O Papa Francisco não “comunica”, mas cria “eventos comunicativos”. Entrevista com Antonio Spadaro

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Por: André | 17 Setembro 2013

“O Papa Francisco, na realidade, mais do que ‘comunicar’, cria ‘eventos comunicativos’, dos quais participa ativamente quem recebe a sua mensagem. Neste sentido se tem uma reconfiguração da linguagem que coloca acentos diferentes e novas prioridades. A celeridade da mensagem no Papa Francisco produz um paradoxo: sua autoridade é aumentada e potencializada inclusive porque a distância é abolida. Diante dele se percebe a autoridade da figura e ao mesmo tempo não se percebe distância alguma”, diz o padre Antonio Spadaro, em entrevista publicada na revista italiana L’Espresso, 11-09-2013. A tradução é de André Langer.

 
Fonte: http://bit.ly/1goTsjR  

 

Eis a entrevista.

Padre Antonio Spadaro, diretor da revista Civiltà Cattolica, jesuíta assim como Francisco, especialista em meios e comunicação: pode-se dizer, citando o abusado McLuhan, que na carta do Papa a Eugenio Scalfari publicada pelo La Repubblica que o meio é parte integrante da mensagem?

Certamente. Para o Papa Francisco não há uma mensagem e um meio. Há uma mensagem que plasma e modela a forma na qual se expressa. A primeira forma é o seu próprio corpo. O Papa Francisco administra a própria corporeidade de maneira naturalmente desbalanceada sobre o interlocutor. Não tem uma compostura rígida, mas é uma flexibilidade que o leva a assumir uma profunda concentração absorvida, como acontece quando celebra a missa, por exemplo; ou um impulso no qual poderia dar a impressão de perder o equilíbrio. A estátua mais famosa de Santo Inácio, que está em Roma na Igreja do Gesú, o faz aparecer como se fosse uma chama. Exatamente assim, o Papa Francisco administra sua corporeidade, de maneira plástica, assumindo a postura que a mensagem, que quer comunicar, exige. Ele mesmo se transforma em “mensagem”. Se isto vale para o seu corpo, vale também para a sua voz e para a comunicação epistolar de que ele tanto gosta.

Escrever uma carta a um jornalista, telefonar para um fiel, pousar para fotografias ao lado de outros fiéis com o celular. Por que continua chamando a atenção a excepcionalidade destes “gestos normais” do Papa Francisco?

O Papa gosta da normalidade. Muitas vezes disse que precisa ser “normal”. E esta é a chave de leitura de seus gestos. As coisas que nos chamam tanto a atenção eram parte da sua vida cotidiana de bispo próximo das pessoas. Bastaria fazer uma investigação na internet sobre as imagens de Jorge Mario Bergoglio para ver quantas vezes ele, como bispo, aparece fazendo gestos que nos impressionam por sua normalidade. Os argentinos não se impressionaram. Portanto, há aqui uma estratégia comunicativa: há somente uma vontade de ser ele mesmo e de ser pastor como sempre foi. Recordemos o que disse em uma entrevista no Brasil: se você vai ver alguém de quem gosta muito, amigos, com vontade de conversar, vai visitá-los dentro de uma caixa de vidro? Não poderia, disse então o Papa, vir aqui para ver este povo, que tem um coração tão grande, dentro de uma caixa de vidro. Para o Papa Francisco, a Igreja é a “santa mãe Igreja”: é uma mãe, e – disse ainda Bergoglio – não existe nenhuma mãe “por correspondência”. A mãe dá afeto, toca, beija, ama... A linguagem do Papa Francisco não é especulativa, mas missionária, proferida não para ser “estudada”, mas para ser “ouvida”, alcançando logo a qualquer pessoa que o escute de tal modo que reaja.

Do ponto de vista da comunicação e da comunicação digital em particular, esta iniciativa parece entrar perfeitamente na lógica 2.0 da não-mediação, da relação direta entre usuário e fonte, embora paradoxalmente neste caso seja o próprio Papa Francisco quem se comporta como usuário dirigindo-se diretamente ao seu interlocutor? Ou é, ao contrário, um sinal oposto, a ideia de que uma referência identitária, como o jornal La Repubblica e um jornalista símbolo de laicidade e diálogo como Scalfari, pode ser o “meio” ideal para chegar aos destinatários da mensagem?

