''A tolerância naufragou: o Mediterrâneo divide os povos''. Entrevista com Predrag Matvejevic

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05 Outubro 2013

"Eu choro na frente das imagens dessa fila infinita de corpos recuperados do mar. Eu choro e me rebelo, como fiz na frente dos corpos estraçalhados nas fossas comuns em Srebrenica. É um pranto de dor, de raiva, de indignação. Por aquilo que podia ser feito e não foi. Pelo silêncio cúmplice de quem podia intervir e virou os olhos para o outro lado. Pelos grandes da terra que estreitam pactos militares e nunca pactos de solidariedade e de ajuda aos mais indefesos dos indefesos".

A reportagem é de Umberto De Giovannangeli, publicada no jornal L'Unità, 04-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Predrag Matvejevic, o intelectual cujo percurso cultural e humano foi o de construir "pontes" de diálogo entre identidades, étnicas e religiosas, diferentes e muitas vezes violentamente contrapostas, tem a voz embargada pela emoção. Em seu livro multipremiado Breviario Mediterraneo, assim como no anterior, Il Mediterraneo e l'Europa (Ed. Garzanti), contou o que foi e o que representou o "mare nostrum".

Daí parte a nossa conversa: "Uma humanidade desesperada bate à nossa porta – reflete Matvejevic – e o que lhe espera frequentemente, muito frequentemente, são muros de hostilidade. Barreiras não só físicas, mas também mentais. O Mediterrâneo não deve se transformar em um abismo de incivilidade. O que está em jogo não é só o futuro, a vida de milhões de seres humanos. Estão em jogo também os valores, os princípios que fundaram a civilização da Europa".

Ao enfrentar a enésima, enorme tragédia, consumada nessa quinta-feira, vem à mente uma passagem do Breviario Mediterraneo: "Certamente – reflete – ainda hoje o Mediterrâneo é guardião da vida de muitos povos, evocando as suas raízes e origens comuns. Mas o Mediterrâneo, encruzilhada de civilizações, não está destinado a ser um mito do passado. O que vai restar na nossa cultura midiática e tecnológica das sedimentações milenares e das culturas estratificadas que alimentaram os povos do mar? O que hoje tomou o lugar das viagens e das explorações, das trocas e das migrações dos povos mediterrânicos? Como o Mediterrâneo é vivido por esses mesmos povos, hoje?".

A resposta dada por aquela fila de corpos sem vida, destaca amargamente o grande escritor, é que "o Mediterrâneo está se transformando no túmulo da esperança".

Eis a entrevista.

Em Lampedusa, consumou-se um tragédia enorme: um massacre de migrantes.

Tragédia. Massacre. São palavras terríveis, mas também palavras abusadas, desgastadas, que por si sós não dão conta da enormidade desses eventos. Assim como não basta a palavra gritada pelo Papa Francisco: "Vergonha!". É preciso outra coisa, mais forte, mais comprometedora. É preciso um novo humanismo. Diante dessa fila infinita de corpos deitados em uma doca do porto de Lampedusa, são outras as palavras que deveriam ser pronunciadas e substanciadas com atos consequentes.

Quais são essas palavras, professor Matvejevic?

Compadecer-se. Compartilhar. Palavras das quais devemos saber compreender o sentido mais profundo, que leva ao coração do sofrimento indizível que impulsiona milhares e milhares de pessoas a pôr em jogo a sua vida naquelas "carroças" do mar. Compartilhar o sofrimento, mas também compartilhas políticas que busquem dar uma resposta a esse sofrimento e ao desespero que volta a ressurgir das águas e da costa Sul do Mediterrâneo. Um Mediterrâneo que é dilacerado há muito tempo e que, mais do que um mar que une, parece ser um mar hostil, que divide. Um mar em que a tolerância naufraga, em que se dispersa a solidariedade. Há momentos em que essas dilacerações se tornam mais evidentes e trágicas. E é isso que conta o massacre de migrantes. Ainda no passado, observamos – alguns distraidamente, outros indignando-se contra essa carnificina de vidas humanas e de direitos inalienáveis – as suas viagens e naufrágios organizados pelas muitas máfias que infestam o mundo. O rosto dos sobreviventes, sejam eles magrebinos ou albaneses, eritreus e somalis, kosovares ou sírios, parece-nos sempre igual: o rosto do sofrimento, de quem procura conforto e muitas vezes encontra apenas hostilidade e humilhação infligidas contra ele. O olhar perdido no vazio de quem abandonou o inferno, mas que tem medo de ser rejeitado. Mas é nosso dever saber distinguir os vários aspectos e as diversidades que conotam o fenômeno da imigração da costa Sul do Mediterrâneo.

Quais são essas diferenças?

Vindas dos países do Magrebe, da Argélia, da Tunísia, do Marrocos, da Líbia e agora também ma martirizada Síria, batem na nossa porta pessoas muito mais jovens do que nós e muito mais pobres (não nos esqueçamos de que a costa Norte do Mediterrâneo é a dos já envelhecidos): o que as impulsiona é acima de tudo a miragem do bem-estar econômico que lhes parece ali, ao alcance das mãos, a um "passo" de casa. Depois, há os mais desesperados ainda, aqueles que provêm do interior da África que passam pela aridez do deserto e vivem uma pobreza humilhante. Essa parte da imigração é a mais desesperada, e o seu desespero está pronto para tudo. Eles não têm nada a perder, o risco não os assusta. Esperam apenas salvar-se. Essa emergência na emergência não encontra resposta adequada na ajuda dos países individuais e de órgãos supranacionais.

Itália está em estado de choque por causa dessa enorme tragédia.

A Itália sozinha não vai conseguir, mesmo multiplicando, cada um no que lhe compete, o seu próprio compromisso, começando por aqueles que têm responsabilidade de governo. Ao menos, seria preciso que os países euromediterrânicos unissem as suas forças para acolher essas pessoas, dando provas de clarividência, olhando para aquela humanidade como recurso e não como ameaça, e de uma solidariedade praticada e não pregada. As bandeiras de luto não bastam. Esse luto deve ser elaborado e transformado em um novo humanismo. E esse, a bem ver, também é o desafio que deveria dizer respeito à política e aos políticos.

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