Hilarion, Francisco e o “cristianismo cristão”

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Por: Jonas | 15 Novembro 2013

O encontro entre o metropolita russo Hilarion Alfeyev (na foto, à direita do Papa) e o papa Francisco ocorreu ontem pela manhã. E à tarde o representante do Patriarcado de Moscou manifestou a prontidão com a qual os ortodoxos russos recebem e decifram os sinais que lhes são enviados pelo atual bispo de Roma.

 
Fonte: http://goo.gl/D1cxx2  

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 14-11-2013. A tradução é do Cepat.

Isso ocorreu por ocasião da apresentação, no Centro russo de Ciência e Cultura de Roma, do livro póstumo de Sergei ArerintcevVerbo de Deus e palavra do homem. Discursos romanos”, editado pelo professor Pierluca Azzaro, da recém-criada Academia Sapientia et Scientia. Ao falar sobre o grande filólogo russo, que faleceu em Viena, no ano de 2004, o “Ministro do Exterior” do Patriarcado de Moscou retomou a frequência na qual poderia voltar a se sintonizar o diálogo ecumênico entre os católicos e os ortodoxos no futuro.

O grande intelectual cristão Averintcev – explicou Hilarion – intuiu, desde os anos imediatamente posteriores a queda da União Soviética, a falta fatal de uma ideia de unidade entre os cristãos que ele próprio definia como “política” ou “ideológica”, ou seja, a unidade “em um cristianismo de muitos adjetivos (conservador, liberal, e outros), a unidade segundo as regras do mundo, que tende a ser uma unidade contra alguém ou algo, a unidade de uma “religião sem fé, sem crer”. Os únicos caminhos possíveis para proceder em companhia, sugeriu Hilarion, citando Averintsev – são os que partem da “unidade do ‘cristianismo cristão’”. A unidade dos que, apesar de todas as diferenças existentes, permaneceram fiéis aos Sacramentos e dinâmicas próprias da fé cristã. A unidade dos que leem em cada palavra de Cristo uma expressão da própria fé”.

Inclusive, hoje em dia, esclareceu Hilarion, a unidade autêntica entre os cristãos não pode se desnaturalizar em mera “união contra este” ou que se possa relacionar com “motivações ideológicas, pragmáticas ou propagandísticas”. Às Igrejas do Oriente e Ocidente, “arraigadas no cristianismo apostólico”, sublinhou o Metropolita ortodoxo, “corresponde a especial missão de juntas oferecerem testemunho do “cristianismo cristão”, de juntas professarem a verdade da Cruz”. Contudo, esta confissão conjunta apenas será eficaz “quando nós aprendermos a ver uns aos outros não como adversários, como na época das cruzadas, nem como concorrentes, como acontece muitas vezes hoje em dia, mas como operários que trabalham juntos na vinha do Senhor”. Quando “aprendermos a dar valor às diferenças que marcam nossas diferentes tradições e deixarmos de perseguir a uniformidade exterior”.

Em seu discurso, Hilarion considerou o dado elementar da fé apostólica compartilhada como fator propulsor do caminho ecumênico do presente e do futuro. É um retorno “às fontes” o que pode ocorrer graças às contribuições já oferecidas pelo papa Francisco em suas intervenções. Eloquentemente, Hilarion concluiu seu discurso com duas longas citações do atual Bispo de Roma. Na primeira, citou as palavras que o papa Bergoglio pronunciou durante o voo que o levava do Rio de Janeiro para Roma, quando o Sucessor de Pedro fez uma homenagem a alma russa de Dostoievski e às Igrejas ortodoxas “que conservaram esta prístina liturgia, tão bela”. “Nós, disse o Papa, perdemos um pouco o sentido da adoração. Eles o conservam, eles louvam a Deus, eles adoram a Deus, cantam; o tempo não conta”.

Na segunda citação bergogliana, Hilarion aproveitou a passagem da entrevista do papa Francisco para a revista “La Civiltà Cattolica”, na qual o Bispo de Roma revelou que pretendia “aprender” dos ortodoxos “sobre o sentido da colegialidade episcopal e sobre a tradição da sinodalidade”.

A reflexão compartilhada sobre como era o governo da Igreja durante os primeiros séculos, continuou o Papa na entrevista citada por Hilarion, “dará frutos em seu momento”. Ao mesmo tempo, nas relações ecumênicas é importante “não apenas se conhecer melhor, mas também reconhecer o que o Espírito semeou nos demais, inclusive como dom para nós. Caminhar unidos nas diferenças. Não há outro caminho para nos unirmos. Este é o caminho de Jesus”.

A profunda revisão do Instituto do Sínodo dos Bispos, que está sendo preparada por Francisco, reflete concretamente sua abertura para o reconhecimento do dom que representa para a Igreja Católica o que o Espírito semeou ao longo do caminho das Igrejas Ortodoxas. Desta maneira, o diálogo ecumênico poderá tomar caminhos inéditos. Fora dos enfadonhos rituais das cortesias entre aparatos.

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