A lição do Papa Francisco e a consciência de Snowden. Artigo de Ian Buruma

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16 Outubro 2013

Edward Snowden encarna perfeitamente a nova definição de pessoa moral descrita pelo papa. Snowden declarou ter agido segundo a consciência, para proteger "as liberdades fundamentais das pessoas de todo o mundo".

A opinião é do escritor holandês Ian Buruma, vencedor do prêmio Erasmus 2008 e doutor honoris causa em teologia pela Universidade de Groningen. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 15-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco apareceu dos ambientes velhos da Igreja Católica como uma lufada de ar fresco. Ele se apresenta e se comporta como um ser humano normal: usa sapatos em vez das pantufas de veludo vermelho, demonstra bom gosto em questão de livros – Dostoiévski, Cervantes – e, embora ainda não tenha revolucionado a doutrina da Igreja sobre o tema da conduta sexual, ele tem uma atitude mais humana com relação aos homossexuais.

O mais surpreendente que o papa disse, porém, está contido na sua carta ao jornal La Repubblica e diz respeito aos ateus. Um ateu, assegura-nos ele, não corre o risco das chamas do inferno, contanto que siga a própria consciência. Eis as suas palavras textuais: "Ouvir e obedecer [a própria consciência] significa decidir-se diante do que é percebido como bem ou como mal".

Ou seja, não é necessário que Deus ou a Igreja nos digam como devemos nos comportar. Basta a nossa consciência. Nem mesmo os protestantes mais devotos chegariam tão longe. Os protestantes se limitaram a eliminar os padres como intermediários entre o indivíduo e o seu criador. As palavras do Papa Francisco permitem pensar, ao invés, que a opção de eliminar o próprio Deus poderia ser legítima. Se não se tivesse demonstrado pronta para manter o ritmo dos tempos, a Igreja Católica não teria durado tanto.

Sem dúvida, a afirmação do papa concorda bem com o extremo individualismo da nossa época, mas ainda é um pouco desconcertante. Afinal, quem crê na fé cristã – e se presume que o papa creia – deveria considerar que as questões do bem e do mal, e de como se comportar ética e moralmente, são prescritas pela doutrina da Igreja e pelos textos sagrados. A ética não é apenas individual, mas também coletiva. Os cristãos consideram que as suas opiniões a respeito do que é certo e do que é errado são sagradas e universais.

Eu não sei se Edward Snowden, o homem que, em sinal de protesto contra a espionagem realizada pelo governo dos EUA contra os seus próprios cidadãos, publicou segredos oficiais, é cristão. Talvez seja ateu. De todos os modos, ele encarna perfeitamente a nova definição de pessoa moral descrita pelo papa. Snowden declarou ter agido segundo a consciência, para proteger "as liberdades fundamentais das pessoas de todo o mundo". A sua opinião sobre o bem coletivo é totalmente individual.

Talvez, em uma época secular, o comportamento ético não pode ter outra base senão a própria consciência. Se os textos sagrados não podem mais nos indicar a diferença entre bem e mal, caberá a nós estabelecê-la. A democracia liberal não é capaz de fornecer uma resposta, nem finge poder fazer isso: nada mais é do que um sistema político pensado para chegar a uma solução legítima e pacífica dos conflitos de interesse. As questões sobre a moral e o significado da vida competem a um governo democrático.

No entanto, a política democrática pode ser, como muitas vezes é, fortemente influenciada pelas crenças religiosas. Na maior parte dos países europeus, existem partidos cristão-democratas. Israel tem os seus partidos ortodoxos. A política dos EUA está embebida pela doutrina cristã, em particular – mas certamente não exclusivamente – à direita do espectro político. Os muçulmanos tentam introduzir a própria fé na política, muitas vezes, mas nem sempre, com meios liberais.

Além disso, há as ideologias políticas seculares, como o socialismo, que possuem um forte componente ético. Os partidos socialistas e comunistas têm, não menos do que a Igreja Católica, opiniões firmes sobre o que é o bem e o que é o mal e sobre o que deveria ser o bem coletivo. Em muitos países, a democracia social afunda as suas raízes no cristianismo. No entanto, a despeito da imponente vitória dos cristão-democratas de Angela Merkel nas últimas eleições alemãs, na política europeia o cristianismo é uma força em vias de rápida extinção. E a influência dos partidos de esquerda está se extinguindo até mais velozmente. A maior parte do que restava da ideologia socialista foi varrida no fim dos anos 1980, com o colapso do império soviético.

Hoje, depois das revoluções sociais dos anos 1960 e os "big bang" financeiros dos anos 1980, temos um novo tipo de liberalismo, que, além de ser desprovido de uma clara base moral, considera a maior parte dos vínculos impostos pelo governo como atentados igualmente prejudiciais às nossas liberdades individuais. Hoje, em muitos aspectos, vive-se "cada um por si". Não somos mais cidadãos, mas sim consumidores. O comportamento desmoderado – seja pessoal ou financeiro – de Silvio Berlusconi faz dele o perfeito político da época neoliberal.

Há, talvez, novos modos de introduzir uma base moral no nosso comportamento coletivo? Existem, de fato, utopistas que acreditam que essa tarefa será desempenhada pela internet, que abre espaço para as novas redes de cidadãos, permitindo-lhes transformar o mundo. É verdade que as mídias sociais podem mobilizar os cidadãos em nome de boas causas. Durante um recente terremoto, milhares de idealistas chineses ajudaram os seus concidadãos, exortados pelos blogueiros e pelas mídias sociais, embora o governo tentasse estender um véu de silêncio sobre o ocorrido.

Na realidade, porém, a internet está nos levando na direção oposta: ela nos encoraja a nos tornarmos consumidores narcisistas, que entre o "curtir" e o "não curtir", compartilham cada detalhe da sua vida individual sem, contudo, entrar realmente em contato com ninguém. Certamente não é uma boa base para encontrar novos modos para definir o bem e o mal ou o bem coletivo. A internet conseguiu apenas de facilitar para as empresas comerciais a compilação de enormes bancos de dados sobre os nossos usos, pensamentos e desejos. As grandes empresas, depois, transmitem essas informações aos governos. E esse é o motivo pelo qual Edward Snowden foi induzido pela própria consciência a compartilhar com todos nós os os segredos protegidos pelo governo. Talvez ele nos tenha feito um favor. Mas eu não posso imaginar que realmente seja ele a pessoa que o Papa Francisco tinha em mente quando tentava preencher a lacuna entre a sua fé e a nossa época de individualismo desenfreado.

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