Mensagem final do VII Encontro Continental de Teologia Indígena

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Por: André | 25 Outubro 2013

Entre os dias 14 e 18 de outubro aconteceu, em Pujilí, Cantão da Província de Cotopaxi, no Equador, o VII Encontro Continental de Teologia Indígena. Trata-se de um encontro ecumênico do qual participaram 250 representantes de comunidades indígenas e agentes de pastoral oriundos de mais de 15 países. Ao final do encontro, elaboraram uma mensagem, reproduzida na sequência.

Eis a mensagem.

Mensagem final do VII Encontro Continental de Teologia Indígena: “Sumak Kawsay e Vida Plena”

Saudação e apresentação

Convocadas/os pela Mãe Terra, pelo Tayta Inti e por Nosso Senhor Jesus Cristo, caminhando de perto e de longe, atravessando os vales e as cordilheiras, acorremos pontualmente ao apelo que Deus Mãe e Pai da Vida segue nos fazendo para coroar e sentir sua passagem libertadora nesta hora difícil da história para os nossos povos e nações originários.

De Pujilí, no Equador, a irmã Terra de monsenhor Proaño e do Dançarino da Vida, aos pés da Cordilheira Santa dos Andes e de María Juana ou Cotopaxi, gritam irmanadas as nações originárias destas terras: Sumak Kawsay!, Lekil Kuxlejal (Maia Tseltal, México), Utsil Kuxtalil (Maia yucateco), Utzalaj K’aslemal (Maia Kiché, Guatemala), Kiruah Wiarik (Poqoman, Guatemala), Utz Kaslemal (Kaqchikel, Guatemala), Yek Inemé (Náhuatl de El Salvador), Toyekyolilis (Náhuatl do México), Xatlan okse latamat (Totonaca, México), Guendanazaaca (Zapotecos del Istmo, México), Misnokimi Ramgosfi (Mazahua, México), Sesi Cuiri-pu (Purepecha México). Nüne Guaire Kwin (Ngäbe, Panamá e Costa Rica), Vanja Siseteta Asiquiro (Bari de Colômbia), Wapushuwaya Anashi (Wayuu La Guajira, Colômbia), Nabir Garmagdii Saed (Guna), Biia beadaya (Embera Dobida, Chocó Colômbia), Nxusme’ cena cena fx’zewa’ (Nasa, Colômbia), Suma Jakaña, Suma Qamaña (Aimara, Bolívia e Peru). Teko Kavi-TekoKatu (Guaraní, Paraguai), Teko pora-Nemboaje (Mbya, Paraguai), Kume Mongen (Mapuche, Chile), Kume Monjen-Kume Feley (Mapuche da Argentina), Onaxaic ra kanachalataxac (Toba Argentina), Yvy Marae’y Rekavo (Avá Guaraní, Paraguai). Suma Kawsay (Kichwa Equador), Ayuro Nisetise (Arapaso, Brasil), Me Umarimei (Mebengokre, Brasil), Moo Bunaima (Huitoto, Colômbia). Tee Tenker (Achuar, Equador), Viv Biê (Galibi Marworno), Ayuro Niisetise (Tariana Brasil), Puranga Yaiku (Baré Brasil), Tutmun Ka Viv Biê (Karipuna Brasil), Há Tavî (Kaingang, Brasil), La Buona Vita (Itália).

O Evangelho das Nações Originárias

Anunciamo-lhes uma boa notícia para todas e todos: o Bem Viver!, que os povos e nações originários do sul andino herdaram de suas Taytas, simbolizado em uma Tigela de Barro. O Bem Viver/Bem Conviver manifesta-se em não ser preguiçoso, mentiroso e ladrão; é agir, sonhar, reconstruir a própria Vida; trata-se de uma radical aposta na Vida Plena e Abundante, para todas e todos, não apenas para alguns poucos. Mostra-nos o horizonte das nossas lutas rumo a uma vida digna e justa. Esta herança milenar nos une em um projeto comum a partir da diversidade dos nossos povos; este belo planeta é para quem nele vive e coabita. O mesmo que exige o próprio Jesus Cristo: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).

Patologia estrutural

Após refletir e conversar sobre o que sentimos em nossas nações originárias, concluímos que a Mãe Terra está doente. Por conseguinte, nós, suas filhas e filhos, também estamos doentes. Todo o planeta está doente. Fica claro que a causa principal destes males e doenças é o sistema estrutural dominante; tudo o que ele toca converte em mercadoria: a educação, a saúde, a terra, a espiritualidade, a política, os governos, as instituições educativas, religiosas e outros, já que promovem estruturas verticais e muitas vezes corruptas; debilita a organização de nossos povos e desarmoniza os vínculos comunitários com a natureza e o Criador, pois fundamenta o seu crescimento exclusivamente no monetário e na privatização.

