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12 Setembro 2013

Armas químicas não são divisões panzer. Assad não é Hitler, embora valha a pena explorar certas semelhanças. Mas, nos debates atuais, eu não posso deixar de ouvir ecos de um catálogo inteiro de meias-verdades e de subterfúgios que eu encontrei ao longo dos anos.

A opinião é de Peter Steinfels, professor da Fordham University, cofundador do Fordham Center on Religion and Culture, ex-editor da revista Commonweal e colunista de religião do jornal The New York Times. O artigo foi publicado no blog dotCommonweal, 07-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nesse sábado, eu fiz o meu melhor para jejuar e rezar pela paz na Síria, pelo Oriente Médio e pelo mundo, assim como o papa, secundado pelos nossos bispos, nos pediram para fazer. Mas a minha oração e jejum foram agitados pelas preocupações que tomam um rumo bastante diferente do de muitos dos meus amigos mais próximos e de muitas vozes neste blog.

Alguns dias atrás, quando eu comecei a revirar todas essas coisas na minha mente, eu basicamente pensei que o governo Obama, por todas as razões que ele deu, estava fazendo a coisa certa, inclusive solicitando a aprovação do Congresso. Eu reconheci objeções razoáveis para tomar uma ação militar limitada e punitiva contra o regime de Assad pela sua quebra de mais uma barreira à total depravação na guerra. Para o meu pensamento – e eu pensei muito –, esses argumentos contra a ação eram menos substanciais do que o argumento pela ação. Neste momento, eu estou menos certo disso, principalmente por causa da incapacidade do presidente de conseguir mais apoio internacional.

Mas eu estou muito menos preocupado em acrescentar os meus próprios argumentos àqueles que estão sendo levantados em todo o lugar do que olhar para outra coisa. O que eu sinto que está acontecendo e o que eu tenho incluído nas minhas orações não têm muito a ver com qualquer ponderação cuidadosa de razões. É um clima, um reflexo, uma reação instintiva, e assemelha-se muito mais com um estado de espírito que eu passei anos estudando. Nós nos queixamos, não muito justamente, que os generais sempre travam de novo a última guerra. Mas, na medida em que isso é verdade para generais, não é menos verdade para os ativistas antiguerra. Eles estão sempre se opondo à última guerra.

Eu passei a maior parte do fim dos anos 1960 e início dos 1970 pesquisando, pensando e escrevendo sobre um grupo de intelectuais políticos de esquerda franceses e suas reações à ascensão do poder da Alemanha nazista na década de 1930. Eram pessoas altamente inteligentes e morais, sem nenhum amor pelo nazismo (muitos eram judeus, de fato). Eles também tinham uma profunda suspeita dos militares. Alguns tinham sido atraídos para a política pelo caso Dreyfus. Todos tinham ficado profundamente marcados pelo banho de sangue da Primeira Guerra Mundial.

Agora, eles enfrentavam uma crise após a outra enquanto o Terceiro Reich marchava rumo à guerra – a renúncia da Alemanha à adesão à Liga das Nações (1933) e às cláusulas de desarmamento do Tratado de Versalhes (1934); o rearmamento da Alemanha, a introdução do serviço militar obrigatório e a expansão das forças militares (1935); a reocupação militar da Alemanha da desmilitarizada Renânia, na fronteira da França (1936); os pactos da Alemanha com a Itália (1936) e com o Japão (1936-1937); o fracasso das sanções da Liga contra a invasão da Etiópia por Mussolini (1936); a intervenção alemã e italiana na Guerra Civil espanhola (1936-1939); a anexação da Áustria pela Alemanha (1938); as ameaças da Alemanha contra a Tchecoslováquia (1936-1938), o desmembramento dessa nação depois do Pacto de Munique (1938) e a sua aniquilação (1939).

Entre esses pensadores, especialistas, professores e ativistas políticos franceses, havia diferenças importantes, mas, enquanto eles debatiam cada nova crise, a conclusão era sempre a mesma: não faça nada que envolva o possível uso da ação militar. Cada uma dessas crises, afinal, tinha as suas próprias complexidades, e nenhuma medida militar é sem custos e riscos. Pode-se sempre encontrar razões para a inação.

