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Por: Cesar Sanson | 15 Outubro 2013

Apenas 7 cooperativas do movimento faturam cerca de R$ 100 milhões por ano, um negócio e tanto para quem imagina que da roça dos sem-terra só saem conflitos

A reportagem é de Vasconcelo Quadros e publicada pelo portal iG, 14-10-2013.

Novo no ramo, o representante comercial mostra o folder do suco de uva integral Monte Vêneto, produzido em Cotiporã, na serra gaúcha, e anuncia que é a mais moderna indústria de sucos da América Latina, produto 100% natural. “É a única que só produz suco de uva”, enfatiza.

Num belo catálogo, produzido com papel e imagens de alta qualidade (a capa é ilustrada com fotos de vacas holandesas saudáveis pastando numa propriedade rural sustentável), ele aponta os 57 produtos derivados do leite. Em seguida, apanha e exibe com indisfarçável orgulho o produto que pode se tornar top do novo empreendimento: arroz orgânico embalado a vácuo.

“A sociedade não sabe o que fazemos. Acha que só invadimos terra. Muitas pessoas ficam surpresas quando mostramos nossos produtos”, diz Altamir Bastos, gaúcho de Panambi, 44 anos, 23 deles como militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Nascido nas brechas da ditadura, em 1979, e há 28 como movimento, o MST está acoplando à sua estrutura de esquerdista os métodos e estratégias do capitalismo de mercado.

Sem o cacoete dos tradicionais comerciantes, o agora com terra Altamir é um símbolo do empreendedorismo e da nova trincheira do MST no enfrentamento ao seu arqui-inimigo, o agronegócio.

Há 15 dias ele fechou um contrato no valor de R$ 2,4 milhões com a Prefeitura de São Paulo para fornecer 930 toneladas de arroz orgânico para a merenda escolar do município e, em contrapartida, melhorar a renda de 1.400 famílias da Cooperativa dos Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap).

Foi um lance estratégico. Permite ao MST enganchar um pequeno vagão na “locomotiva” da economia do país e, assim, ampliar seu controle no chamado mercado institucional (órgãos públicos em geral) para entrar naquilo que mais lhe interessa: a rede de distribuição de alimentos que abastece a classe média no mercado dominado pelos médios e grandes produtores rurais.

O contrato com a Prefeitura de São Paulo inclui ainda 480 toneladas de arroz parboilizado e outras 470 de feijão, produzidos, respectivamente, em assentamentos de Querência do Norte (RS) e Itapeva (SP). No total a cooperativa faturou e repassará aos assentados R$ 5, 984 milhões.

A Prefeitura de São Paulo é um pequeno naco setor público, aberto com a decisão do governo federal em determinar, por lei, que 30% de alimentos para o setor público tenham origem na agricultura familiar. Nessa seara, que já pertenceu aos médios e grandes, o MST é hoje o líder. Controla mais de 10 milhões de hectares de terra, tem cerca de 400 mil famílias assentadas e _ ancorado no cooperativismo _ produz em suas agroindústrias derivados de grãos e de leite com qualidade e sabor de fazer inveja aos grandes empreendimentos rurais.

Apenas sete cooperativas _ duas no Rio Grande do Sul, uma em Santa Catarina, duas no Paraná e duas no interior paulista _ faturam cerca de R$ 100 milhões por ano, um negócio e tanto para quem imagina que da “roça” dos sem-terra só sai conflito.

Esse desempenho já colocaria o MST num ranking de empresas de médio para grande porte, conforme critérios do BNDES. Mas o faturamento, segundo Altamir, é bem maior, uma vez que o MST, embora não disponha de um banco de dados sobre produção e comercialização, está organizado em todo o país.

A parceria com a gestão do prefeito Fernando Haddad, do PT, abriu as portas para ampliar o mercado institucional e conquistar administrações de todos os partidos, inclusive do PSDB, como em Santos e Suzano, que já fecharam contratos.

No ABC paulista, os negócios estão prosperando tanto que a Prefeitura de São Bernardo do Campo, gerida pelo petista Luiz Marinho, passou a usar os 100% de sua receita para a comprar alimentos da merenda escolar nas cooperativas do MST. No total, segundo Altamir, 20 prefeituras de São Paulo _ uma mais, outras menos _ já estão na carteira de clientes.

Essas parcerias, segundo o militante, permitem aos assentados traçar metas de produção em escala e, seguindo estratégia de mercado, conquistar no longo prazo quase o monopólio dos alimentos orgânicos, um mercado tratado com certo desdém pelo agronegócio, mas um ponto de afirmação para o MST.

