Sinodalidade e discernimento, chaves de leitura da histórica entrevista do papa Francisco

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Por: Jonas | 24 Setembro 2013

Dois teólogos espanhóis de prestígio avaliam a histórica entrevista concedida pelo Papa às revistas da Companhia de Jesus. José María Castillo destaca a sinodalidade como a chave mais importante e Juan Masiá enfatiza a importância que Francisco dá ao discernimento e sua capacidade de “pensar duvidando e crer confiando”.

A compilação dos artigos dos dois teólogos é feita por José Manuel Vidal e é publicada no sítio Religión Digital, 21-09-2013. A tradução é do Cepat.

De Gregório VII a Francisco

“O futuro da Igreja está na recuperação de seu passado. O passado que nos leva diretamente ao galileu Jesus de Nazaré. Se não partirmos por esse caminho, a Igreja não irá a lugar algum. Se o Evangelho é o centro, o decisivo não será a religião. O centro será a humanidade, tudo o que nos humaniza. Por isso, o Papa é notícia mundial”, enfatiza o teólogo José Maria Castillo (foto).

 
Fonte: http://goo.gl/NxB4cG  

Eis o artigo.

Tenho a impressão de que somos muitos os católicos, e muitos os cidadãos, que ainda não nos demos conta da extraordinária importância que implica a longa entrevista que o papa Francisco tornou pública, para tornar conhecidas suas ideias e seus projetos.

O Papa é claro no que diz. É de enorme interesse o que Francisco afirma sobre a moral sexual, a respeito da qual ferrenhamente o clero tanto insiste, sobre suas ideias políticas, sobre a misericórdia e a bondade que todos nós, seres humanos, devemos colocar em prática, sobre a religiosidade e outras questões que seria demorado enumerar. No entanto, o assunto mais importante tratado pelo Papa, em meu modo de ver, suspeito que escapa para muita gente. Trata-se de que a teologia, como acontece com a biologia ou a medicina, não está ao alcance de todo mundo. Mesmo assim, jornalistas e comentaristas, que não se atreveriam a opinar sobre questões técnicas de biologia, avaliam tranquilamente assuntos teológicos que exigem muitos anos de estudo e reflexão.

Porém, vamos ao assunto que interessa. Há cerca de mil anos, em 1073, foi eleito papa um monge que assumiu o nome de Gregório VII. Eram tempos ruins para a Igreja. Como se sabe, as investiduras estavam no auge. Os senhores feudais nomeavam bispos, abades, e todo tipo de cargos eclesiásticos de acordo com o seus caprichos (ou segundo suas conveniências). A Igreja estava nas mãos dos leigos, no pior sentido que esta afirmação possa ter. Foi então que Gregório VII decidiu acabar com esta situação, que era necessário e urgente. Contudo, para conseguir êxito, não lhe veio outra solução a não ser concentrar todo o poder da Igreja no papa.

O critério determinante foi formulado pelo melhor conhecedor desta história, Y. Congar: “Obedecer a Deus significa obedecer à Igreja, e isto, por sua vez, significa obedecer ao papa e vice-versa”. Gregório VII afixou suas convicções num famoso documento que consistia em 27 contundentes axiomas, que são resumidos em três critérios patéticos: 1) o papa é senhor absoluto da Igreja; 2) o papa é senhor supremo do mundo; 3) o papa se converte indubitavelmente em santo (H. Küng).

Ao atribuir para si estes poderes, Gregório VII encerrou uma longa etapa de dez séculos na história da Igreja. Séculos nos quais a Igreja floresceu, cresceu e forjou uma cultura, que o monge Hincmaro de Reims soube sintetizar de forma admirável: “A Igreja se expressa em plenitude nos concílios ecumênicos, regulando sua vida histórica por meio dos sínodos em que se reúnem os bispos de uma determinada região”. O que quer dizer que o governo ordinário da Igreja não era gerido a partir de Roma, mas mediante os sínodos locais, que eram presididos pelos bispos de uma região. Sempre tomando as decisões democraticamente, com a participação de todos os membros de cada sínodo local. As nomeações de bispos, as leis litúrgicas e canônicas, etc, eram adotadas nos sínodos. A Igreja não tinha uma estrutura de governo “curial”, mas “sinodal”. Somente assim eram conhecidos os problemas que se precisava resolver, tomando-se as decisões adequadas. Deste modo, aquela Igreja contou com uma vida crescente, durante mil anos.