Por trás de todas as razões, no entanto, estava um simples impulso visceral: uma determinação de nunca fazer nada que repetisse agosto de 1914 e os massacres da Primeira Guerra Mundial. Nenhum grupo podia ter sido mais secular do que aquele que eu estava estudando, mas eles estavam tão comprometidos com o grito "Não à guerra! Nunca mais a guerra!" como qualquer papa recente.

E esses intelectuais de esquerda dificilmente estavam sozinhos nessa reação. Ela era compartilhada nos mais altos círculos das lideranças militares, pelos políticos partidários e tanto pelos desgostosos de esquerda e de direita, e não sem motivo, com as classes governantes da França. No momento em que a paralisia foi rompida, já era tarde demais.

No caso daqueles que eu estudei, essa contínua falta de vontade de recorrer seriamente ao uso da força militar brotava da paixão moral profunda e do mais alto das motivações antiguerra. Qual foi o custo desse clima, ao qual eles contribuíram com a sua devida porção? Causa e efeito na história nunca são claros. Mas eu acho que é covardia moral não contemplar a grande possibilidade de que milhões e milhões de mortes e atrocidades genocidas foram o resultado. Sim, uma paixão para evitar a guerra contribuiu com a sua própria medida não com 1.500 mortes, nem com 100 mil, mas com milhões.

Será que essa triste lição me transformou em um "falcão" [defensor da guerra]? Dificilmente. No próprio momento em que eu estava debruçado sobre esse material deprimente, eu estava protestando contra a guerra do Vietnã. No máximo, reconhecer o domínio paralisante que a Primeira Guerra Mundial tinha sobre a imaginação política e moral desses intelectuais da década de 1930 minou as advertências de alguns norte-americanos de que a retirada do Vietnã derrubaria todos os dominós, assim como outra "Munique". Cuidado com as analogias históricas simples.

Estou sugerindo outra aqui? Armas químicas não são divisões panzer. Assad não é Hitler, embora valha a pena explorar certas semelhanças. Mas, nos debates atuais, eu não posso deixar de ouvir ecos de um catálogo inteiro de meias-verdades e de subterfúgios que eu encontrei na minha pesquisa.

Guerra nunca resolve nada. (Não resolve, mas resolve algumas coisas, embora nunca sem feridas e cicatrizes.) Não somos responsáveis também? (Sim, mas como isso nos exime de agir agora?) Tendo tolerado tanto já, como podemos desenhar uma linha aqui? (E, então, usar o mesmo argumento contra o fato de desenhar uma linha em outro lugar.), Qualquer ação militar não representa riscos de erro de cálculo e escalada? (Absolutamente, e eles devem ser medidos, muito escrupulosamente, contra os riscos de não agir.) Buscar a diplomacia em vez da guerra. (A diplomacia não funciona no vácuo.) Recorrer à força armada deve ser apenas um último recurso. (Concordo, desde que a sua definição de "último recurso" seja realista e não uma questão de regressão infinita ou de um hipotético "algo a mais" que carece de toda substância prática.)

Eu não sei quantas vezes meus intelectuais justificadamente antiguerra insistiram que Hitler deveria ser "posto contra a parede" diplomaticamente, ou que a França tinha plantado as sementes do nazismo pela dureza do Tratado de Versalhes, ou que a França dificilmente poderia se queixar das depredações nazistas já que ela era culpada de crimes coloniais na Indochina e na Argélia, ou que falar sobre ação militar era apenas bater os tambores da guerra como em 1914, ou que nada podia ser feito sem um fronte unificado de aliados antialemães. Esses intelectuais estavam sempre condenando, deplorando, advertindo, apelando, mas nunca a favor da ação. Por trás disso, como eu disse, estava o fantasma de 1914.

E por trás das recusas apaixonados da "loucura" de Obama, como um querido amigo liberal rotulou em um e-mail enviado a mim, está o fantasma do Iraque. O que mais me impressionou na deploração dos meus amigos e conhecidos diante da "loucura" de Obama é como se assume que toda a questão está tão clara quanto pode ser. De fato, há lições importantes, até mesmo assustadoras, a serem tiradas do Iraque. Algumas delas moldam claramente a política do atual governo. Mas nenhuma delas deveria ser um veto geral à força militar. Na minha opinião, isso seria apenas mais uma estupidez acrescentada às muitas da nossa invasão do Iraque. Não seria uma correção do Iraque, mas sim um prolongamento dele.