Ainda que modestamente, o movimento domina a cadeia produtiva dos orgânicos e avança na produção de leite longa vida, leite em pó, iogurtes e achocolatados em geral, sempre criando marcas e produtos que se contraponham aos da concorrência. É o caso, por exemplo, do Terrinha, um achocolatado mais natural, colocado na merenda para invadir a faixa ocupada hoje pelo Toddynho, galinha dos ovos de ouro da Pepsico do Brasil Ltda na linha infantil.

“O dinheiro não tem ideologia, mas a opção por produzir alimentos orgânicos faz parte dos nossos compromissos e da nossa história. Eles fazem parte da luta da agricultura familiar contra os transgênicos, que são símbolos do agronegócio”, explica Altamir. Ele diz que a prioridade dos assentamentos é a produção de alimentos saudáveis, com sabor e qualidade, para escolas públicas, especialmente aquelas em que estudam os filhos dos sem-terra. “Mas queremos entrar no mercado tradicional”, afirma Altair Bastos, que está fazendo prospecção para a implantação de um projeto ousado: construir na capital paulista um centro de distribuição de produtos originários de assentamentos do Sul e do Sudeste.

O governo do tucano Geraldo Alckmin ofereceu de graça um terreno ao longo da Rodovia Castelo Branco, mas o local está a mais de 100 quilômetros da capital. O MST está priorizando uma área que fique num dos assentamentos mais próximos de São Paulo e que esteja situado num eixo rodoviário com infraestrutura e condições de mobilidade. Uma das opções é Franco da Rocha, na região metropolitana.

Os gastos previstos para o entreposto são da ordem de R$ 10 milhões e o alvo, claro, são as demais 625 prefeituras paulistas, as de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e de Goiás, regiões em que Altamir Bastos atua como representante comercial. Nos estados do Sul, o MST já domina boa parte do fornecimento e, em lugares como o Rio Grande do Sul - matriz do movimento - abastece universidades, escolas estaduais e toda a rede de presídios.

Potencial institucional

A potencialidade do mercado institucional é estimulada por lei federal criada em 2009 pelo governo e aperfeiçoada. Ela garante um naco do mercado aos movimentos envolvidos na luta pela reforma agrária, mas vincula o sistema de comercialização às cooperativas e cria um limite de R$ 20 mil de faturamento para cada família. Atualmente 95% da produção dos assentamentos do MST são vendidos para escolas, Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e ao Programa de Aquisição de Alimentos do governo federal.

“Estamos lutando para mudar a lei e, assim, permitir que cada família possa vender pelo menos R$ 30 mil”, diz Altamir. Segundo ele, as prefeituras têm potencial de um grande e cobiçado mercado consumidor, já que atualmente, conforme estima, os produtos do MST cheguem a menos de 5% dos 5.564 municípios brasileiros.

O crescimento nesse segmento, segundo o militante, daria ao MST musculatura para, mais à frente, com os pés no chão, entrar num embate com o agronegócio pelas prateleiras dos grandes supermercados depois de uma frustrada tentativa de parceria com o Grupo Pão de Açúcar.

“Eles nos espremeram por todos os lados. Cobram até o espaço em que o produto é colocado na prateleira”, queixa-se Altamir. No ano passado o MST colocou nas lojas do Pão de Açúcar da região Centro-Oeste arroz orgânico, mas o negócio está se mostrando inviável. Embora chegue aos supermercados do grupo em Brasília a R$ 3, 20 o quilo e seja vendido ao dobro ao consumidor, a cooperativa gaúcha tinha de arcar com todos os encargos e, assim mesmo, o produto ficava escondido, dificultando a estratégia de marketing do MST, de se apresentar a classe média com um produto saudável e barato.

A simples disputa pelo mercado institucional já provocou uma reação de produtores médios e de seus atravessadores. Em São José do Rio Preto, depois de ouvir indecorosas propostas de propina para dividir um contrato com uma falsa cooperativa, Altair denunciou o caso ao Ministério Público. “Tem gente criando cooperativa para fraudar o processo de compra. É para tentar desmoralizar o movimento e sacanear nosso projeto”, diz Altamir, um tanto sem jeito para brigar com adversários que o MST desconhecia, mas que fazem parte da guerra entre capitalistas, contra os quais as táticas barulhentas nem afetam os tímpanos.

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