A verdade, o poder e os modelos de subjetivação em Foucault

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25 Setembro 2013

Fotos: Ricardo Machado

“Técnica e tecnologia são métodos articuladores para compreender a verdade das práticas e a verdade como prática. Esse pressuposto inquire a verdade no seu rastro histórico, por meio da genealogia que explora outros campos da verdade, confrontando-a com sua construção e não com seu valor lógico”, sustenta Castor Bartolomé Ruiz, professor da graduação e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos. A explicação serviu para situar os participantes da conferência “Foucault e as tecnologias de subjetivação”, no dia 23-09-2013, às 19h30, na Sala Ignácio Ellacuría e Companheiros, no IHU.

O evento integra o II Seminário preparatório para o XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea.

Poder

O professor explicou que o poder não se manifesta como essência, na perspectiva de Foucault, mas como prática. “Todo o poder é um efeito de verdade e toda a verdade produz efeitos de poder. A imbricação do poder e da verdade repercute nas formas de subjetivação, isto é, o sujeito subjetiva por meio de sua práxis”, esclarece Castor. A questão que se coloca é como determinados tipos de verdades são aceitos “naturalmente” na sociedade. “As epistemes, os marcos conceituais específicos de cada época, não são explicadas pela essência, mas por meio de uma subjetividade que é construída”, esclarece Castor.

Dispositivo

 

Antes de apropriar o conceito de Foucault sobre dispositivo, o conferencista recuperou o significado da palavra no dicionário em português que todas as acepções não são opostas, mas complementares. “O dicionário vai dizer que dispositivo é um ato de dispor, um dispositivo da lei, um aparelho ou maquinaria e, por fim, uma atitude. É por isso que o conceito de dispositivo não está distante disso, não se define pela materialidade, mas pela função que exerce”, reflete. “Para Foucault o dispositivo não se refere a uma tecnologia, mas articula as tecnologias”, complementa.

De acordo com Castor, não foi em livros que Foucault exibiu mais claramente seu conceito, embora isto esteja permeado em sua obra, mas em uma entrevista de 1977 onde ele esboça uma definição. “Foucault vai dizer que aquilo que se procura individualizar é um conjunto tanto do dito como do não dito, o discurso. O dispositivo tem a peculiaridade de conjugar saberes e práticas. A diferença da estrutura é operativo funcional, porque atua no cruzamento da potencia dos diversos elementos que o compõem”, sustenta.

Verdade

Os dispositivos produzem verdades que, por sua vez, devem colocar em prática determinados modos de comportamento que produzem as subjetividades dos sujeitos. “Os dispositivos se legitimam pela condição paradoxal do ser humano, isto é, quanto mais segurança, maior controle. A disciplina tem seu lado positivo, o problema é quando o controle é levado ao extremo e é por isso que a legitimação dos dispositivos de poder é o paradoxo que se estabelece”, avalia Castor.

Governamentalidade

O professor colocou a seguinte aporia durante a conferência: como governar a liberdade do outro mantendo a aparência de que o outro é livre? Isso porque os dispositivos biopolíticos após o século XVIII se separaram da ideia clássica de governar por meio da lei, mas sim por indução de vontades. Nesse sentido, o objetivo da governamentalidade é menos de colocar o sujeito como um súdito e mais de conduzir a verdade para governa-lo. “Governar o desejo significa governar a liberdade, inclusive produzindo os desejos, denominados por Foucault como técnicas governamentais”, salienta.

Tecnologias e subjetivação

Foucault entende que o conceito de governamentalidade serve para pensar criticamente como as tecnologias de controle operam no sistema capitalista. “Isso representa um movimento teórico que avança em relação as teorias de consenso. Foucault se propõe a pensar a política da liberdade como forma de governo. Liberdade liberal é a única teoria de governo que está em função desde o século XVII e até agora não fomos capazes de pensar outras formas. Não houve outro modelo de governo inventado”, considera o professor.

Em contrapartida ressalta. “Não é algo totalmente perverso, há elementos positivos e são justes estes elementos que legitimam essa forma de governar. O interesse individual longe de ser uma verdade autônoma, pode ser um desejo coletivo. O sujeito age como se fosse indivíduo, mas está inserido em um modelo em que é conduzido a agir de determinada maneira”, esclarece Castor.

Quem é Castor Ruiz

 

 

Castor Bartolomé Ruiz é professor nos cursos de graduação e pós-graduação em Filosofia da Unisinos. É graduado em Filosofia pela Universidade de Comillas, na Espanha, é mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e doutor em Filosofia pela Universidade de Deusto, Espanha. É pós-doutor pelo Conselho Superior de Investigações Científicas.

Escreveu inúmeras obras, das quais destacamos:

Os paradoxos do imaginário (São Leopoldo: Unisinos, 2003);

Os labirintos do poder. O poder (do) simbólico e os modos de subjetivação (Porto Alegre: Escritos, 2004) e

As encruzilhadas do humanismo. A subjetividade e alteridade ante os dilemas do poder ético (Petrópolis: Vozes, 2006).

Leia, ainda, o livro eletrônico do XI Simpósio Internacional IHU: o (des) governo biopolítico da vida humana.

Para ler mais:

* Homo sacer. O poder soberano e a vida nua. Revista IHU On-Line, edição 371, de 29-08-2011, disponível em http://bit.ly/naBMm8

* O campo como paradigma biopolítico moderno. Revista IHU On-Line, edição 372, de 05-09-2011, disponível em http://bit.ly/nPTZz3

* O estado de exceção como paradigma de governo. Revista IHU On-Line, edição 373, de 12-09-2011, disponível em http://bit.ly/nsUUpX

* A exceção jurídica e a vida humana. Cruzamentos e rupturas entre C. Schmitt e W. Benjamin. Revista IHU On-Line, edição 374, de 26-09-2011, disponível em http://bit.ly/pDpE2N

* A testemunha, um acontecimento. Revista IHU On-Line, edição 375, de 03-10-2011, disponível em http://bit.ly/q84Ecj

* A testemunha, o resto humano na dissolução pós-metafísica do sujeito. Revista IHU On-Line, edição 376, de 17-10-2011, disponível em http://migre.me/66N5R

* A vítima da violência: testemunha do incomunicável, critério ético de justiça. Revista IHU On-Line, edição 380, de 14-11-2011, disponível em http://bit.ly/vQLFZE

* Genealogia da biopolítica. Legitimações naturalistas e filosofia crítica. Revista IHU On-Line, edição 386, de 19-03-2012, disponível em http://bit.ly/GHWSMF

* A bios humana: paradoxos éticos e políticos da biopolítica. Revista IHU On-Line, edição 388, de 09-04-2012, disponível em http://bit.ly/Hsl5Yx

* Objetivação e governo da vida humana. Rupturas arqueo-genealógicas e filosofia crítica. Revista IHU On-Line, edição 389, de 23-04-2012, disponível em http://bit.ly/JpA8G3

* A economia e suas técnicas de governo biopolítico. Revista IHU On-Line, edição 390, de 30-04-2012, disponível em http://bit.ly/L2PyO1

* O advento do social: leituras biopolíticas em Hannah Arendt. Revista IHU On-Line, edição 392, de 14-05-2012, disponível em http://bit.ly/J88crF

* O trabalho e a biopolítica na perspectiva de Hannah Arendt. Revista IHU On-Line, edição 393, de 21-05-2012, disponível em http://bit.ly/KOOxuX

* Giorgio Agamben, genealogia teológica da economia e do governo. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz na Revista IHU On-Line edição 413, de 01-04-2013, disponível em http://bit.ly/1aobf9t.

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