O atual bispo de Roma, o papa Francisco, acaba de anunciar a todos que a Igreja retoma o governo sinodal. Será como aquele do primeiro milênio? Não pode ser idêntico, contudo, pelo que foi dito pelo papa, certamente, irá por esse caminho. Disse Francisco em sua recente entrevista:

“Os dicastérios romanos estão a serviço do Papa e dos bispos: têm que ajudar as Igrejas particulares e as conferências episcopais. São instâncias de ajuda. Mas, em alguns casos, quando não são bem entendidos, correm o risco de se converterem em organismos de censura. Impressiona ver as denúncias de falta de ortodoxia que chegam a Roma. Penso que quem deve estudar os casos são as conferências episcopais locais, às quais Roma pode servir de valiosa ajuda. A verdade é que os casos são tratados melhor no próprio local. Os dicastérios romanos são mediadores, não intermediários nem gestores.”

Esta é a ideia que Francisco tem sobre o papel que corresponde às Congregações da Cúria Vaticana. O Papa as coloca a serviço das Conferências Episcopais. E não ao contrário.

Todavia, a coisa não fica só nisto. O redator da entrevista relembra que no último dia de São Pedro, 29 de junho, o papa definiu “a via da sinodalidade” como o caminho que conduz a Igreja unida “a crescer em harmonia com o serviço do primado. Em consequência, minha pergunta é esta: Como conciliar harmonicamente primado petrino e sinodalidade? Que caminhos são praticáveis, inclusive na perspectiva ecumênica?” Esta pergunta é forte e assim que se começar a colocar em prática o projeto apontado, tudo mudará. Porque, no fundo, o que diz é que todos nós, cristãos, sentaremos juntos – independente da confissão de cada um – para seriamente dividirmos nossas propostas, até chegarmos ao feliz dia de recuperação da unidade perdida. Por isso, sem dúvida, o próprio Francisco seguiu dizendo:

“Devemos caminhar juntos: as pessoas, bispos e o Papa. Devemos viver a sinodalidade em vários níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do sínodo, porque a atual parece-me estática. Isto poderá também ter valor ecumênico, especialmente com os nossos irmãos ortodoxos. Deles se pode aprender mais sobre o sentido da colegialidade episcopal e sobre a tradição da sinodalidade. O esforço de reflexão comum, vendo o modo como se governava a Igreja nos primeiros séculos, antes da ruptura entre Oriente e Ocidente, acabará dando frutos”. E o redator acrescenta estas palavras de Francisco, palavras que precisam remover as bases da teologia: “Temos que caminhar unidos nas diferenças: não existe outro caminho para nos unirmos. O caminho de Jesus é esse”.

Com uma adição final que cala a boca daqueles que vivem do protesto contra o que vem de Roma:

“É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Temo a solução do “machismo de saias”... As mulheres têm vindo a colocar perguntas profundas que devem ser tratadas... O gênio feminino é necessário nos lugares em que se tomam as decisões importantes. O desafio hoje é exatamente esse: refletir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja”.

Este papa é notícia mundial porque assumiu seriamente o Evangelho. E mais seriamente ainda, a centralidade de Jesus na vida. O central não é a religião e seus ritos, nem os dogmas e suas ortodoxias. Francisco não fala sobre nada disso. Aqui, não se escuta a monotonia da pregação clerical, moralizante, ameaçadora e frequentemente excludente. O futuro da Igreja está na recuperação de seu passado. O passado que nos leva diretamente ao galileu Jesus de Nazaré. Se não partirmos por esse caminho, a Igreja não irá a lugar algum. Se o Evangelho é o centro, o decisivo não será a religião. O centro será a humanidade, tudo o que nos humaniza. Por isso, o Papa é notícia mundial.

