“Ecumenismo de baixo para cima; o Vaticano II começa a ser colocado em prática”

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Por: André | 22 Novembro 2013

“Não podemos deixar o ecumenismo apenas nas mãos dos diplomatas, dos políticos ou dos teólogos: devemos pregá-lo nas paróquias”. A reflexão é de Sviatoslav Shevchuk, 43 anos, arcebispo maior da Igreja greco-católica ucraniana. Shevchuk acaba de chegar ao Vaticano, à Casa Santa Marta. Depois irá à Praça Madonna dei Monti, onde permanecerá durante um mês, em vista da oração e da celebração para recordar o 80º aniversário da grande fome (Holodomor) que provocou a morte de milhões de pessoas na Ucrânia entre 1932 e 1933.

A entrevista é de Andrea Tornielli e publicada no sítio Vatican Insider, 20-11-2013. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Qual é o impacto do novo Pontificado em seu país?

O Papa Francisco está no centro das atenções da sociedade ucraniana: as pessoas o acompanham, e se interessam por ele não apenas os católicos, mas também os ortodoxos e os não crentes. Eu tive a oportunidade de conhecer o então cardeal Bergoglio quando, em 2009, fui nomeado bispo da eparquia de Santa Maria do Patrocínio, em Buenos Aires. Ele era o meu superior imediato, porque a eparquia estava subordinada à diocese da capital argentina. Quando deixei o país, depois de ter sido eleito patriarca, presenteei-o com um ícone. Há alguns meses, em Santa Marta, ele me reconheceu e me convidou para ir ao seu quarto para me mostrar que havia trazido consigo aquele ícone ao Vaticano. O que surpreende é sua simplicidade e sua capacidade de se aproximar das pessoas. Na Ucrânia impressionou muito sua sobriedade e sua pobreza. Muitas vezes os bispos do nosso país são acusados de serem muito dependentes da riqueza, como se fossem oligarcas, como se projetassem uma Igreja para ricos. Francisco oferece o testemunho de uma Igreja próxima das pessoas, dos pobres, e anuncia o Evangelho do Senhor.

Como estão atualmente as relações entre católicos e ortodoxos na Ucrânia?

A nossa realidade é muito complexa, o nosso cristianismo está muito fragmentado: somente nós, os católicos, estamos presentes com três realidades “sui iuris”. A conferência episcopal dos latinos, a eparquia de Mukaceve (que depende diretamente da Santa Sé) e a Igreja greco-católica. Procuramos oferecer o testemunho da unidade, sobretudo entre nós. Como se sabe, também a Igreja ortodoxa está fragmentada; além da “canônica”, em comunhão com o Patriarcado de Moscou, há outras duas Igrejas ortodoxas. Fazemos o possível para colaborar. Existe um Conselho das Igrejas e também comunidades religiosas ucranianas nas quais, ao lado dos judeus e dos muçulmanos, os cristãos das diferentes confissões podem tomar atitudes em comum. Claro, na Ucrânia as Igrejas ortodoxas muitas vezes não entendem porque nós, os greco-católicos, existimos; consideram-nos um projeto político do passado. Mas também há sinais positivos, há um povo que está cansado das divisões e pede unidade, está aumentando o ecumenismo de baixo para cima.

É verdade que às vezes não se reconhece entre Igrejas cristãs nem sequer a validade do batismo?

Eu disse há algum tempo que nós, na Ucrânia, temos um pecado contra o ecumenismo, porque o deixamos exclusivamente nas mãos dos diplomatas, dos políticos ou dos teólogos. Agora devemos pregá-lo nas paróquias, para que os fiéis se acostumem a não fazer nada que possa colocar em dificuldades o outro irmão cristão. Os que devem pregá-lo são os sacerdotes e os confessores. As Igrejas cristãs na Ucrânia, na ex-União Soviética, ficaram separadas do movimento ecumênico mundial, quase “congeladas”; para nós, os católicos, a fase de recepção do Concílio Vaticano II está apenas começando. Ao mesmo tempo, os ortodoxos precisam colocar em prática na práxis pastoral decisões que já estão estabelecidas há tempo, inclusive em relação ao reconhecimento mútuo dos sacramentos. Mas, para voltar à sua pergunta, não é raro o caso de católicos que, para poder casar com um cônjuge ortodoxo, devem ser batizados novamente. Mas isto não é recíproco e nós, os católicos, não o fazemos.

Você é membro da secretaria do Sínodo dos Bispos. O Papa Francisco citou publicamente a prática ortodoxa da “economia”, que prevê a bênção das segundas uniões. O que pensa a esse respeito?

Essa prática reflete a diferença entre a teologia e o direito canônico católicos e ortodoxos. Enquanto para a teologia e o direito católico os celebrantes das núpcias são os esposos, que assumem um compromisso perante Deus, para os ortodoxos não acontece um contrato entre os esposos, mas é o sacerdote quem celebra. Além disso, com base na passagem evangélica no qual Jesus diz: “Quem repudiar sua mulher, exceto no caso de concubinato, a expõe ao adultério...”, o bispo da Igreja ortodoxa, ao avaliar o comportamento e o que aconteceu após o casamento, com um juízo pastoral e prático, não canônico, pode dar a permissão para abençoar uma segunda união. É um tema muito delicado e complexo. Espero que o Sínodo possa ajudar os pastores: não se trata, creio, de mudar a prática, teologia ou direito canônico. Trata-se, sobretudo, de ir ao encontro desses cristãos que são verdadeiramente crentes e que pedem a “regularização” da sua situação. É preciso ver como ajudá-los.

Qual é a importância da celebração de 23 de novembro que acontecerá na Basílica de Santa Sofia, em Roma, na Igreja que é o ponto de referência histórico para os ucranianos?

João Paulo II, há 10 anos, disse que aquele genocídio afetou o próprio tecido da humanidade, e que não era algo relacionado apenas com a Ucrânia. De modo especial, é importante recordar, dado que a estas pessoas negou-se inclusive a memória... Entre 1932 e 1933, milhões de pessoas morreram de fome. Mas quero precisar que não se tratou de uma seca provocada por causas naturais. Foram as tropas soviéticas que sequestraram o trigo e os alimentos. Foi “fome artificial”, induzida. Para mim, tratou-se de uma arma de destruição em massa muito econômica, uma atrocidade que ainda hoje faz com que se congele o sangue nas veias. E os comunistas venderam o trigo confiscado aos países ocidentais; alguns deles o compraram sabendo que era o preço da morte por fome dos ucranianos. Espero que seja uma ocasião para que todos recordemos e reflitamos sobre a justiça também em nível internacional. Convidei todos os ucranianos para acenderem uma vela para recordar todas as vítimas desta enorme tragédia humana.

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