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Por: Cesar Sanson | 11 Outubro 2013

As cinco doenças mais comuns no México estão ligadas à produção e ao consumo de alimentos provenientes da cadeia agroalimentar industrial: diabetes, hipertensão, obesidade, câncer e enfermidades cardiovasculares. Algumas totalmente, outras parcialmente,  mas nenhuma dissociada. Isso se traduz em má qualidade de vida e tragédias pessoais, mas além disso em altos gastos com atendimento médico e com o orçamento de saúde pública, e um enorme subsídio oculto para as multinacionais que dominam a cadeia agroalimentar, das sementes ao processamento de alimentos e à venda em supermercados. Ou seja, mais razões para questionar esse modelo de produção e consumo de alimentos. O comentário é de Silvia Ribeiro, é pesquisadora do Grupo ETC, em artigo publicado pelo La Jornada e reproduzido pelo sítio rebelion, 09-10-2013.

Eis o artigo.

Em artigos anteriores, comentei como o sistema agroindustrial alimenta somente 30% da população mundial, mas seus graves impactos na saúde, mudanças climáticas, usos de energia, combustíveis fósseis, água e contaminação são globais.

Contrastando com , a diversidade de sistemas alimentares camponeses e em pequena escala é que alimenta 70% da população mundial; entre 60 e 70% desse percentual são aportados por pequenas parcelas agrícolas, as hortas urbanas, com 15 a 20%, a pesca com entre 5 e 10%, e a caça e coletas silvestres 10 a 15% (Ver Quem nos alimentará?, La Jornada, 21/09/13 e www.etcgroup.org) . Acrescento agora dados complementares da mesma fonte.

Em termos de produção por hectare, um cultivo híbrido produz mais do que uma variedade, mas para isso requer uma semeadura em monocultura, em extensas áreas planas e irrigadas, com grande quantidade de fertilizantes e alto uso de agrotóxicos (pesticidas, herbicidas, fungicidas). Tudo isso diminui a quantidade de nutrientes que contém por quilo. Os cultivos camponeses, pela  substituição histórica que sofreram, na sua maior parte ocorrem em terrenos irregulares, encostas e terras pedregosas, sem irrigação. Se compararmos isoladamente a produção de um cultivo camponês com o mesmo híbrido industrial, a produção por hectare será menor.

Contudo, os camponeses semeiam, por necessidade e conhecimento, uma diversidade de cultivos simultaneamente, e vários do mesmo cultivo com diferentes características, para usos diferentes e para suportar diferentes condições, além de cultivos distintos que se auxiliam entre si (aportam fertilidade e protegem dos insetos), e como usam pouco ou nenhum agrotóxico, cresce ao seu redor uma variedade de plantas comestíveis e medicinais. Sempre que podem, os camponeses consorciam também a criação de algum animal doméstico ou peixes. Somando tudo,  o volume de produção por hectare das áreas camponesas é maior que o das monoculturas industriais, além de resistirem de forma muito melhor às mudanças de clima, sendo também muito maior sua qualidade e valor nutritivo.

Do que é colhido na agricultura industrial, mais da metade é usado como forragem de gado criado em grande escala e confinado (porcos, frangos, bovinos). Virtualmente toda a soja e milho transgênicos produzida no mundo – e também os que querem plantar no México  - não é destinada à alimentação humana, mas sim para produzir rações para a criação industrial de animais, também dominada pelas multinacionais, e cujo excesso de consumo é outro fator causador das principais doenças.

Dos fertilizantes sintéticos utilizados na agricultura industrial, a maioria é justamente para produzir rações, e a metade do que é aplicado não chega às plantas por problemas técnicos. Por sua vez, o escoamento dos fertilizantes é fator fundamental para a contaminação da água e produção dos gases de efeito estufa.

Além disso, na cadeia industrial são desperdiçados entre 33 e 40% dos alimentos durante a produção, transporte, processamento e nos lares. Outros 25% são perdidos no excesso de consumo, produzindo obesidade, entre outras coisas pela dependência causada pela quantidade de sal, açúcar e produtos químicos acrescentados.

Na América do Norte e Europa, o desperdício de alimentos per capita é de 95 a 115 quilos por ano, enquanto que na África Subsahariana e sudeste da Ásia (com predominância da agricultura camponesa), é de 6 a 11 quilos per capita, 10 vezes menor.

Diante do desperdício e da gravidade dos problemas de saúde e ambientais provocados pela cadeia industrial de alimentos, é urgente reformular políticas que não a estimulem, e em seu lugar incentivem a produção diversificada, sem agrotóxicos, com sementes próprias e em pequena escala, que além de tudo são a base de trabalho e de sustento de mais de 80% dos agricultores do país. No extremo oposto, está a produção industrial com transgênicos, que exacerba todos os problemas mencionados e, além de tudo, por estar nas mãos de cinco multinacionais, é uma entrega da soberania nacional. A semeadura de soja transgênica já está ameaçando de morte os apicultores, terceiro item na exportação nacional, que provê o sustento de 40 mil famílias camponesas. As solicitações de plantio comercial de milho transgênico em milhões de hectares ameaçam eliminar a outros milhares de famílias camponesas e contaminar o patrimônio genético mais importante do país.

Se esses dados ainda não fossem suficientes, os eventos climáticos extremos que o país sofreu – com estragos exacerbados por políticas que aumentam a vulnerabilidade -, estão diretamente vinculados a esse sistema alimentar agroindustrial, que é uma das causas principais das mudanças climáticas.