclesiologia relativa) e era: os divorciados em segunda união vivem em pecado mortal, e para eles não há salvação.

Com João Paulo II e com Bento XVI, percebeu-se a insuficiência humana de tal abordagem, e, à luz do Concílio, veio à tona que, se a proposta eclesial se detivesse a isso, seria legalista e distante das vivências reais. Iniciou-se, portanto, uma nova via: de acolhida, de misericórdia, de discernimento entre "as diversas situações" (Familiaris consortio, 84).

Assim, Bento XVI não disse aos divorciados em segunda união: vocês vivem em pecado mortal e para vocês não há salvação, mas disse: "Saibam que o papa e a Igreja apoiam vocês na sua fadiga". O ponto de vista se desenvolveu, crescendo em profundidade de caridade cristã e em capacidade de leitura séria de vivências e de histórias pessoais. E agora?

O ponto nodal da Eucaristia

Eu não acredito que o caminho deva parar. Há o grande ponto nodal da Eucaristia aos divorciados em segunda união: até agora, como Dom Müller bem destaca, excluída. Mas essa exclusão, se era coerente com o velho paradigma, não parece tão interna à abordagem de João Paulo II e de Bento XVI. Sem a presunção de ter soluções claras e seguras, assinalo duas dificuldades.

Se se admitissem percursos de vida cristã, ou seja, que levam à salvação, mas que prescindem da Eucaristia, abrem mão dela, isso produziria – na Igreja – dois caminhos separados, mas ambos eclesiais, para a salvação: uma eucarística e uma extraeucarística. Mas, então, qual seria a relação entre eucaristia e Igreja? E entre eucaristia e horizonte escatológico?

Se, depois, se dissesse que o divorciados em segunda união podem receber a eucaristia se viverem juntos como irmão e irmã, isto é, se se reduzisse o problema ao ato sexual, isso mudaria os termos reais do consentimento matrimonial sacramental, que seria reduzido apenas ao aspecto natural, diria até secularizado: eu te acolho como minha esposa e prometo fazer sexo apenas contigo, até que a morte nos separe.

O Sínodo, portanto, é chamado a desenvolver a compreensão do depósito da fé de modo mais pleno e aprofundado, para chegar a novas e mais satisfatórias soluções pastorais, a fim de que refulja, na plena caridade evangélica, a beleza sacramental tão bem indicada por Dom Müller: "O matrimônio sacramental pertence à ordem da graça e está inscrito na comunhão definitiva de amor de Cristo com a sua Igreja. Os cristãos são chamados a viver o seu matrimônio no horizonte escatológico da vinda do reino de Deus em Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado".

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