Ou extirpamos este câncer da humanidade ou acabará por nos destruir!

A onda curadora

Apesar deste panorama obscuro, nós, povos e nações de Abya Yala, acreditamos e trabalhamos pelo Bem Viver: fazendo memória e recolhendo as sabedorias ancestrais, seguindo as pegadas daqueles que nos antecederam neste grande projeto de vida: Dolores Cacuango, jTatic Samuel, Tomás García, María Chávez, Xicao Xukuru, Catarina Morales, Domingo Llanaqu Chana e tantos outros, que fortalecem a nossa esperança e animam a nossa caminhada, através dos espíritos dos nossos ancestrais. O Sumak Kawsay, o Bem Viver-Conviver é uma utopia que animou a vida das nossas avós e avós, é uma proposta de vida e cura atual e para sempre.

Palavra sábia, viva e atual

Guiam-nos nesta luta as palavras sábias e antigas das nossas comunidades, já que, como diz o mito da Tigresa e de Kuyllur e Lucero, há enormes tigres que estão perseguindo os mais fracos para devorá-los e acabar com eles, e há também aqueles insaciáveis que sempre querem mais e mais à custa dos outros. A perseguição não é nova para nós. Os povos Amazônicos, Maias, Kichwas, Quechuas, Aimaras, Totonacos, Guarani e muitos outros, fomos perseguidos durante séculos, mas até hoje encontramos caminhos e luzes para subsistir; no entanto, hoje preocupa-nos a cobiça insaciável dos novos tigres que sem o mínimo respeito destroem o nosso ambiente de vida: a Mãe Terra. Animam-nos as palavras sábias e antigas de nossos povos, porque sabemos que hoje é tempo de Pachakutik, de renovação e mudança do sistema estrutural, da economia, da estrutura de governos, etc. Anima-nos também a nossa fé no pobre de Nazaré, que veio trazer vida plena para os mais fracos e para nos tornarmos próximos dos aleijados, cegos, mudos, leprosos, paralíticos, mulheres, crianças, deslocados. Levantando uma e outra vez a voz contra os dominadores da sua época, como sinal profético do Reino. Portanto, nós, povos originários de Abya Yala, afirmamos que o Sumak Kawsay e o Evangelho são o mesmo projeto do Deus da Vida!

Compromissos e ações

Como povos e nações originários, nós nos comprometemos a defender e revitalizar os espaços e vivências próprias das nossas comunidades: alimentação, espiritualidade, economia, saúde, educação, sistema político, línguas e idiomas, valores, festas e cerimônias, roupas e sementes e a transmitir este projeto de vida às crianças e jovens dos nossos campos e das cidades. Aos Governos de nossos Estados exigimos: o respeito e o reconhecimento dos territórios ancestrais; realizar e respeitar as decisões dos processos de consultas, como assinala o Convenção 169 da OIT; impedir qualquer tipo de invasão dos nossos Territórios, como a mineração a céu aberto, hidrelétricas, os agronegócios, exploração petroleira, já que estes territórios já existiam antes da conformação dos atuais Estados. Aos Pastores das nossas respectivas igrejas exortamos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que respeitem a espiritualidade dos nossos povos ancestrais; envolvam-se em nossas reivindicações e lutas sociais em defesa dos nossos direitos e dignidade, como fez o nosso mestre Jesus. Além disso, pedimos que promovam e apóiem a plena participação de leigos e mulheres em todos os espaços de nossas diferentes igrejas. Comprometemo-nos e pedimos à sociedade civil criar processos de diálogo e relações interculturais para obter um mesmo sentir, pensar e agir, em defesa da vida integral.

Finalmente, do VII Encontro Continental de Teologia Indigena, com muita força e coragem, nos unimos às reivindicações das demandas daqueles que empreenderam lutas para defender a terra e o território, a autonomia e a autodeterminação, como a Marcha das Mulheres da Amazônia Equatoriana, em defesa do Yasuní, a Campanha Continental da Nação Guarani, as Demandas da Organização Nacional Indígena da Colômbia, entre muitas outras.

Este é o nosso clamor e nossa palavra de esperança para toda a humanidade: o Bem Viver! Esta é a nossa fé e estamos dispostas/os a proclamá-la e defendê-la, inclusive com a nossa própria vida.

Sumak Kawsay!: Projeto de Deus, Projeto de Vida proclamado desde este território andino.

Pujilí, Cotopaxi, Equador, 18 de outubro de 2013.

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