Francisco, Papa do discernimento

“Pensador, que sabe duvidar, e crente, que sabe confiar, Jorge Mario Bergoglio opta pela genialidade de São Tomás e não pelo tomismo decadente”, avalia o teólogo Juan Masiá (foto).

 
Fonte: http://goo.gl/NxB4cG  

Eis o artigo.

Contra o vício do fanatismo, a virtude da incerteza. Atualmente, abundam os fanatismos religiosos, políticos e ideológicos. Em nome de não sei qual divindade, planejam-se terrorismos. Em nome de não sei qual liberdade e democracia, desencadeiam-se guerras injustas, mal colocadas como preventivas. Em nome de não sei qual ideologia partidarista, camuflam-se corrupções e mente-se nos parlamentos, desmentindo evidências.

E a justificativa para todos esses fanatismos é afirmada a partir da retórica das certezas absolutas, apoiadas por intolerâncias, às vezes teístas, às vezes ateias, mas sempre exclusivistas e discriminatórias: os maus são do outro grupo, que é claramente diferente do nosso, e supõe-se que merecem ser aniquilados pelo fato desta diferença.

Por isso, o que mais gostei na tão comentada entrevista ao papa Francisco é a sua capacidade de pensar duvidando e crer confiando. Sua releitura é uma dose medicinal de sadia incerteza, terapia contra os fanatismos.

Francisco não gosta de reivindicar o monopólio da meta. “Deus, disse, encontra-se no caminho”. O tradicionalismo restauracionista cristão, que “deseja tudo claro e seguro”, não o convence. Entre linhas, vislumbramos que ele não irá pregar certezas absolutas para enfiá-las na cabeça de um público fanático. Sabe que se expõe a desapontar os fundamentalistas e antecipa a crítica daqueles que o recearem relativista.

“Não, caso se entenda no sentido bíblico, segundo o qual Deus é sempre uma surpresa e jamais se sabe onde e como encontrá-lo, porque não é você quem fixa o tempo, nem o lugar para encontrar-se com Ele. É preciso discernir o encontro. E, por isso, o discernimento é fundamental”.

É notável a ênfase no discernimento em muitos parágrafos da entrevista. Quando repito sua releitura sublinhando palavras-chave, a caneta fluorescente aponta o vocabulário da incerteza confiada e a insegurança segura que é utilizado por Francisco: “acompanhar, buscar, ser criativo, aprender dos outros, aprender com o tempo, consultar, síntese de juventude e velhice, de cultura, fé e vida, caminhar por caminhos novos, sair de si, viver em periferias e fronteiras, animar ao invés de se lamentar, ler os sinais dos tempos, pensar com o pensamento aberto e incompleto, discernir mais do que discutir, narrar mais do que teorizar, levar em consideração as pessoas...”.

Pensador, que sabe duvidar, e crente, que sabe confiar, Jorge Mario Bergoglio opta pela genialidade de São Tomás e não pelo tomismo decadente. Esse tomismo escolástico decadente prevalecia na época de alguns manuais de filosofia que ele estudou no seminário - por certo, com as certezas claras e distintas do próprio tomismo decadente no qual seu predecessor Karol Wojtyla se formou e ensinou -. Contudo, hoje, o papa Francisco opta pela genialidade tomista versus o tomismo decadente. Por isso, opta: para pensar, duvidar, e para crer, confiar.

Continuo relendo a entrevista e destaco o parágrafo conclusivo de uma espiritualidade da incerteza fiel:

“Sim, este buscar e encontrar Deus em todas as coisas deixa sempre uma margem à incerteza. Se uma pessoa diz que encontrou Deus com uma certeza total e nem lhe surge uma margem de incerteza, algo não caminha bem. Se alguém tem respostas para todas as perguntas, estamos diante de uma prova de que Deus não está com ele...”.

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