Recordemos, sobretudo, que esta não é a primeira comunicação do Papa com um jornal. Trata-se de uma etapa dentro de um caminho que não prevê estratégias rígidas, mas um discernimento atento. Caminhando se faz o caminho, de fato. E neste sentido creio que o Papa não procura ficar em um único modo de comunicação. O Papa Francisco, na realidade, mais do que “comunicar”, cria “eventos comunicativos”, dos quais participa ativamente quem recebe a sua mensagem. Neste sentido se tem uma reconfiguração da linguagem que coloca acentos diferentes e novas prioridades. A celeridade da mensagem no Papa Francisco produz um paradoxo: sua autoridade é aumentada e potencializada inclusive porque a distância é abolida. Diante dele se percebe a autoridade da figura e ao mesmo tempo não se percebe distância alguma. O Papa Francisco é facilmente “tuitável” por sua espontânea capacidade de comunicar conteúdos densos que movem mentes e corações em frases muito curtas, inclusive em menos de 140 caracteres. Por outro lado, o Papa Francisco gosta muito da conversa tranquila, da conversa longa, que sente mais apta para casos como o da carta a Scalfari. Portanto, a flexibilidade do corpo do Papa vale também para sua palavra, seja escrita, seja oral. E não há nenhuma contradição, mas integração de modalidades comunicativas diferentes.

Falemos dos conteúdos: “caminhar juntos” e “verdade não absoluta” parecem ser as palavras chaves. Está de acordo? Qual é o valor desta mensagem?

O Papa tem em mente uma Igreja que seja casa para a humanidade. Como se entendeu bem no Rio de Janeiro, ele tem em mente uma sociedade na qual todos são chamados a construir. Os cristãos são chamados a trabalhar com todos, como cidadãos de um Estado laico, na construção dos vínculos sociais, inclusive graças às diferenças. E é a fé, para o Papa Francisco, que permite ver e compreender a arquitetura das relações humanas na cidade. O caminho é de todos e caminha-se juntos. Isto para ele é o plano de Deus sobre a cidade humana. A verdade para ele não pode ser “absoluta”. Isto não é no sentido do relativismo. O Papa tenta dizer que se a verdade fosse de realmente “absoluta”, estaria “dissolvida” (este é o sentido latino da palavra) para mim, para você, para as pessoas, para a história, para os contextos. E não é assim: cada um toma a verdade do Evangelho a partir da própria história, da própria cultura. A verdade neste sentido é relativa à própria e precisa situação existencial. Neste sentido, Deus “não é uma ideia absoluta”.

Francisco se move no cenário nacional e internacional como político de categoria. Seus gestos e suas palavras são políticos, basta pensar na visita a Lampedusa, nas intervenções sobre a homossexualidade, até a última proposta de utilizar os conventos fechados para acolher os refugiados. Há o risco de que este agir político possa ser instrumentalizado e usado para objetivos partidários?

 
Fonte: http://bit.ly/1goTsjR  

O Papa pode ser facilmente instrumentalizado, é certo. Basta interpretá-lo ideologicamente e o jogo está feito. Mas o Papa não se cansa de repetir: o evangelho é interpretado com o Evangelho e não com qualquer outra coisa. Portanto, se o gesto ou a palavra do Papa for interpretada com categorias não evangélicas, muda-se o sentido. Este Papa é altamente exigente também para os jornalistas, creio. Está falsificando as categorias mais óbvias do recente passado, tais como: conservador/progressista, por exemplo. Diante de sua experiência pastoral, somos todos chamados a entender melhor, a escutar melhor, a não acelerar os julgamentos, a ter a paciência dos tempos longos. A tentação é ficar preso a categorias velhas e substancialmente políticas, mas não evangélicas.

A Igreja e a comunicação. Você e a revista que dirige, a Civiltà Cattolica, estão experimentando caminhos e modalidades inovadoras sobre a base do pressuposto de que a internet e as redes sociais em particular não são um meio, mas um lugar de vida. Neste sentido devemos esperar uma presença mais assídua e “nova” do Papa Francisco nos ambientes digitais?

Sim, estamos vendo isso. Digo sim no sentido de que o Papa desembarcou em novas redes sociais e está necessariamente mais presente do que quando não estava nelas. Tento dizer que, como o Papa expressa uma autenticidade à qual muitos são sensíveis, sua palavra naturalmente flui no ambiente digital e é compartilhada e comentada. A Rede está cheia de re-tweet dos tweet do Papa ou de tweet de pessoas que compartilham de forma privada esta ou aquela frase sua. Mas a rede também se enche de fotos e de vídeos. A rede não é um ambiente fictício, mas é parte da experiência cotidiana do homem de hoje. Na rede surgem as perguntas e as esperanças das pessoas. O Papa Francisco, com sua mensagem tão imediata, está presente no ambiente digital, sobretudo, graças às pessoas que o levam a este ambiente. Uma experiência pessoal, caso se queira: lembro do primeiro encontro dos jovens com o Papa em Copacabana. Eu estava ali, na praia, comentando diretamente para a Rai Uno o que estava acontecendo. Em um determinado momento, caiu o sinal de vídeo satelital internacional. As televisões do mundo inteiro deixaram de transmitir as imagens ao vivo. Desde este momento em diante, o que vimos foi apenas o material em fotos e vídeos compartilhados nas redes sociais pelos jovens presentes ao evento. Foi um evento que me fez refletir muito sobre esta dinâmica social que implica o Papa e que ele é capaz de provocar.

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