Realmente não existem verdades absolutas. Artigo de Leonardo Boff

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28 Setembro 2013

Para o Papa Francisco, não é relevante se Eugenio Scalfari é crente ou não, já que cada um tem sua própria história e o seu caminho, mas é importante a capacidade de estar aberto à escuta.

A opinião é do teólogo brasileiro Leonardo Boff, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 27-09-2013,

Segundo o teólogo, o diálogo do Papa Francisco com os não crentes "pode realmente desenvolver e abrir uma nova época de modernidade ética que não olha só para a tecnologia, a ciência e a política, mas que também pode nos levar à superação da atitude de exclusão até aqui típica da Igreja Católica, da arrogância de quem considera que a sua Igreja é a única verdadeira herdeira da mensagem de Jesus".

"O Cristianismo é um fenômeno ocidental. Ele deve encontrar o seu espaço na nova fase da humanidade, na fase planetária. Só assim pode ser uma Igreja de todos e para todos", afirma Boff.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caro diretor, escrevendo uma carta a um jornal e respondendo às perguntas feitas através de um jornal por Eugenio Scalfari, o Papa Francisco fez um ato de extraordinária importância. Não só porque o fez de uma forma sem precedentes, mas também porque o fez como um homem que fala a outro homem, no contexto de um diálogo aberto a todos, que nos leva a nos colocar no mesmo nível que os outros.

E, de fato, Francisco, que, como sabemos, prefere a definição de bispo de Roma ao de papa, respondeu a Eugenio Scalfari de modo cordial, com a inteligência calorosa do coração, ao invés da inteligência intelectual fria. A sua razão pode ser definida como uma "razão sensível", como se diz hoje na discussão filosófica na Europa, nos Estados Unidos e até mesmo entre nós, aquela que fala diretamente ao outro, ao seu profundo, e não se esconde atrás de doutrinas, dogmas, instituições.

Nesse sentido, para Francisco, não é relevante se Scalfari é ou não crente, porque cada um tem a sua própria história e o seu caminho, mas é importante a capacidade de estarmos abertos à escuta. Nas palavras do grande poeta espanhol Antonio Machado, "a tua verdade? Não, a Verdade. E vem comigo buscá-la. A tua, guarda-a contigo". Mais importante do que saber é nunca perder a capacidade de aprender. Esse é o sentido do diálogo.

Com a sua carta, Francisco mostrou que todos buscamos uma verdade mais plena e mais ampla, uma verdade que ainda não possuímos. Para encontrá-la, não servem os dogmas e as doutrinas, mas, no máximo, o pressuposto de que ainda existem respostas a se buscar, que existe um mistério, e que essa busca é uma força que nos coloca a todos no mesmo plano, os crentes, assim como os não crentes, os fiéis de Igrejas diferentes, cada um dos quais tem o direito de trazer a sua visão do mundo.

Não é por acaso que cada fé conhece profundas dificuldades, e que uma em particular reúne todas: é a contradição terrível que atravessa crentes e ateus, a pergunta sobre como Deus pode permitir as grandes injustiças do mundo. É a pergunta que o Papa Bento XVI também se fez com desânimo em Auschwitz, despojando-se por um instante do seu papel de pontífice e falando somente como um homem, de coração aberto. É a pergunta: "Onde estava Deus quando isto acontecia?".

Todos nós, cristãos, devemos aceitar que a resposta não existe, que a pergunta ainda está em aberto. Deus pode ser o que a nossa razão não entende. Que a inteligência somente não pode responder a tudo, que o Gênesis, como dizia o filósofo da esperança, Ernst Bloch, não está no princípio, mas sim no término, que as coisas caminham em uma boa direção que compreenderemos apenas no fim. Só no fim podemos dizer verdadeiramente: "E tudo é bom", porque enquanto vivemos nem tudo é bom.

Verdades absolutas, verdades relativas? Eu prefiro responder com o bispo brasileiro do coração da Amazônia, poeta, profeta e pastor, Pedro Casaldáliga: "Só Deus e a fome são absolutos".

Por isso, eu mesmo tenho muita confiança no que Francisco poderá fazer e me sinto em diálogo com ele. Ele já fez uma importante reforma do papado e fará uma da Cúria, e em muitos discursos indicou como todos os temas podem ser discutidos, uma afirmação impensável há pouco tempo. Temas como o celibato dos padres, o sacerdócio das mulheres ou a moral sexual e a homoafetividade eram simplesmente proibidos para bispos e teólogos, e agora não são mais.

Acredito que esse papa é o primeiro a não querer um governo monárquico, o "poder" de que fala Scalfari, mas, ao invés, quer ficar o mais próximo possível ao Evangelho, obtendo dele os princípios de misericórdia e compreensão, mantendo a humanidade no centro.

Por isso também o seu diálogo com os não crentes pode realmente desenvolver e abrir uma nova época de modernidade ética que não olha só para a tecnologia, a ciência e a política, mas que também pode nos levar à superação da atitude de exclusão até aqui típica da Igreja Católica, da arrogância de quem considera que a sua Igreja é a única verdadeira herdeira da mensagem de Jesus.

Por isso, é importante nunca esquecer que Deus enviou o seu Filho ao mundo, e não somente aos crentes. E ele ilumina cada pessoa que vem a este mundo, como diz o Evangelho de São João.

Nesse sentido, como eu já escrevi a Francisco, é urgente a um Concílio Vaticano III, aberto a todos os cristãos e não somente aos católicos, a todas as pessoas, até mesmo ateias, que possam nos ajudar a analisar as ameaças que pairam sobre o planeta e como enfrentá-las. As mulheres, em primeiro lugar, já que é a própria vida que está sendo ameaçada. O Cristianismo é um fenômeno ocidental. Ele deve encontrar o seu espaço na nova fase da humanidade, na fase planetária. Só assim pode ser uma Igreja de todos e para todos.

Em Francisco, que já demonstrou isso na Argentina, eu não vejo a vontade de conquistar e de fazer proselitismo, mas sim de testemunhar e de percorrer, como ele escreveu a Scalfari, um trecho do caminho juntos: o cristianismo é em movimento, como Jesus caminhava junto com os Apóstolos. E em tudo isso a dimensão ética e um senso dos direitos universais é mais importante do que pertencer ou não a uma Igreja, como no caso de Eugenio Scalfari.

Devemos olhar para a dimensão luminosa da história mais do que para as suas sombras, viver como irmãos e irmãs na mesma Casa Comum, na Mãe Terra, respeitando as diversas opções, sob um único grande arco-íris, sinal da transcendência do ser humano.

Um longo inverno acabou, espera-nos uma primavera com a sua dimensão alegre de flores e de frutos, uma primavera em que vale a pena ser humano, também na forma cristã dessa palavra.

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