Eu não estou pensando aqui naqueles que acreditam que a fidelidade a Jesus exige um testemunho qualificado de não violência por parte dos cristãos e da Igreja. Nem estou pensando naqueles que estão seriamente lutando para aplicar o pensamento da guerra justa. Estou pensando naqueles dentre eles, no entanto, que fazem apelos pacifistas ou chegam a conclusões da guerra justa enquanto fingem que esses também são os caminhos mais certos para a paz, a justiça e para um fim ao sofrimento. Seria bom para uma mudança se todos os moralistas fossem tão sinceros sobre os riscos e as incertezas das suas posições como eles exigem que o governo seja sobre os seus.

Em sua primeira noite de volta como apresentador do programa The Daily Show, Jon Stewart basicamente comparou o que estava em jogo na Síria a uma competição entre meninos do sétimo ano sobre quais pênis eram maiores. Sua maior aproximação à sagacidade ocorreu quando ele sugeriu que, tendo ficado em estado de espera enquanto Assad matava 100 mil pessoas, a indignação dos EUA diante das armas químicas simplesmente serviu para dizer ao ditador sírio a forma mais apropriada para matar o seu próprio povo. Eu acho que muitos dos meus amigos iraquianos amargurados teria ficado desconcertado pela juvenilidade desse temperamento, mas teriam sido completamente solidários com a risada de aprovação do público.

Se o Congresso rejeitar qualquer resposta adequada ao uso de gás venenoso pelo regime de Assad, eu não acredito que a diplomacia será fortalecida, ou que o perigo de uma guerra regional será reduzido, ou que a proliferação de armas nucleares será contida, ou que a ordem mundial e as instituições internacionais serão confirmadas. Eu posso ver algumas vantagens, como o fato de restaurar o papel do Congresso no exercício das suas responsabilidades com relação a ações militares. Não é um bom exemplo de uma retirada global dos esforços dos EUA para exercer influência internacional. Isso é o que eu acredito que Obama tem tentado. Mas se esse esforço for conduzido, ou mesmo for visto como conduzido, por uma recusa interior inspirada no Iraque de todas as opções militares, o efeito halo será grande. Sejamos ao menos honestos o suficiente para reconhecer isso.

A credibilidade é um fator significativo nos assuntos internacionais, assim como em outros aspectos da vida. Mas a credibilidade não pode ficar com um presidente ou com um governo. Em uma democracia, finalmente, ela fica com o povo. É por isso que Obama estava certo em pedir a aprovação do Congresso. É por isso que ele estava certo em dizer na Suécia que não era a sua credibilidade pessoal que estava em jogo, mas sim a da comunidade internacional.

Até agora, parece improvável que ele obtenha mais do que uma estreita aprovação no Congresso, se obtiver, e ele recebeu um apoio mínimo de outras nações, principalmente daquelas que partilham os nossos valores. Nessas circunstâncias, talvez a credibilidade seria melhor servida se Obama sublinhasse que "a partir de um respeito decente pela opinião da humanidade", na ausência de um apoio substancial dos representantes do povo e das outras nações, os EUA não vão agir. Mas ele deveria ser absolutamente claro sobre o que ele acredita que está em jogo, por que ele acredita nisso e o que essa escolha pode pressagiar para as gerações futuras.

A ideia de uma ação militar anti-Assad que seja limitada e punitiva é uma contradição em termos? Será que a inteligência tem sido suficiente e honestamente compartilhada ou, reminiscências do Iraque, ela foi possivelmente "cozida"? Que respostas estão previstas para ações de retaliação da Síria, do Hezbollah e do Irã? Como uma ação militar se relaciona com qualquer noção de uma resolução política potencial na Síria?

Essas são perguntas razoáveis, e há, creio eu, respostas razoáveis que podem ser sopesadas, mas não se o nível de dificuldade estiver tão elevado (revelar todas as fontes de inteligência, dar-nos os planos militares em detalhes precisos, oferecer garantia de que não haverá nenhum risco) a ponto de impedir de antemão qualquer conclusão, exceto uma: não agir.

Você pode discutir a sabedoria, a prudência e a moralidade desta ou daquela proposta, a probabilidade desta ou daquela sequência de eventos, ou o equilíbrio entre as consequências de agir e de não agir. Mas você não pode discutir com um miasma de suspeita, raiva e fixação na guerra passada. É isso que eu temo que esteja em operação entre muitas pessoas e eu tenho feito disso parte das minhas orações.

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