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Por: Jonas | 16 Outubro 2013

Uma investigação do Ministério Público de São Paulo aponta que o PCC conta com 11.387 integrantes – 2.632 em liberdade, 8.755 presos – e ingressam em seus cofres cerca de 80 milhões de dólares por ano. Suas regras são impostas nas prisões.

A reportagem é de Eric Nepomuceno, publicada no jornal Página/12, 14-10-2013. A tradução é do Cepat.

Acredito que nem o próprio Mao Tsé-Tung, em seus melhores dias, chegou a imaginar que alguma vez a sigla PCC – que poderia se referir ao Partido Comunista da China – conseguiria sacudir as acomodadas classes econômicas e políticas do Brasil e muito especialmente de São Paulo, a maior capital política e financeira da América do Sul, e uma das três ou quatro maiores aglomerações urbanas do mundo. Os chineses de outrora, jamais pensaram que a sigla representaria um agrupamento criminoso perfeitamente organizado, capaz de pacificar bandos de narcotraficantes em outro estado, gabar-se de ter diminuído o índice de assassinatos em São Paulo, estender-se por pelo menos outros dois países e obter lucros suficientes para se situar entre as mil maiores empresas do segmento de vendas da principal economia latino-americana. O bando se chama Primeiro Comando da Capital. No mínimo, anualmente, entra em seus cofres cerca de 80 milhões de dólares, isentos de impostos e sem considerar os lucros paralelos. Seu principal produto de vendas são as drogas, que vão de maconha a heroína, com ênfase na cocaína. E também vendem algo intangível, mas essencial em seu ramo de atividade: a proteção.

Uma detalhada e minuciosa investigação realizada pelo Ministério Público de São Paulo, ao longo de pouco mais de dois anos, traz uma radiografia precisa do PCC. De acordo com essa investigação, considerada a mais profunda, jamais feita sobre o crime organizado no Brasil, o PCC conta hoje com exatos 11.387 integrantes. E aí começam as peculiaridades: desse total, 2.632 estão em liberdade e os outros 8.755 em prisões de todo o país, começando por seus líderes máximos.

Com uma estrutura invejável até para as grandes empresas brasileiras, a organização do PCC estabelece canais de comunicação que asseguram rapidez e eficácia à cúpula, nas determinações que dividem. A ousadia e a eficácia sem limites são outras de suas características. Há mais ou menos dois anos, ao perceberem que os recursos interpostos nos tribunais procurando facilitar a vida de seus integrantes nas prisões não davam resultados, o comando máximo do PCC procurou nada mais do que infiltrar um dos seus no escritório de um dos membros da corte máxima do país, o Supremo Tribunal Federal. Tratava-se do irmão de uma das advogadas do grupo. Advertido pelos investigadores que monitoravam as chamadas telefônicas do PCC, o ministro Ricardo Lewandowski conseguiu impedir a contratação do infiltrado. Num outro momento, após se gabar de que graças a suas ordens para deixar de matar adversários e suspeitos de traição, e principalmente para “pacificar” as disputas por pontos de venda de drogas, o índice de assassinatos havia baixado em São Paulo, o líder máximo do PCC, Marcos Herbas Camanho, o “Marcola”, disse que o seu mérito foi roubado pelo governador.

“Antes - disse Marcola -, qualquer um matava qualquer um. Agora existe uma burocracia, é preciso analisar cada caso. Graças a isso baixou o número de assassinatos, e a imprensa disse que a glória é do governo”.

Ao se queixar da violência da polícia de São Paulo, baseada na política determinada pelo governador Geraldo Alckmin, outro líder comenta com Marcola que “é preciso decretá-lo”, ou seja, matá-lo. Não foram divulgados indícios ou provas da ordem de assassinar o conservador governador do maior e mais importante estado brasileiro. Na dúvida, assim que foram divulgadas essas informações, o ultracatólico Alckmin tratou de se encomendar a Deus e de redobrar sua escolta.

Revelou-se, no relatório do Ministério Público, que em mais de uma ocasião mensageiros do PCC, cumprindo ordens explícitas de seu comando central, foram ao Rio de Janeiro para impor negociações entre as três principais facções criminais do estado, o Terceiro Comando, o Comando Vermelho e o ADA (Amigo dos Amigos, que procura manter relações cordiais com os dois outros bandos inimigos).

A ordem foi muito clara: a continuação da sangrenta disputa entre os três significaria perdas substantivas para o PCC, e isso teria um preço. Era urgente acabar com as disputas sangrentas que, além disso, prejudicavam muito o negócio da venda de drogas.

De uma ou de outra forma, os combates entre o Terceiro Comando e o Comando Vermelho diminuíram sensivelmente. O governo do Rio de Janeiro argumenta que isso ocorreu em razão da sua política de segurança pública. Agora, aparecem indícios de que a verdadeira razão não foi exatamente essa.

Numa das chamadas grampeadas, ouve-se claramente a voz de um dos comandados por Marcola dizendo ao chefe máximo da favela da Rocinha, a maior do Rio de Janeiro: “É melhor me ouvir. Se você tem dúvidas de quem eu sou, procure no Google”.

Dentro das prisões dos estados brasileiros, que abrigam presos considerados extremadamente perigosos, a ordem é imposta pelo PCC. Determinou-se a proibição absoluta do ingresso de crack, a droga mais mortal de todas, e se impôs, em cada um desses presídios, uma rígida hierarquia que, por trás dos muros, controla a vida de quem está fora. É dos presídios de segurança máxima que surgem ordens para matar policiais ou adversários do bando, determinações sobre negócios, que vão de aplicações de dinheiro no mercado financeiro a novos canais de distribuição de drogas. Das prisões se renovam o sistema de pagamento de pensões às famílias dos presos, a atenção médica, a busca de empregos legais, bem como instruções sobre a conduta a ser seguida a sangue e fogo pelos companheiros que estão em liberdade.

Para impor disciplina aos grupos que não possuem nenhum vínculo com o PCC, corre no ar uma ameaça: todos correm o risco de ser presos alguma vez. E, uma vez presos, irão para algum cárcere. E, então, cairão nas mãos do grupo.

Simples assim, fácil desta maneira: é melhor não criar inimizades com o PCC enquanto se está livre, porque caso se vai preso, não escapará da rede que possivelmente seja a mais poderosa, consolidada e bem estruturada organização criminosa da história recente do país. Está presente em 22 dos 27 estados brasileiros. Em São Paulo, sua sede, controla 90% de todos os presídios e penitenciárias. Tem sócios provedores no Paraguai e Bolívia, e das celas controla parte importante da cocaína que entra no Brasil.

Os investigadores do Ministério Público traçaram um perfil detalhado do grupo. O relatório de 890 páginas pede, ao final, a prisão imediata de 175 pessoas e a transferência de 32 presos para prisões de segurança máxima.

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