Documento preparatório do Sínodo: algumas perguntas sobre a relação entre homens e mulheres

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11 Novembro 2013

Alguns aspectos do Documento preparatório do Sínodo sobre a família que ficaram obscurecidos por enquanto levantam interrogações que eu acredito que vale a pena compartilhar, recolhendo, assim, também o convite contido na última pergunta do Questionário anexado ao texto introdutório: "Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários?".

A opinião é de Rita Torti, estudiosa italiana da diferença de gênero, em artigo publicado no sítio Teologhe.org, 08-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Sobre as características e sobre as importantes implicações do Documento preparatório para a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, tornado público nesses dias, muito já foi escrito. No entanto, alguns aspectos que ficaram obscurecidos por enquanto levantam interrogações que eu acredito que vale a pena compartilhar, recolhendo, assim, também o convite contido na última pergunta do Questionário anexado ao texto introdutório: "Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários?".

1) Um primeiro dado que salta aos olhos é que, na lista das "numerosas novas situações que exigem a atenção e o compromisso pastoral da Igreja", são contemplados fenômenos de vários tipos – dos casamentos mistos às famílias monoparentais, dos fenômenos migratórios às mensagens dos meios de comunicação, das legislações civis às mães de aluguel –; na verdade, alguns deles não se encaixam propriamente na categoria das "novidades" (por exemplo, a poligamia ou os casamentos combinados – estes são abundantemente conhecidos também pelas sociedades europeias).

Porém, falta alguma menção, no texto e no Questionário, a um fenômeno dramático, documentado e disseminado de modo transversal nos diversos contextos geográficos, culturais e sociais: o da violência de gênero (física, sexual, econômica...) no interior das famílias.

A pergunta que pode ser feita, então, é esta: por que, na opinião dos redatores do documento, a violência masculina contra as mulheres não é um problema a ser posto à luz, a ser investigado e a ser evangelizado?

É improvável que, em um texto tão oficial e importante, a ausência seja casual. No entanto, será útil lembrar que essa falta pode agravar a situação de milhões de mulheres – esposas, mas também filhas – de todas as partes do mundo, que nesse ponto não só sofrem violência no interior da família, mas também são invisíveis aos olhos dos pastores da Igreja.

2) O silêncio sobre essa ferida endêmica das relações familiares é reforçado, ainda na lista das situações que exigem "atenção e compromisso pastoral", por outra escolha: a de assinalar explicitamente a presença de "formas de feminismo hostis à Igreja" e de ignorar, ao invés, a presença – certamente mais concreta, disseminada e arraigada, mesmo em contextos católicos – de mentalidade e práxis machistas.

Também nesse caso, em muitas mulheres – e espero que em muitos homens – pode surgir uma pergunta: o machismo, realmente, nas suas diversas modalidades, não é um problema para as relações familiares, e para as mulheres e os homens que experimentam os seus efeitos? Realmente é um fato que não desperta nenhum interesse nos pastores da Igreja e sobre o qual eles não consideram, portanto, que se deva solicitar explicitamente a reflexão das comunidades cristãs?

3) Passando para a parte do Documento em que se ilustra "a boa notícia do amor divino", que " deve ser proclamada a quantos vivem esta fundamental experiência humana pessoal, de casal e de comunhão aberta ao dom dos filhos, que é a comunidade familiar", outra interrogação surge ao seguir aqueles que o texto define como "referências essenciais" das fontes bíblicas sobre o matrimônio e a família.

Depois de algumas referências a passagens da Escritura que mostram a importância atribuída ao matrimônio, ao amor e à indissolubilidade do laço conjugal, o parágrafo intitulado "O ensinamento da Igreja sobre a família" abre-se com esta declaração: "Também na comunidade cristã primitiva a família se manifestava como 'Igreja doméstica' (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1655): nos chamados 'códigos familiares' das Cartas apostólicas neotestamentárias, a grande família do mundo antigo é identificada como o lugar da solidariedade mais profunda entre esposas e maridos, entre pais e filhos, entre ricos e pobres".

Que os autores das Cartas Apostólicas considerassem com tanta admiração a "família do mundo antigo" é uma afirmação que, provavelmente, a maior parte dos biblistas não assinaria embaixo, mesmo querendo colocar entre parênteses as notáveis diferenças que corriam entre o mundo grego e o mundo romano nesse âmbito da vida.

Mas mais imediata e acessível a todos é outra reflexão: em que sentido pode se definir como "lugar da solidariedade mais profunda entre esposas e maridos" a realidade que o Documento preparatório ilustra, por exemplo, com a referência à Primeira Carta a Timóteo (2, 8-15), que ordena, dentre outras coisas: "Durante a instrução, a mulher deve ficar em silêncio, com toda a submissão. Eu não permito que a mulher ensine, nem use autoridade sobre o marido. Portanto, que fique em silêncio. De fato, Adão foi formado primeiro, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas sim a mulher que, tendo sido seduzida, caiu em transgressão. Entretanto, ela será salva parindo filhos, se perseverar na fé, no amor e na santificação com modéstia"?

Assim, a última pergunta: de que modo esse e os outros textos aos quais o Documento se refere (justamente, os famosos/famigerados códigos domésticos) podem comunicar a boa nova às famílias de hoje? Realmente será apropriado trazer como exemplo de família evangélica trechos que, durante séculos, foram usados pela teologia, pela pregação e pelos homens comuns para reforçar com o selo divino aquela que era considerada a lei natural da superioridade masculina e a inferioridade feminina? [1]

Realmente estamos certos de que ninguém se aproveitará disso para se legitimar como chefe, e realmente estamos certos de que nenhuma mulher vai pensar que, então, sofrer é algo bom e certo? As experiências que são registradas em todas as partes do mundo – e que os redatores do Documento certamente não ignoram – parecem nos dizer que, não, não podemos estar certos disso.

Nota:

1. Nem mesmo a referência a Efésios 5 é resolutiva, porque, como se sabe, a analogia entre marido e Cristo, de um lado, e mulher e Igreja, de outro, funciona justamente porque (e só se) se apoia em uma estrutura de relações entre homem e mulher que, embora amorosa, é hierárquica e assimétrica: se a relação entre marido e mulher fosse paritária, não poderia ter se tornado uma imagem da relação entre Cristo e a Igreja, que obviamente não é paritária.

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