A arte de doar à divindade para dizer obrigado. Artigo de Mariapia Veladiano

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04 Novembro 2013

Há um pouco de impiedade no ex-voto? De pensamento mágico e blasfemo? Talvez, mas certamente no gesto do dom concreto ao Deus invisível há muita humanidade e, portanto, verdade, porque aquilo que é profundamente humano sempre traz consigo um perfeito fragmento de verdade.

A opinião é da escritora italiana Mariapia Veladiano, vencedora do Prêmio Calvino 2010 com seu livro La vita accanto. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 31-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A história dos ex-votos nos oferece uma dimensão singular e barroca do tempo, que, ao compor essa floresta bizarra de objetos de todas as artes e de todos os lugares, oferecidos a todo tipo de divindade celeste ou terrestre, continuamente volta sobre si mesmo, repropondo algo que está em um ponto tão profundo do humano a ponto de não tolerar ser posto de lado. Mesmo quando se tenta com determinação, como fazem os profetas do Antigo Testamento, que obedecem ao mandato de despojar a fé da materialidade mágica e cruenta dos sacrifícios animais, por isso consumindo as palavras e a vida, testemunhas obstinadas de um Deus que quer "o amor e não o sacrifício" (Oseias 6, 6). E mais ainda o faz o Evangelho, onde a cada passo lembra-se que o amor é o único movimento possível nas relações com Deus. E que assim também deveria ser entre os homens.

Porque a oferta de um dom a Deus ex voto suscepto (segundo promessa feita) certamente pode dizer a pura gratidão, o nosso transbordar de felicidade pela vida reencontrada, mas também pode denunciar a humana tentação de aferrar a liberdade de Deus através da promessa do dom. Impossível troca, evidentemente. Inacreditável aferrar a Deus, levados pela ilusão de um desejo que não sabe se dar uma medida, quer se trate de vida, de filhos, de amor. Há um pouco de impiedade no ex-voto? De pensamento mágico e blasfemo? Talvez, mas certamente no gesto do dom concreto ao Deus invisível há muita humanidade e, portanto, verdade, porque aquilo que é profundamente humano sempre traz consigo um perfeito fragmento de verdade.

Aqui traz o desejo de (tocar a) Deus e, ao mesmo tempo, o bem do nosso ser corpo e matéria. Matéria que vai além do seu peso e quer chegar a tocar os pés do trono de Deus para chamá-lo, a Deus, a responder à nossa necessidade. O fato de que a matéria do objeto votivo se torne um meio tão poderoso é menos paradoxal para o Deus cristão do que para outras divindades do mundo.

Se Deus se dá em um corpo, então a matéria pode conter esse andar além das fronteiras, repleta de necessidades, e voltar a nós leve de graças. Como relatam as siglas que se encontram nos ex-votos: P.G.R, "por graça recebida", e P.G.F., "por graça feita". E ainda P.G.C., "por graça concedida", e P.G.A., "por graça alcançada".

Maravilhoso ponto de vista oscilante entre si e Deus, confusão entre a alegria de ter e a de doar. Confusão possível na bagunça que é o amor quando, sempre?, no coração do homem se mistura à necessidade.

E o ex-voto também tem uma obstinada democraticidade. Apesar de muitas tentativas de fazer dele coisa de povo diminuto e cru, os estudos mostram que não é assim. Os santuários podem ser plenos de coraçõezinhos bordados com a representação da graça recebida, ou de placas votivas que não relatam o fato pelo qual se agradece, inconfessável, inominável, indizível fato privado e pessoal, mas nessa portentosa e quase infinita resenha da necessidade do homem está de tudo: o coraçãozinho, justamente, e o hiper-realista braço salvo por graça de um moedor de carne e reproduzido perfeitamente na sua pele curada, até a cruz em ouro, brilhantes e esmeraldas doados pelo rei Umberto e Margarida de Saboia ao Tesouro de San Gennaro, que por sua vez é inteiramente um grandioso ex-voto da cidade de Nápoles a um santo muito popular e, ao mesmo tempo, portador de um milagre de vertiginosa profundidade teológica e humana.

Porque a relíquia de San Gennaro engloba o poder do sangue que, no seu real e perturbador tornar-se novamente fluido e vivo, lembra que a graça das graças é a vida e assim fecha o círculo do cruel sacrifício animal das origens e o resgata, afastando para sempre o sangue de morte de Deus.

Na matéria que diz o milagre de uma vida restituída, o ex-voto se oferece cauteloso ao nosso crer mais advertido. Mas a admiração existe, para esse obstinado cultivar da arte perdida da gratidão.

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