As palavras do Papa contra a guerra

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Por: André | 04 Setembro 2013

Que ele estava para fazer um anúncio grave e importante dava para entender desde as primeiras horas da manhã: o texto do Angelus do Papa não foi divulgado aos jornalistas credenciados. O apelo à paz na Síria de Francisco, provavelmente ponderado até o último momento, foi possível conhecer apenas quando o Papa começou a falar. Para encontrar declarações papais tão graves e dramáticas sobre a guerra é preciso remontar às palavras pronunciadas por João Paulo II no Angelus de 16 de março de 2003, às vésperas do ataque ocidental contra o Iraque.

 
Fonte: http://bit.ly/1dEElG2  

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada no sítio Vatican Insider, 03-09-2013. A tradução é de André Langer.

O ancião e enfermo Papa Wojtyla, que havia proclamado o dia 05 de março desse mesmo ano como dia de jejum e oração pela paz no Oriente Médio, e que havia mobilizado todo tipo de iniciativas diplomáticas (ao reunir-se pessoalmente com muitos chefes de Estado e ao enviar os seus embaixadores pessoais a Washington e Badgá), estava fazendo nesse dia o último esforço para que o seu pedido fosse ouvido e a intervenção contra Saddam Hussein não acontecesse. Uma guerra que acabaria poucas semanas depois, mas que jogou o país no caos mais absoluto e na instabilidade, como se pode constatar ainda hoje, 10 anos depois.

João Paulo II chamou os “responsáveis políticos de Bagdá” ao seu “urgente dever de colaborar plenamente com a comunidade internacional, para eliminar qualquer motivo de intervenção armada”. Mas também recordou “aos países membros da ONU e, em particular, aos que compõem o Conselho de Segurança, que o uso da força representa o último recurso, depois de esgotadas todas as outras soluções pacíficas, segundo os bem conhecidos princípios da própria Carta da ONU”.

E acrescentou, com palavras que hoje ressoam profeticamente por seu realismo: “É por isso que (diante das tremendas consequências que uma operação militar internacional possa ter para a população do Iraque e para o equilíbrio de toda a região do Oriente Médio, tão afetada, além dos extremismos que poderiam dela derivar) digo a todos: ainda há tempo para negociar, ainda há espaço para a paz; nunca é tarde demais para se compreender e continuar negociando. Refletir sobre os próprios deveres, envolver-se com negociações eficazes não significa humilhar-se, mas trabalhar com responsabilidade pela paz”.

Depois, o Papa Wojtyla levantou o olhar do discurso escrito que estava no atril e acrescentou: “Eu pertenço a essa geração que viveu a Segunda Guerra Mundial e sobreviveu. Tenho o dever de dizer a todos os jovens, aos que são mais jovens que eu, que não tiveram esta experiência: ‘Nunca mais a guerra!’, como disse Paulo VI em sua primeira visita às Nações Unidas. Devemos fazer todo o possível! Sabemos bem que a paz a qualquer preço não é possível. Mas todos sabemos quão grande é esta responsabilidade. Então, oração e penitência!”.

Com o seu apelo grave e forte, o Papa Francisco se inclui na tradição dos Pontífices que levantaram a voz durante o último século, quase sempre sem serem ouvidos, para deter as guerras. Há uma linha que une o grito de paz contra o “inútil massacre” de Bento XV durante a Grande Guerra, com os apelos de Pio XII, que tratava de evitar o abismo do segundo conflito mundial, e mais tarde com a Guerra na Coreia, que demonstraram que Pacelli, Pontífice tenazmente anticomunista, teve muito cuidado para não se deixar “enrolar” pelo presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, como capelão de novas “cruzadas” ocidentais. A mesma linha segue seu curso com João XXIII, sua Pacem in Terris e a intermediação para frear a guerra por ocasião da crise dos mísseis em Cuba. E prossegue com Paulo VI, que instituiu o Dia Mundial pela Paz e que repetiu na ONU o grito: “Nunca mais a guerra!”. O mesmo grito que saiu das gargantas de Wojtyla e Bento XVI.

No domingo passado, a voz do Papa Francisco soou grave, emocionada, trêmula e ao mesmo tempo firme. Bergoglio falou como pai, como pastor, como bispo, não como político. Considerou todos os elementos que estão em jogo. Condenou com força o horror das armas químicas. Explicou que acrescentar violência à violência e à guerra já existente não representa a solução, mas somente piorará o quadro em si já dramático com consequências que a população civil terá que pagar. A advertência de Francisco foi a de um pai que compartilha a angústia de seus filhos e dá a voz aos “homens e mulheres de paz” de qualquer parte do mundo. Não são táticas ou considerações geopolíticas. Qualquer tentativa de interpretar o apelo do Papa em termos de se Francisco é mais contra o regime de Assad ou mais a favor de uma potencial intervenção dos EUA na Síria, parece forçada e inadequada. As palavras de Francisco não devem ser interpretadas com o olhar da diplomacia.

É evidente, tanto agora como no passado, que o Papa e os Papas em geral não estão interessados nas estratégias geopolíticas, mas no destino concreto da população civil. A alma do apelo do domingo passado é a atenção por todos os que sofrem e pagam as consequências da guerra. Mas também comovem muitos outros fragmentos do apelo, nos quais Bergoglio falou em primeira pessoa, demonstrando que se sente pessoalmente envolvido: “Meu coração está profundamente ferido pelo que está acontecendo na Síria e angustiado com os dramáticos desenvolvimentos que se preanunciam”.

“Dirijo um forte apelo pela paz, um apelo que nasce do mais íntimo de mim mesmo!”. “Com particular firmeza condeno o uso das armas químicas!”, insistiu. “Com todas as minhas forças, peço às partes em conflito que escutem a voz da própria consciência”, gritou, convidando a comunidade internacional para fazer todos os esforços possíveis para promover, sem duvidar um segundo, “iniciativas claras pela paz”.

O dia de jejum e oração do próximo sábado, 07 de setembro, é um convite que Francisco estendeu muito além das fronteiras da Igreja, do mundo cristão e do mundo dos crentes de outras religiões. Foi um convite universal a todos os que se preocupam com a sorte da humanidade. Rezar, para quem acredita, ou, independente disso, jejuar é uma forma de participar e construir a paz a partir do compromisso concreto de cada um. O momento é muito mais dramático do que se poderia imaginar, como se pode ver nas alarmantes palavras do bispo Mario Toso, secretário do Pontifício Conselho Justiça e Paz, que, nesta segunda-feira, evocou o espectro de um novo conflito mundial. Inclusive por este motivo, o Papa repetiu as invocações à Virgem, “Rainha da paz”. Ao recordar o que aconteceu durante as últimas décadas, é preciso esperar seriamente que a voz indefesa do Bispo de Roma seja ouvida desta vez.

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